Nazaré Oliveira – Coisas e Gente da minha Terra

A FONTE DA RUA

O desenho que acompanha esta crónica representa o frontispício da Fonte da Rua. É da autoria do Marquês de Reriz, aristocrata sampedrense que me habituei a ver, nas manhãs sossegadas do Café Edgard, sentado à mesa do canto, solitário, a tomar a sua bica, de boquilha entre os dentes a fumar o seu cigarro, com o livro, os cadernos e os lápis com que esboçava os seus desenhos, dando ao Café um toque artístico e aristocrático.

Veio-me este desenho à mão através do meu amigo António Guimarães, com o qual eu colaborava na Tribuna de Lafões. Neste jornal o deu a conhecer e sobre ele escrevi há umas quatro décadas e, mais tarde, na Gazeta da Beira. Agora que passo em revista e volto a escrever sobre Coisas e Gente da Minha Terra, a FONTE DA RUA não podia ficar esquecida.

Ficava a Fonte da Rua no lugar ainda hoje designado por “Companhia”. A origem deste nome vem do tempo em que as diligências eram o meio de transporte que fazia a ligação entre o interior e o litoral. São Pedro do Sul era local de “muda” dos cavalos. Assim se chamava a substituição dos animais de tracção em jornadas longas. Isto implicava instalações e serviços, ainda que rudimentares, a que provavelmente se daria o nome de “Companhia das Diligências”. E, para sempre, aquela parte da Vila passou a ser designada por “Companhia”.

No local onde hoje está instalada a estação de serviço Sacor, ficava, nos anos 40, o Quartel dos Bombeiros Voluntários, que mais não era do que uma garagem onde se arrumava o pronto-socorro, a motobomba e restante material de incêndios. Na parte de trás do quartel e num plano inferior à estrada, ficava a Fonte da Rua, entre o Solar da Lapa e a casa do Dr. Roque Machado. À Fonte se descia pelos dois lados. Por uma escada de pedra, do lado do Solar. Por uma pequena rampa, do lado do Dr. Roque.

Era uma bela fonte de duas bicas, brasonada, em estilo barroco do século XVIII. O ciclone de 1941 causou-lhe alguns estragos, mas a água continuou a jorrar das duas bicas. O brasão foi levado para a Câmara e depositado no claustro do Convento. Com o tempo, a Fonte foi-se degradando e, com a construção da Sacor, desapareceu. E não mais a frescura da sua água que, nas tardes calmosas de Verão, convidava o passante a descer e matar a sede.

À Fonte da Rua estava ligada uma tradição traduzida num ditado antigo cuja origem se ignorava: “Quem beber água da Fonte da Rua fica em São Pedro do Sul para sempre”. E isto dizia-se das boas e das más pessoas. Em relação às boas traduzia uma manifestação de regozijo. Em relação às más soava como um lamento. Por isso se dizia de alguém que se radicava em São Pedro do Sul: “bebeu água da Fonte da Rua”.

Lembro-me de vários casos de quem tal se dizia. Em meados dos anos 40, chegou a São Pedro do Sul um grupo de jovens casadoiros em começo de carreira em várias profissões: o Duarte Bulhão, o Erlindo Neves, o Palma, todos funcionários das Finanças, o Gamaliel (de quem já tracei o perfil), da Junta Nacional dos Vinhos, o Coutinho, técnico da Conservação das Estradas, o Velez Ferreira, fiscal da Conservação das Farinhas. Com excepção do Palma, todos cá ficaram. O Bulhão casou com a Maria da Luz Teles, filha do Barão da Agulha; o Erlindo Neves, com uma jovem de Negrelos, funcionária dos Correios e pertencente à família Barros; o Gamaliel, com a Gina Borges; o Coutinho, com a Fernanda Simões; o Velez Ferreira já vinha casado. Só o Palma foi arranjar arrimo por outras bandas (não deve ter bebido água da Fonte da Rua). Os outros beberam todos, mas estou em crer que às virtudes da água se juntou a formosura das moças sampedrenses.

Mais tarde, creio que nos começos dos anos 50, veio o Eng. Armínio Quintela que, felizmente para a terra, ficou para sempre e ainda está entre nós. Ainda hei-de perguntar-lhe se bebeu água da Fonte da Rua.

Um dia, entrou no Café Edgard um desconhecido: maltrapilho, sórdido, mal cheiroso, a tresandar a álcool e a dizer inconveniências. O Zeca, depois de o servir, tratou de o enxotar. Pegou-lhe no braço com jeitinho e foi-o conduzindo para fora do Café. O homem ficou uns momentos no passeio, parado, indeciso sobre o rumo a tomar. Por fim, lá se decidiu e começou a caminhar no sentido da Companhia. O Zeca, que tinha ficado a observar, saiu do Café e, quando o homem já ia junto ao marco do correio, chegou-se a ele e disse-lhe: “Para esse lado, não. É proibido!” Deu-lhe meia volta e, apontando o sentido contrário: “Por ali!” A palavra proibido terá produzido (ou talvez não) efeito. Certo é que o homem, sem, questionar as razões, como um autómato, seguiu no sentido da Ponte.

Mas, se o homem não questionou razões, questionaram os presentes que assistiram e não compreenderam o comportamento do Zeca. E o Quinato, que era o mais abelhudo, na sua voz de Ronca, perguntou: “Ó Zeca, por que fizeste o homem mudar de rumo?” E o Zeca, com o sorriso de fina ironia e bom humor que era habitual: “Então vocês esqueceram que lá para baixo fica a Fonte da Rua?” Compreendido! “Quem bebe água da Fonte da Rua fica em São Pedro do Sul.” E aquele não convinha que ficasse!

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