Nazaré Oliveira – Coisas e Gente da Minha Terra – XXIII

UM DRAMA PASSIONAL NA NEGROSA

A GLÓRIA PISCA nasceu na Negrosa. Era filha do Bernardo Pisco, irmão de meu avô paterno. Entrava eu na adolescência, já ela era um bela moça de formas exuberantes mas bem proporcionadas. Olhos masculinos olhavam-na com desejo e olhos femininos, com inveja. Ela sabia-o e cultivava essa admiração. Toda ela se dava e se furtava. Os seus sonhos futuravam outros voos. E não tardou muito que partisse para Lisboa.

Não sei quem a levou ou a mandou ir. É de crer que, como acontecia com muitas raparigas da província, tenha ido para criada de servir, como então se designavam as empregadas domésticas. Se assim foi, não terá sido por muito tempo. Estava talhada para outros fados: a sua beleza, o seu corpo e a sua ambição pediam outras andanças. Não sei quem a lapidou e a transformou numa mulher elegante.

Durante bastante tempo, não voltou à terra. Mas a São Pedro do Sul iam chegando notícias trazidas por alguns sampedrenses que iam a Lisboa e frequentavam lugares de diversão nocturna, onde ela se destacava pela sua beleza. Depressa passou a ser disputada como acompanhante de luxo. Só voltou à terra quando era tempo de mostrar, principalmente às amigas do seu tempo, a nova Glória. Vestida com elegância e bom gosto: no Verão, com roupas vaporosas, tinha a beleza de uma odalisca oriental; no Inverno, com ricos casacos de peles e jóias. Tudo ficou admirado. Como é que a rapariguinha provinciana que dali saíra se transformara na mulher elegante e polida? No trato, ela passou a ser a D. Glória, mas em conversas privadas as pessoas continuavam a referir-se a ela como a Glória Pisca. Nestes meios, as alcunhas colam-se como grude às pessoas, para toda a vida. Depois de uma curta permanência, bastante para mostrar as suas toilletes, regressou a Lisboa e à sua vida, a carregar baterias. E bem que as carregou!

Algum tempo depois, estava à venda uma casa de dois pisos na Negrosa. A Glória comprou-a, mobilou-a, decorou-a e passou a vir com mais frequência. Vinha acompanhada por um homem com um bom automóvel, a denotar vida desafogada. Era um homem de boa aparência. Já não era novo, mas ainda não era velho. É de crer que tenha sido ele a financiar a compra da casa e a manter-lhe o luxo em que vivia. Ao referir-se a ele ou a apresentá-lo, designava-o por “senhor doutor”: era juiz aposentado. Tudo levava a crer que a Glória assentara numa relação estabilizada. Tinha encontrado a sua galinha dos ovos de ouro. A Glória era generosa e ajudava a família, sobretudo o seu irmão Nascimento, o homem da flauta cujo perfil já tracei.

A certa altura, começou algumas vezes a vir sozinha. Constava que a relação estava em baixa. Algum tempo depois, voltou a aparecer no automóvel do “senhor doutor”. Parece que a relação tinha os seus altos e baixos. O automóvel ficava no quintal, debaixo de uma cobertura que servia de garagem.

Uma noite estacionou na rua, à porta da casa da Glória. Na manhã seguinte, ainda lá estava. Um mirone mais atrevido espreitou para dentro. Viu um homem estendido no banco manchado de sangue que escorria da cabeça e uma pistola caída. Chamou outras pessoas que passavam, deram o alarme e foram avisar a Glória. O homem estava morto. Era o seu companheiro que viera pôr termo à vida à sua porta. Vieram as autoridades, seguiram-se os procedimentos legais e concluiu-se que o desgraçado se suicidara.

Que estaria por trás daquela tragédia? Que sentimentos e angústias terá vivido aquele homem, de cultura e posição social acima da média, a ponto de perder o equilíbrio e cometer tal acto tresloucado?

A imaginação popular teceu fantasias, libertando recalques de invejas acumuladas, e não poupou a Glória: que ele tinha deixado uma carta, relatando o seu drama, e, como não podia viver sem o seu amor, punha termo à vida. Tal carta nunca existiu nem consta do processo instaurado.

A Glória regressou a Lisboa, vendeu a casa e voltou à vida anterior. Nunca mais a vi. Sei que se recompôs e, mais tarde, voltou à sua terra, em boa situação económica. Comprou terreno na Avenida José Vaz, onde construiu uma ou duas vivendas.

Não sei as circunstâncias da sua morte. Sei que repousa num gavetão do cemitério antigo, onde uma fotografia dos tempos áureos mostra ainda a sua beleza, com as datas: 26/2/1919 – 21/9/1988.

Ainda hoje, a lembrança da sua imagem de cocotte, com a sua beleza a desencadear paixões e dramas, traz ao meu espírito a imagem que criei da Dama das Camélias, transposta para o século XX, com as devidas diferenças.

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