Nazaré Oliveira

O Bairro da Negrosa V (Conclusão)

O BAIRRO DA NEGROSA que tenho vindo a descrever, o da minha infância e adolescência, foi sofrendo algumas mudanças. Para isso, contribuiu a vinda de um homem que, tendo emigrado para o Brasil, ali alcançou fortuna no comércio e na advocacia. Regressado a Portugal em finais dos anos quarenta, o Dr. José Augusto de Almeida resolveu fixar residência em S. Pedro do Sul, terra natal de sua esposa, pertencente à família Correia de Paiva. Um pouco abaixo da Negrosa, à beira da estrada que vai para Várzea, construiu uma bela vivenda, original porque totalmente construída em pedra azul, que mandou vir de fora. Tanto bastou para que passasse a ser conhecido por “o Pedra Azul”, alcunha que nunca mais o largou. O seu luxuoso Cadillac fazia corar de vergonha alguns calhambeques que ainda por ali existiam. Mas o Dr. José Augusto não se ficou apenas por aquilo que alguns consideravam manifestações de riqueza. Não tendo filhos, só era preciso que alguém orientasse os seus sentimentos de generosidade (que os tinha) para obras de filantropia ao serviço dos mais necessitados. Para isso, teve artes o Cónego Isidro, seu amigo íntimo. Fizeram dele político, Presidente da União Nacional, com intervenção de dirigente e financiador de várias instituições de beneficência. E foi assim que o Dr. José Augusto mandou construir, no Bairro da Negrosa, um Centro de Assistência Materno-Infantil a que deu o nome da esposa e, ao lado da Quinta do Hospital, várias casas para os pobres. Participou e apoiou as Conferências de S. Vicente de Paulo, actividades da Misericórdia e outras instituições de beneficência.

Mais tarde, outras valências da Misericórdia se foram implantando. No local onde fora a Sopa dos Pobres, foi construído o Lar dos Idosos, a que se seguiram outros serviços: Creche Escolar, Jardim de Infância, Centro de Apoio aos Tempos Livres, Serviço de Apoio Domiciliário. Hoje como no passado, o Bairro da Negrosa continua a ser o principal pólo de apoio social no Concelho.

Entretanto, o Bairro foi-se urbanizando, com o saneamento básico e abastecimento de água ao domicílio, o que fez desaparecer a velha Fonte, onde outrora os cântaros e os canecos se alinhavam em bicha à espera de vez, enquanto as donas falavam da vida alheia e, nos tempos do Prof. Metelo, íamos à “barrela”. O Largo em frente do Hospital deixou de ser o terreiro onde jogávamos à bola e foi ajardinado. Novas construções foram surgindo. Já dissemos que, na segunda metade do século passado, foi demolida a Escola e, nesse lugar, foi construído o edifício sede dos Serviços Florestais. Com mais algumas vivendas que se foram erguendo, o Bairro urbanizou-se progressivamente.

Também a minha relação com o Bairro da Negrosa se foi alterando. Ainda na minha idade juvenil, entabulei relações com o Padre Coelho, Capelão do Hospital. Ele colaborava na Tribuna de Lafões, onde eu também começava a escrevinhar. Dávamos grandes passeios pelo Bairro e proximidades, Várzea, Drizes, Ansiães, em colóquios mais ou menos moralizantes. Ele com o seu idealismo de sacerdote, eu com a minha ingenuidade da juventude. Por essa altura, estava eu a começar os estudos universitários como aluno voluntário, o que me isentava da frequência obrigatória das aulas. Senti que isso causava alguma estranheza à gente da Negrosa. Sabiam lá eles o que era isso de aluno voluntário! Como é que este tipo anda na Universidade, se ele nunca sai daqui? Todos os dias o vemos! Valeu à minha reputação o facto de o Padre Coelho o dizer. E, como os padres não mentem, acreditaram. A mata do Mira-Vouga, em frente à minha casa, era, sobretudo no Verão, o meu lugar de estudo preferido. Ali passei muitas horas, a empinar as sebentas e a esgrimir com os filósofos. Algum tempo depois, fizeram de mim professor do Colégio de São Tomás de Aquino, que começara a funcionar, em Outubro de 1949, na Quinta do Mira-Vouga. Foi então que os meus passos se dirigiram em sentido contrário ao Bairro da Negrosa. Também tinha começado a namorar e a namorada era da Vila. O namoro, a vida profissional e as obrigações académicas, com as responsabilidades de trabalhador-estudante, tudo em simultâneo, fizeram com que o Bairro da Negrosa passasse a ser quase exclusivamente o local da minha residência, até que, aos 27 anos, casei e, por motivos profissionais, deixei S. Pedro do Sul. Mas nunca esqueci a Minha Terra, e o Bairro da Negrosa continua a ser o Bairro das minhas Recordações.

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