“Né”, uma mulher de causas
Primeira árbitra dos escalões principais de andebol no país, em entrevista
Foi candidata à Câmara de Viseu nas passadas eleições autárquicas, mas a Manuela que hoje apresentamos é outra: uma cidadã activa com façanhas diversas que vão desde a ação social, à cultura ao desporto. Esta viseense foi a primeira árbitra de Andebol nos escalões principais a nível nacional. Só não arbitrou jogos da então “primeira divisão masculina”. Apesar das boas classificações, o facto de ser mulher não a deixou ir mais longe. Um exemplo de que o preconceito ainda existe e que a luta pela iguladade de géneros continua atual. Árbitra de Andebol, presidente da CPCJ, professora, mãe. Estas são só algumas das facetas que Manuela Antunes, “Né” para muitos, tem desempenhado ao longo da sua vida. Um vida que sempre quis ativa, em que os afazeres sempre se cruzam e em que sempre há espaço para mais um. Em entrevista à Gazeta da Beira, Manuela Antunes fala na primeira pessoa das suas causas e do seu modo de vida. Um vida “vivida com intensidade e paixão” pelos ideias em que acredita.
• Patrícia Fernandes
Gazeta da Beira (GB) – Como é que surgiu a oportunidade de ser árbitra de Andebol? Quantos anos exerceu esta profissão e o que a motivou a aceitar este desafio?
Manuela Antunes (MA) – Comecei a praticar andebol na escola e, depois de a minha equipa da Escola Secundária Emídio Navarro ter sido campeã nacional no campeonato do Desporto Escolar, a Associação Académica de Viseu resolveu federar a nossa equipa e, a partir daí, para além de jogar, fiz o curso de árbitros e comecei a arbitrar a nível regional. Passado algum tempo, fiz provas para subir à categoria de árbitro nacional b. O facto de a equipa onde jogava ter desistido, e a minha grande paixão por esta modalidade, fez com que seguisse o caminho da arbitragem. Onde permaneci durante 6 anos.
GB – De “grosso modo”, como é que resume esta experiência? Quais os principais marcos a que pode fazer referência?
MA – Foi uma grande experiência, quer em termos desportivos, quer em termos pessoais. No princípio, não foi fácil. As pessoas não estavam habituadas a ver uma mulher arbitrar e, quando eu chegava aos jogos, ficavam em silêncio a observar. Claro que, passado algum tempo, esqueciam-se e desatavam a fazer o mesmo de sempre….a reclamar, a insultar… (risos)
Comecei a arbitrar com colegas de Viseu (homens) e só passado um ano é que surgiu outra mulher em Setúbal e a federação juntou-nos para criar a 1ª dupla de árbitros feminina.
GB – Com certeza, esta experiência também lhe trouxe alguns momentos engraçados e caricatos. Pode partilhar alguma dessas histórias?
MA – Uma das situações mais caricatas foi quando ainda arbitrava com um homem, chegámos a um pavilhão e o responsável pelos balneários olhou para nós os dois e disse quase a tremer “só tenho um balneário para os árbitros…” e, claro que sorrimos e dissemos para não se preocupar que nos equipávamos um de cada vez.
No 1º ano, também, quando era a única mulher nas reuniões técnicas nacionais, o formador tinha sempre o cuidado de dizer….meus senhores e minha senhora!
GB- Uma árbitra, seja de andebol, seja de outro desporto é uma exceção. Acredita que houve algum género de preconceito, isto é, o seu papel, muitas vezes, foi dificultado pelo facto de ser mulher?
MA – Considero mesmo que o facto de eu ser mulher fez com que não chegasse mais longe, isto é, arbitrei jogos de todas as categorias e escalões, apenas não apitei jogos da 1ª divisão masculina (como se chamava na altura). Toda a gente nos dizia, a mim e à minha colega de Setúbal que eramos um dupla boa tecnicamente e disciplinarmente. Tínhamos boa classificação nas observações aos jogos e iam sempre…outros!
Nos dias de hoje, veem-se mais mulheres a arbitrar em Portugal. Muito para cumprir normas das federações europeias, mas uma grande maioria ainda considera que este papel deveria ser masculino. Mentalidades…
A mulher para se impor em determinadas profissões ou atividades muitas vezes “masculiniza-se” para ser aceite. Temos ainda um grande caminho a percorrer no que diz respeito à igualdade de género!
GB – Quanto tempo é que esteve à frente à CPCJ, como é que surgiu este convite e porque é que aceitou?
MA – Integrei a CPCJ na modalidade restrita, como representante da Federação Regional das Associações de Pais de Viseu e, após algum tempo, fui eleita presidente (2008 a 2013). Sempre estive no movimento associativo de pais, desde que sou mãe e aceitei este desafio, no sentido de poder fazer parte integrante do sistema de proteção de crianças e jovens. Pelo qual, na altura, reconheço que não tinha grandes conhecimentos.
GB – De acordo com a sua experiência, há ainda muitas crianças e jovens em situações de risco?
MA – Sim, cada vez mais. As crianças sofrem imenso pela vida atribulada da sua família. Famílias que trabalham imenso, outras destruturadas, sem emprego, sem valores, sem prioridades e por todos estes e outros motivos crescem sem regras, sem afetos, sem os cuidados básicos para um desenvolvimento saudável…
GB -A vergonha e a vontade de esconder os problemas perante a sociedade podem dificultar a atuação a instituição? Quais as principais dificuldades que sentiu enquanto esteve na CPCJ?
MA – As pessoas estão mais alertadas e falam mais nos seus problemas e muitas já procuram ajuda. Mas a grande maioria dos problemas são sinalizados pelas escolas e pelas forças de segurança.
Um dos problemas mais difícil de resolver é salvaguardar as crianças/jovens que vivem o problema da violência doméstica. Na maior parte das vezes, as mães e estas crianças têm que sair de casa, mudar de escola, de cidade para fugir do agressor e o sistema investe muito em campanhas de apoio à vítima, mas não resolve o problema com os agressores. E estas crianças são vitimizadas vezes sem conta.
GB – O que mais podia ser feito para apoiar estas pessoas em situações críticas?
MA – Uma grande aposta seria ao nível das famílias. Intervir na família e não apenas quando já há um problema grave. Seria importante apostar forte na prevenção.
GB – Outra das suas paixões é o teatro. Como é que surgiu?
MA – Já em miúda participava em pequenas peças na escola….mas estive muito tempo sem participar em nada mais organizado. Há 5 anos, participei num projeto do teatro Viriato, com o grande Mestre Jorge Fraga na peça “Rossio” e acho que acordou em mim este bichinho adormecido para não mais parar… , esteve 4 dias em cena e sempre com sala cheia….é uma emoção indiscritível ver todas as pessoas com cara de satisfação e a bater palmas no final da peça.
GB – Faz parte de um grupo amador bastante dinâmico. Atualmente o que estão a fazer e quais são os vossos objetivos futuros.
MA – Tenho a sorte de conhecer gente fantástica e que tem a mesma paixão pelo teatro. Estamos envolvidos em vários projetos que estiveram em cena na Semana do dia Mundial do Teatro e que voltam ao palco no mês de maio, no festival de teatro promovido pela CMViseu. Falo do “Ali Babá e os 40 ladrões” e “Pequenos Delitos” e uma nova peça baseada num livro da jornalista Fernanda Freitas que relata vários depoimentos de mulheres vitimas de violência doméstica.
Estão todos e todas convidados!
GB – É uma pessoa dinâmica que já se envolveu em inúmeros projetos. Os valores do associativismo e da solidariedade são importantes para si? Foi sempre fácil conciliar a vida profissional e familiar a estas iniciativas.
MA – Nunca me esqueço que é fundamental viver a vida sustentada em grandes princípios de solidariedade, amizade, respeito e fazer a diferença pela participação construtiva e colocar a minha família sempre em primeiro lugar! Claro que não posso esquecer o meu braço direito e esquerdo que é a minha mãe e os meus filhos que me apoiam e ajudam imenso!
Acho que o facto de gostar de fazer o que faço, acreditar que se pode fazer a diferença com as nossas ações, atitudes e opções levam a viver a vida com muito mais intensidade e paixão! Luto sempre pelo que acredito e nunca sou “politicamente correta”!
Manuela Maria Coelho Antunes
Dados Biográficos:
Data de nascimento: 28 de Abril de 1967
Formação Académica:
Mestrado em Atividade Física e Desporto (Treino de uma equipa de Andebol Infantil Masculino do Desporto escolar em Viseu)
Licenciatura do Curso de Professores do Ensino Básico na Variante de Educação Física; Licenciatura em Desporto e Educação Física incompleta (4º ano incompleto) da Faculdade de Ciências do Desporto e Educação Física – UP.
Percurso Sócio- Profissional
Treinadora de Andebol da equipa de Juvenis Masculinos do Clube Académico de Futebol nas épocas de 1995/96, 1996/97 e 1997/98 e da equipa de Infantis masculinos na época de 2010/11 e 2011/12.
Técnica de Natação integrada no Projeto de Natação do 1º Ciclo do Ensino Básico, promovida pelo Desporto Escolar – C.A.E.V. em 1993/94.
Técnica de Natação no Clube Académico de Futebol em 2001 e 2002.
Técnica de Natação Grau I na empresa Hobbyvida para bebés e crianças (piscinas municipais de Viseu) desde 2011 até à data.
Árbitro Nacional B de Andebol desde o ano de 1992 ao ano 1997.
Presidente da Associação de Pais e Encarregados de Educação da Escola do 1ºciclo de S. Miguel do Agrupamento de Escolas de Grão Vasco nos anos letivos de 2005/06, 2006/07, 2007/08 e 2008/09 e representante dos Pais e Encarregados de Educação do Pré-escolar e 1º Ciclo no Conselho Pedagógico do Agrupamento de Escolas Grão Vasco.
Membro da Direção da Associação de Professores de Educação Física -APEFVISEU
Membro da Associação Portuguesa de Educação Física (SPEF) desde 1994.
Presidente da Comissão de Proteção de Crianças e Jovens de Viseu desde o ano 2008 até abril de 2013.
Membro da Direção da Federação Regional das Associações de Pais de Viseu 2009/2010 até à data.
Atleta de Andebol até 2002 nos clubes: Associação Académica de Viseu, Clube Académico de Futebol e Benfica de Castelo Branco.
Atleta de Andebol no Clube do Desporto Escolar da Escola Secundária Emídio Navarro de 1982 (campeã nacional de Juvenis) a 1984.
Atleta de Voleibol até 1990 nos clubes: Associação Académica de Viseu, NDS Guarda e Seleção da Universidade da Beira Interior e em 2011/12, 2012/13, 2013/14 no Lusitano Futebol Clube.Redação Gazeta da Beira
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