Nazaré Oliveira – Coisas e gente da minha terra – XXII
Morreu o Zé Dias

JOSÉ FERREIRA DIAS de seu nome, ZÉ DIAS para toda a gente. Conhecemo-nos em 1936, quando nos matricularam na 1ª classe da Escola Primária da Negrosa, como alunos do Prof. Metelo. Ali aprendemos a soletrar a Cartilha Maternal de João de Deus, as contas, os problemas e tudo o mais que nos obrigavam a saber. Ali nos tornámos amigos. Zé Dias era um rapaz inteligente, com especial vocação para os números, o que viria a ter influência na sua vida futura.
Acabada a Escola Primária, se em São Pedro do Sul já existisse um Colégio, o destino do Zé Dias teria sido outro.
Patrocinado por seu padrinho António Silva, sócio da firma Adelino e Silva, que explorava o Centro Comercial, na Rua Serpa Pinto, ali começou a trabalhar. Com a sua inteligência e qualidades de trabalho, rapidamente assimilou a mecânica dos negócios e tornou-se um elemento importante dos serviços administrativos. Mais tarde, quando a Sociedade reformulada abriu novas instalações com a designação de Discomer, o Zé Dias era um dos sócios.
Por volta dos meus 16 anos, tive um problema de saúde grave que me obrigou a longo período de repouso absoluto. O Zé Dias, com uma regularidade pendular, todos os dias, após o jantar, vinha à Negrosa para estar comigo, durante duas horas, e punha-me ao corrente do nosso pequeno mundo sampedrense. Como ele gostava muito de ler e eu passava o dia de papo para o ar a estudar e a ler, trocávamos impressões sobre as leituras de livros que permutávamos. Nunca poderei esquecer o apoio que o Zé Dias me deu em momento tão difícil.
Arribei, voltei à circulação e às nossas andanças habituais; passeios, tardes de fim de semana casa da nossa amiga Tita Borges, onde o nosso restrito grupo de jovens era recebido e se dançavam tangos, valsas e paso dobles, prelúdio de alguns casamentos futuros, entre os quais o meu; festas como as do Lenteiro do Rio e a festa nocturna da Senhora de Nazaré à luz dos gasómetros, onde a falta de electricidade era para nós uma vantagem, para ousadias de namoração, ou os teatros juvenis da Fernandinha Miranda em que participávamos. E tantas coisas mais, um mundo de recordações de que o Zé Dias faz parte.
Entretanto, chegou a idade da tropa. Fomos à inspecção no mesmo dia. Eu era um magricelas com mazelas recentes. Não tinha físico para a militança. Fiquei livre. O Zé ficou apurado e foi cumprir a recruta para o Porto. Ali teve como parceiro um amigo meu, antigo colega de estudos que cursava engenharia. Sabendo eu que o Zé aspirava fazer o 1º ciclo liceal, escrevi ao meu colega: “ajuda o Zé Dias a preparar-se”. Com a ajuda do Fausto e a sua inteligência, o Zé saiu da tropa muito valorizado.
Regressado, voltou às funções que se foram tornando mais complexas, na sua qualidade de sócio da Discomer. Entretanto, deixei São Pedro do Sul, por razões profissionais e o nosso convívio tornou-se mais raro. Mas fui acompanhando as suas actividades: meteu-se noutros negócios, participou em actividades cívicas sampedrense, foi mesário da Misericórdia e vereador da Câmara.
Sempre que eu ia a São Pedro do Sul, encontrávamo-nos no escritório do seu estabelecimento Pedipeças. Quando ele vinha a Viseu, encontrávamo-nos nos bancos do Rossio. Em Setembro trazia com ele outro companheiro da Escola Primária, João Paiva, que era médico psiquiatra em Lisboa e estava de férias. Ali recordávamos os bons velhos tempos.
Ultimamente já não nos víamos há bastante tempo. Eu deixei de ir a São Pedro do Sul. Ele deixou de vir a Viseu. Mas parece que Deus não queria que nós morrêssemos sem um último encontro. E aconteceu. Em circunstâncias muito estranhas. Estava eu, após uma consulta de rotina, numa cadeira de rodas, por dificuldades de locomoção, quando a meu lado parou outra cadeira de rodas com um doente que regressava de um internamento no Hospital de Viseu. Era o Zé Dias. Reconhecemo-nos, mas mal nos falámos. Não houve tempo nem condições. O estado em que o vi deixou-me a certeza de aquele era o último encontro de dois velhos amigos, agora amigos velhos nonagenários. E nem o último abraço podemos dar. As cadeiras foram separadas e cada um levado para sua casa. Restos de uma geração que acaba!
Duas semanas depois, eu recebia a notícia MORREU O ZÉ DIAS.
Que Deus o tenha junto de Si!
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