No arranque da época de Incêndios ainda há viaturas por repor
Rebelo Marinho, em entrevista, faz o ponto da situação
O arranque da época de incêndios está a ser marcado pelo facto de várias viaturas, perdidas no combate aos incêndios florestais, em 2013, ainda não terem sido repostas. Os Bombeiros “continuam com a frota diminuída e prejudicada” alerta Rebelo Marinho que, depois do verão fatídico do ano anterior, (que consumiu mais de 140 milhares de hectares e provocou a morte a oito pessoas, sete bombeiros e um autarca), acredita que a nível da prevenção “está tudo igual, continua-se a inventar e a não investir os montantes certos”. Uma coisa é certa, os “Soldados da Paz”, mais uma vez, estão dispostos a enfrentar qualquer adversidade em prol do bem comum. Como garante o Presidente da Federação dos Bombeiros do Distrito de Viseu, “. Não é pelo lado dos bombeiros que a corda parte”. Em entrevista à Gazeta da Beira, Rebelo Marinho, faz o ponto da situação, reflete sobre as principais dificuldades e desafios da classe e fala da sua candidatura a Presidente da Liga Portuguesa de Bombeiros. A realidade dos Bombeiros, com enfoque no Distrito de Viseu, em destaque, nesta edição.
Gazeta da Beira (GB)– Porque é que decidiu cruzar a sua vida com a dos bombeiros? Quando é que tomou essa decisão?
Rebelo Marinho (RM)-Não houve uma razão especial para cruzar a minha vida com a vida dos bombeiros. A minha terra, Sátão, tinha uma reduzida dinâmica associativa, e, nessa medida, despertou muito tarde para a criação de uma associação de bombeiros.
Só em 1977, já em democracia, se fundaram os Bombeiros do Sátão, sendo eu o 1º subscritor dos seus Estatutos e, nessa medida, seu sócio nº 1.
Em 1983, seis anos passados sobre a sua fundação, fui convidado para integrar a sua Direcção, sendo seu Presidente, desde esse ano, até 1996, retomando o cargo, mais tarde, em 2003, até 2006.
Há mais de 30 anos que integro, assim, ininterruptamente, os Órgãos Sociais da AHBV de Sátão, sendo, hoje, seu Presidente da Assembleia Geral.
Como se vê, não houve uma razão especial para integrar, foi mais uma vontade de intervir civicamente, numa associação de bem- fazer, que me aproximou dos bombeiros e, depois, querer construir um quartel e melhorar as condições de trabalho, que me fixou, definitivamente, neste sector do socorro.

GB– É candidato a Presidente da Liga de Bombeiros Portugueses. O que é que o motivou a encabeçar esta lista?
RM- Sou candidato, pela 2ª vez, depois de ter perdido as eleições, em 2011, no Congresso realizado na Régua. Sou um homem dos bombeiros, há mais de 30 anos, ocupei cargos da maior responsabilidade, a nível nacional, fui vice-presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses, fui presidente do Serviço Nacional de Bombeiros, director da Escola Nacional de Bombeiros, detendo, ao que julgo, um conhecimento global e transversal num conjunto de domínios, que afectam os bombeiros de Portugal.
Sem falsas modéstias, considero ter perfil para exercer funções de responsabilidade ao nível do sector dos Bombeiros. Além disso, o mandato dos actuais Órgãos Sociais, prestes a terminar , não é positivo, em alguns casos mesmo, pode considerar- se um fracasso, já que nestes 3 anos, nada de estruturante, e efectivamente modificador, foi alcançado, apenas medidas pontuais, importantes , algumas, mas sem reflexo duradouro no edifício construído.
GB- Fala de um “Futuro de Mudança”. Se for eleito, o que é preciso mudar? Quais os principais projetos que quer desenvolver?
RM- Proponho-me fazer rupturas com modelos, métodos, práticas e rotinas, há muito instituídas, abdicando de fraturas com a nossa matriz e os nossos valores fundadores, que são o nosso património moral e cívico, absolutamente intocável.
Proponho-me lidera ruma Liga mais aberta, mais inclusiva, que acolha sensibilidades e abordagens diferentes, que seja agregadora e envolva todos os que estão no sector dos bombeiros, independentemente de posicionamentos e opções diferenciados.
Para liderar como se exige, a Liga tem que incluir e agregar. É preciso ser capaz de combinar a nossa identidade com a modernidade que os tempos de hoje, recomendam e exigem, ao nível das respostas da gestão operacional e institucional.
É preciso ter uma gestão consequente, isto é, conseguir que todas as medidas adoptadas venham a ter um efeito modificador na vida das nossas estruturas.
Mudar, é conseguir que os objetivos que considero estruturantes, e estratégicos, para os bombeiros, e que, infelizmente, estão todos por atingir, sejam alcançados no próximo triénio, ou, no mínimo, tenham um bom desenvolvimento, nomeadamente, a definição, e implementação de um modelo de financiamento para os bombeiros, a criação de uma estrutura operacional própria e autónoma, livre do comando da ANPC, a aposta no incentivo ao voluntariado, a construção de um regime específico regulador das relações laborais entre assalariados e as AHBVs e, por último, a revisão estatutária da Liga, de modo a torna-la mais pronta, mais habilitada, mais liderante.
Mudar é colocar a Liga como entidade liderante de todos os processos de negociação com as entidades competentes.
GB– No seu entender, quais são, atualmente, as principais prioridades dos Bombeiros de Portugal? o que é que se poderá fazer para contrariar estas dificuldades?
RM– A segurança dos bombeiros deve ser uma prioridade imediata, ao nível das opções técnico-políticas da tutela. Segurança, nas valências da formação, enquanto instrumento de valorização e qualificação dos recursos humanos, da protecção individual, com a atribuição de equipamentos próprios e adequados, para todos os bombeiros dos Quadros de Comando e activo e das comunicações, com distribuição de rádios, em número bastante para todos os CBs e a garantia de cobertura nacional para os equipamentos distribuídos, e a distribuir.
A Liga não pode tirar o pé do acelerador para poder alcançar, com êxito, esses objectivos, que são também exigências do sector.
Para alcançar estas prioridades imediatas, que se prendem com a salvaguarda das vidas dos bombeiros, é urgente determinação, proactividade, agenda própria, independência, ideias e visão, numa palavra, um rumo.
Havendo um rumo, atrás vem a mobilização, a motivação, a energia, essenciais a uma confederação que tem que representar bombeiros e saber interpretar os seus mais genuínos interesses e expectativas.
GB- A “época alta” de incêndios aproxima-se. Os Bombeiros do país, com enfoque especial para os do Distrito de Viseu, a nível de meios, estão preparados para o combate? Depois do ano fustigante que foi 2013 todos os meios foram restabelecidos?
RM- Os meios, de uma forma geral, estão preparados. Os bombeiros, homens e mulheres, aí estão, como sempre, disponíveis, empenhados e prontos para intervirem nos teatros de operações, que esperamos não sejam tão complicados quanto o foram no ano anterior. Não é pelo lado dos bombeiros que a corda parte, estou seguro disso.
Mais 2 meios aéreos, aumento que se regista, sabendo contudo, que os incêndios não se apagam, se não houver pessoal terrestre que possa complementar, e melhorar, a intervenção aérea. E esse pessoal terrestre apenas foi aumentado em 15 elementos, número absolutamente inexpressivo , no conjunto dos 33 CBs do distrito.
Relativamente a 2013, na prevenção está tudo igual, continua-se a inventar e a não investir os montantes certos no primeiro pilar. Se visitarmos as grandes áreas ardidas em 2013, vemos que muito pouco ou nada foi feito e estão criadas as condições objetivas para novas desgraças se a natureza continuar a zangar-se e continuar inclemente. Impõe-se também que se diga que as viaturas perdidas no combate aos incêndios florestais, em 2013, ainda não foram repostas nos CBs, que continuam com a frota diminuída e prejudicada.
A tutela, ao ter feito a opção, a meu ver mal, de repôr as viaturas perdidas nos incêndios, com recurso a verbas do QREN, sabia que corria o risco de chegar ao verão, que agora começa, sem as viaturas nos quartéis, prontas a operar.
A tutela optou por não gastar dinheiro do Orçamento do Estado com estas reposições, mas parece-me que para estas situações excepcionais devia ter havido um tratamento excepcional, mais expedito, mais pronto, mesmo que o Estado tivesse que gastar um pouco mais do seu orçamento, sem estar à espera dos fundos comunitários, cujo desbloqueamento é lento e demorado. Com esta poupança , pode ter ganho o Estado, mas perderam os bombeiros.
GB- Relativamente a meios humanos, há bombeiros suficientes no distrito de Viseu? Tem havido uma renovação de gerações?
RM- Na protecção e socorro, os meios nunca são suficientes. A crise que se abateu sobre o País, levando à emigração de muitos portugueses, naturalmente que atingiu também as nossas estruturas, e elas, hoje, ressentem-se, um pouco da saída de recursos humanos dos seus quadros. Todavia, no geral, os CBs continuam apetrechados e qualificados para uma pronta resposta e um desempenho qualificado.
Os 33 CBs do distrito têm nos seus quadros mais de 3.000 bombeiros, o que me parece um número simpático, que inspira confiança e segurança à população dos 24 municípios do distrito.
A renovação geracional aí está visível nos quadros de comando e activo dos CBs, com bombeiros mais qualificados, cada vez mais, com formação superior, incorporando novas competências e saberes, sempre úteis e valiosos.
Quero destacar a implementação em muitos CBs do distrito de escolas de infantes e cadetes, de jovens dos 6 aos 16 anos, que aprendem nas nossas estruturas os princípios e os valores que os poderão tornar bombeiros, um dia, ou, em alternativa, cidadãos mais conscientes e responsáveis.
GB– As duas unidades de formação no distrito de Viseu, em Castro Daire e em Mangualde estão paradas. Há falta de formação nos Bombeiros? Há perspetivas de novas formações em breve? Qual é a importância das formações?
RM- A formação é uma variável estratégica no processo de afirmação e consolidação dos bombeiros , enquanto técnicos de protecção e socorro e agentes de protecção civil. Só a formação permite uma intervenção diferenciada e um trabalho qualificado e credível.
Todo o investimento feito na formação é um investimento com retorno garantido na protecção e segurança dos portugueses.
As duas Unidades Locais de Formação, sediadas em Viseu, em Castro Daire e em Mangualde, ainda no meu tempo como director da Escola Nacional de Bombeiros (ENB), à semelhança de mais outras 24, no resto do País, estão, infelizmente, subaproveitadas, ou mesmo paradas, no contexto de formação para bombeiros.
A perspectiva de novas formações depende sempre das encomendas formativas que a direcção da ENB vier a fazer.Mas quero dizer que não sou um entusiasta deste modelo formativo, que retirou às federações a condução distrital do processo formativo, em benefício da ANPC/CDOS.
GB- Que balanço faz do seu mandato enquanto Presidente da Federação dos Bombeiros do Distrito de Viseu? Quais foram os acontecimentos mais importantes, o que é que falta fazer?
RM- Apesar de ser parte interessada nessa avaliação, e, nessa medida, correndo o risco de ser parcial, julgo que o balanço é positivo. A Federação, enquanto entidade representativa e agregadora das HBVs/CBs do distrito, tem uma função reivindicativa, mas também uma responsabilidade pedagógica, menos visível. Guardo na memória as duas magníficas manifestações pacíficas levadas a cabo, em 2004 e em 2011, por todos os CBs do distrito, sem excepções, na defesa da sua honra e na defesa do transporte de doentes, respectivamente, demonstrando espírito de corpo, unidade e coesão.
São inesquecíveis a realização do Dia do Bombeiro Português, em 2004, e do 39º Congresso da LBP, em 2005, iniciativas nacionais, que mobilizaram e empenharam todos os bombeiros do distrito.
A iniciativa, à escala distrital, do projecto de escolas de infantes e cadetes, com a coordenação da Federação, é igualmente um momento marcante, na perspectiva do futuro. Como momentos muito marcantes, e que nos entristecem, destaca-se o falecimento de alguns bombeiros em serviço, nos anos que levo de presidente da Federação, e cuja memória evoco, respeitosamente, revendo-me no seu exemplo e sacrifício.
GB- Anteriormente, já chamou a atenção para a necessidade da regulamentação da carreira de bombeiro especialista e criticou as perdas da bonificação do tempo de serviços para efeitos de reforma. Recentemente, o Ministério da Administração Interna aprovou aumentos das indemnizações aos bombeiros em caso de acidente ou morte, contudo, considerou estes aumentos àquem das espectativas. O Governo não tem dado a importância devida ao papel dos Bombeiros? Qual a importância da resolução destas situações para os Bombeiros?
RM-Os governos dão a importância que dão aos bombeiros.E todos se vangloriam de darem muito aos bombeiros. Considero que os apoios sociais têm diminuído significativamente, reduzindo-se, de uma forma grosseira, os incentivos ao voluntariado. Valerá a pena sensibilizar o governo para estas matérias do reconhecimento social, propondo, e apoiando, iniciativas de âmbito nacional e municipal.
GB- Há quem diga que as pessoas só se lembram dos Bombeiros em tempo de fogos. Concorda?
RB- De uma forma geral, as comunidades têm um bom relacionamento com os bombeiros e lembram-se deles, independentemente das épocas críticas. Considero positivo o relacionamento instituído entre os bombeiros e as comunidades, que deve ser, no entanto, reforçado. Os bombeiros são uma instituição marcadamente social, emanam, espontaneamente, da sociedade civil, sendo, por isso, natural, e desejável, esse bom relacionamento.
GB- A maior parte das pessoas tem uma boa atitude cívica de prevenção aos incêndios? Ou, pelo contrário, há, ainda, muitos comportamentos de risco? A que se deve esses comportamentos? Falta de informação ou falta de sensibilidade cívica?
RB– Temos um longo caminho a percorrer no domínio da cultura de prevenção e segurança e isso reflecte-se na adopção de comportamentos de risco que estão longe de estar erradicados.
As campanhas de sensibilização que vão sendo feitas, são insuficientes e devem ser intensificadas. Defendo, há muito, como professor e homem ligados aos bombeiros, que nos curricula escolares devem ser incorporadas disciplinas da área da protecção civil, de forma a inculcar atitudes e comportamentos mais condizentes com hábitos de segurança.Redação Gazeta da Beira
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