Nazaré Oliveira – Coisas e Gente da minha Terra

O COLÉGIO DE SÃO TOMÁS DE AQUINO (parte I)

Não é a primeira vez que escrevo sobre o Colégio de São Tomás de Aquino, sempre versando aspectos mais ou menos restritos da sua actividade. Não se estranhe que sobre ele volte a escrever, agora numa série de quatro artigos, numa análise global, até porque no próximo mês de Setembro se completam 70 anos desde a sua fundação. E esta será a última vez que sobre ele escrevo. Neste caso, é uma reescrita. Não se estranhe que tenha de falar de mim, já que a ele estive profundamente ligado desde início e teve grande influência no rumo que a minha vida haveria de tomar. Com a verdura dos meus vinte e poucos anos, ali iniciei a minha carreira de professor que haveria de seguir por mais de quarenta anos.

Até meados do século XX, ir além da instrução primária, em São Pedro do Sul, era privilégio de poucos. A criação de um Colégio era uma aspiração da terra. Pelos fins da década de 40, intensificaram-se os movimentos cívicos nesse sentido. Paroquiava então a freguesia o Cónego Isidro dos Santos Faria, que já tinha vivido a experiência de professor do ensino particular. Ele e um jovem licenciado seu conterrâneo, o Dr. Sales Loureiro, requereram a criação do Colégio. Autorizado por ALVARÁ de 7 de Setembro de 1949, começou a funcionar exactamente um mês depois. Aqui fica a sua “Certidão de nascimento”:

Como se lê no Alvará, o Colégio começou por ser autorizado só para o sexo masculino, mas começou logo a funcionar com os dois sexos, autorizado por despacho ministerial de 21 de Outubro do mesmo ano, “a título precário e enquanto não abrir outro estabelecimento de ensino em São Pedro do Sul”. E evidente que o precário se tornou definitivo.

O corpo docente era formado, na sua maioria, por gente da terra: o Cónego Isidro leccionava Português; o Dr. Sales Loureiro, História e Geografia; o Dr. Alberto Dias, Físico-Químicas e Ciências Naturais; o Eng. Amaral, Matemática e Desenho; de fora, apenas uma professora de Francês e um professor de Inglês, porque não havia na terra pessoas preparadas para o ensino de Línguas estrangeiras; mas este problema ficou resolvido quando a D. Cidalina Carvalho Homem fixou residência em São Pedro do Sul e

passou a leccionar as duas Línguas; por essa altura, chegou a D. Guilhermina, que para sempre tomou conta da Instrução Primária.

O Colégio começou por funcionar na casa do Visconde de Mira-Vouga, ao fundo da mata. Para mim, como estudante, o Colégio veio tarde. Mas estava escrito que eu havia de lá ir parar. De certo modo, também para lá fui aprender. Aprender a ser professor.

Quando o Colégio nasceu, tinha eu acabado o curso liceal e começava frequentar a universidade. Frequentar é um modo de dizer, porque eu era aluno voluntário, que as finanças não davam para mais.

Nascido e criado à beira do Mira-Vouga, a mata era o meu lugar de estudo preferido. Assim, acompanhei desde o início a vida do Colégio, começando a conviver com alunos e professores. Ao toque da campainha, os alunos iam para as aulas e eu acampava no meio da mata a digerir as sebentas e esgrimir com os filósofos, tendo por fundo a sinfonia dos gaios, dos melros e dos cucos. Nos intervalos das aulas, também eu interrompia o estudo e vinha para o meio da malta dar uns pontapés na bola.

Três anos após a fundação, o Colégio comprou a casa de cima, o “Castelo”, e para lá se mudou. Foi nessa altura que eu entrei no Colégio. Tinha eu acabado o 2º ano do meu curso, quando fui abordado pelo Cónego Isidro que me perguntou se estava interessado em trabalhar no Colégio. Fazia-me um jeitão!

As minhas tarefas seriam variadas: a primeira condição era que tirasse a carta de condução, para guiar a velha carrinha que haviam comprado ao encerrado Palácio Hotel das Termas, com a qual se faria o transporte de alunos residentes fora da Vila, especialmente de Vouzela, que ainda não tinha Colégio. Para além desta função, eu ficaria encarregado de tudo o que dizia respeito a secretaria (matrículas, registo de notas, contabilidade, relações com o Liceu e Inspecção do Ensino Particular); valeu-me na execução destas tarefas a experiência anteriormente adquirida no meu circuito juvenil por várias repartições — Conservatória do Registo Predial, Secretaria do Tribunal e Tesouraria da Câmara. Como professor, fiquei a leccionar, a disciplina de Geografia.

A minha função de condutor da carrinha não durou um mês. O projecto morreu ao nascer: a velha carripana, há muito tempo parada, tinha-se desabituado de andar. Logo no primeiro dia, encalhou em Fataunços e só ao cabo de muitos empurrões, com arrelia minha e gozo dos alunos, chegámos ao Colégio. E lá se foram as primeiras aulas! Ainda se fizeram mais algumas tentativas. Mas, como o velho calhambeque, mais teimoso do que uma mula, passava mais tempo na oficina do que na estrada, o projecto foi abandonado.

Terminada a minha função de condutor da carrinha, concentrei toda a atenção nas outras funções que me tinham sido atribuídas, principalmente na de professor, que era a carreira para que eu me preparava e pretendia seguir. Eu nunca tinha dado aulas nem recebido qualquer preparação pedagógica específica. Só podia contar com a minha boa vontade, a minha experiência de aluno e a minha intuição vocacional, se é que a tinha.     Nesse tempo, os alunos dos colégios, no final de cada ciclo eram obrigatoriamente submetidos a exames nos liceus. As cólicas que eu sofri, quando os meus primeiros alunos se apresentaram a exame! De certo modo, também eu estava a ser avaliado. Mas as coisas correram bem, tanto mais que o Colégio desde início alcançou sucesso. Pelos resultados das pautas expostas nas vitrinas do Liceu se avaliavam os colégios, e o de São Tomás de Aquino estava entre os melhores estabelecimentos de ensino que ali prestavam contas do seu trabalho. E eu, como professor, felizmente não destoei.

O Liceu de Viseu era exigente nos exames, especialmente alguns professores tidos por “feras”. Exigentes na correcção de provas, espremiam os alunos nos exames orais. Receosos do chumbo, nesse ano, um grupo de alunos optou por se apresentar a exame no Liceu de Aveiro, onde a coisa — diziam eles — era mais suave. Eu fui destacado para os acompanhar. E lá vamos, no velho “Vouguinha” — “pouca terra, pouca terra” – a caminho da Cidade-Ria. Instalámo-nos na Pensão Palmeira durante uma semana. Quando não se portavam bem, a dona da Pensão, que à chegada me tomou por um aluno, apelava para a minha autoridade. Na noite de São João, enquanto eu preparava um exame que tinha marcado, rasparam-se para a festa. E, no dia seguinte, enquanto eles e elas (também havia alunas) prestavam contas no Liceu de Aveiro, eu prestava contas em Coimbra.

Era o meu tempo de professor-estudante ou estudante-professor, como soar melhor. Acabados os exames, concluiu-se que nem as “feras” no Liceu de Viseu eram tantas, nem no Liceu de Aveiro era tudo rosas. E, nos anos seguintes, ninguém mais foi para Aveiro, salvo o Reis, que para o Colégio e sobretudo para mim era um caso especial: nascido em Aveiro, radicou-se em São Pedro do Sul desde menino; meu companheiro de infância e depois meu colega de estudos no Colégio da Via Sacra nos anos 40, era amigo de toda a gente; só o não era dos livros. E foi assim que, mais tarde, acabou por vir a ser meu aluno, no Colégio de São Tomás de Aquino. Meu aluno, mas antes de tudo meu amigo. Era o veterano do Colégio, uma espécie de dux veteranorum. Pois o Reis lá ia todos os anos aos exames em Aveiro, na esperança de que os santos da sua terra lhe dessem uma ajuda. E lá fez a Secção de Letras do 5º ano. O raio da Física e o estupor da Matemática é que lhe trocaram as voltas. Mas a sua máxima — “haja saúde e coza o forno” — superava tudo e mantinha a sua simpatia e boa disposição.

O ensino liceal da época tinha a duração de 7 anos. No Colégio, leccionava-se o 1º Ciclo, com exame no 2º ano, e o 2º Ciclo, com exame no 5º ano, este constituído por

duas Secções, Letras e Ciências, independentes nos resultados dos exames. Podia ficar-

-se aprovado numa e reprovado noutra. E podia passar-se com uma deficiência (nota negativa) a uma disciplina de cada secção. Mas quem tivesse deficiência nas duas secções não podia prosseguir os estudos e, se as deficiências fossem cumulativamente a Português e a Matemática, não podiam candidatar-se às Escolas do Magistério Primário, que então formavam professores. Havia que repetir pelo menos uma Secção, para eliminar a deficiência. Por aqui se vê a importância que se dava ao Português e à Matemática.

(Continua no próximo número)

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