Nazaré Oliveira

O Bairro da Negrosa IV (continuação)

O Bairro da Negrosa (parte IV)

A Negrosa também tinha uma “mulher de virtude”. Dizia-se que tinha o livro de São Cipriano, para fazer rezas e benzeduras. Sabia afastar o mau-olhado, erguer a espinhela, rezar o quebranto, responsar objectos perdidos e outras coisas. E também eu lhe passei pelas mãos. Quando eu era miúdo, era magriço e enfezado. Bem me metiam pelas goelas abaixo o óleo de fígado de bacalhau que o Zé da Farmácia recomendava e as xaropadas que o médico receitava. Mas nem assim! Que eu tinha a bicha solitária, diziam uns, que era mau-olhado ou espinhela caída, diziam outros. Um dia, o meu avô, que era homem desembaraçado, levou-me à mulher de virtude. Quando lá cheguei, deparei com uma mulher corpulenta, grossa como um odre, com um traseiro monumental e peitos que pareciam duas almofadas. Mandou-me pôr de tronco nu e sentar no chão, de pernas estendidas. Levantou-me os braços acima da cabeça e esticou-mos com um puxão mais forte no braço esquerdo. Juntou-me as palmas das mãos e, com ar de quem fala de cátedra, disse para o meu avô: “Está a ver, pelas pontas dos dedos, como o braço esquerdo está mais comprido que o direito? Espinhela caída, que pode ser provocada por mau-olhado”. Depois, foi buscar um prato, deitou-lhe água, um golpe de azeite e vinagre, folhas de várias plantas e não sei que mais. Com um ramo de alecrim, fez sobre o prato cruzes e outras manigâncias. E eu, calado que nem um rato, nem tugia nem mugia, a vê-la cirandar pela casa, rebolando as enxúndias. Aproximou-se de mim, com o ramo de alecrim molhado naquela mixórdia, fez-me cruzes na testa, no peito e nas costas e, enquanto fazia as benzeduras, ia rosnando uma ladainha que me deixou sem perceber se invocava os santos ou se esconjurava belzebu. Ao mesmo tempo, ia-me esticando os braços, manobrando de forma a que as pontas dos dedos ficassem certas. E então, com pose de triunfo, exclamou: “Já está”. Terminara a consulta e viemos embora. O meu avô com algumas moedas a menos e eu sem mau-olhado e de espinhal erguida.

Até hoje, ainda não percebi onde é que ela tinha a virtude. A menos que esta se medisse pelo tamanho da rabadilha ou pelo volume dos peitos. Só mais tarde compreendi, pelo que diziam baixinho as comadres do bairro, que ela tinha outras “virtudes” bem mais complicadas que não a livraram de prestar contas à justiça. Mas isso são outros contos…

Outra mulher muito conhecida no Bairro da Negrosa era a MICAS GRALHEIRA. Morava em Drizes mas a Negrosa fazia parte do seu campo de operações. Se havia quem impedisse o nascimento dos bebés, a Micas Gralheira ajudava-os a nascer. Nunca frequentou cursos de parteira nem tinha qualquer preparação específica. Era uma “jeitosa” que pôs no mundo muitos bebés. Não sei como ela se fez parteira. Talvez por um acaso das circunstâncias. Talvez alguma futura mãe aflita cujo filho estivesse com pressa de nascer tenha pedido ajuda às vizinhas. Ela terá sido a mais disponível e corajosa, arriscara e saíra-se bem. Tanto terá bastado. Como em tantos casos, a primeira vez decide a vida de uma pessoa. A partir desse momento, a Micas Gralheira estava  parteira diplomada pelo acaso. Naquele tempo grande parte das crianças nascia em casa. Era mais cómodo, mais barato, e gravidez não era doença. Não havia dinheiro nem mentalidade para se ir para maternidades, que não abundavam. E, como a natalidade era elevada, algumas mães andariam sempre por lá. O parto era um acto de rotina. Quando chegava o momento crítico, chamava-se a Micas Gralheira. Ela arregaçava as mangas, preparava as águas, as toalhas e a tesoura. O resto dos instrumentos fazia parte dela: eram as suas mãos. E, em pouco tempo, a população do Bairro estava aumentada com mais uma unidade.

Outra figura típica era o MANUEL DA HORTA. Numa altura em que por ali não havia boîtes e discotecas, o seu cortejo carnavalesco era uma das nossas distracções. Cortejo que a bem pouco se reduzia: uma carroça puxada por uma jumenta, ornamentada com amarelas mimosas da época, transportando o Manuel da Horta a descarregar no bombo pandeireta rija, o Nascimento a tocar flauta e mais alguns comparsas. À volta, iam-se juntando os mirones e, quando o auditório era bastante, a carroça parava e o Manuel da Horta começava o seu repertório, em verso que a sua prodigiosa memória arquivara e ele reproduzia sem uma falha. Eram histórias picarescas (lembro-me da Confissão do Vicente Marujo), maliciosas, com os seus laivos de erotismo, em que sempre se encaixava o estribilho que se intercalava na recitação e era cantado em coro: “Tira a mãozinha, Maria / tira a mãozinha, João / o meu corpo se arrepia, /quando sinto a tua mão”. Este estribilho ficou e ainda hoje se canta. As personagens centrais eram o Manuel da Horta e a jumenta, que ele chamava Joaquina. Sim, porque a jumenta colaborava. Ele tinha artes de a fazer dar pinotes e zurrar a propósito, em certos momentos da recitação. E, se a burra não correspondia ao apelo ou zurrava a destempo, ele não se atrapalhava e arranjava sempre um improviso jocoso, às vezes em verso, num saboroso diálogo com a besta, que acabava sempre por ter razão: quando zurrava e quando não zurrava. Era um misto de pantomina e cegada a que não faltava espírito crítico.

Mas seria injusto se deixasse apenas a imagem carnavalesca do Manuel da Horta. Era um homem respeitável e respeitador, trabalhador e conhecedor do seu ofício de hortelão. Sabia ler e escrever. Com ele convivi muito de perto. Quantas histórias lhe ouvi contar, enquanto cavava as hortas do quintal de meus pais! Arguto, perspicaz, bom conversador, sabendo utilizar a ironia, repentista, não tinha papas na língua. Em matéria de palavreado, vi-o levar de vencida alguns que, por mais cultos, julgavam ir à lã e ficaram tosquiados. Era cego de um olho, mas dizia-me ele que via mais só com um do que alguns com os dois. Hortelão “filósofo”. o que lhe faltava em cultura sobrava-lhe em inteligência. Era um homem de fé. Frequentador assíduo dos actos de culto, sem beatice, apanhava tudo o que ouvia ao sacerdote e a sua memória retinha tudo o que mais o impressionava. Quantas vezes o ouvi reproduzir quase na íntegra uma homilia, com o seu comentário crítico, nem sempre de acordo com o sacerdote. Nunca faltava a velar os seus amigos e vizinhos que a morte tinha levado. Mais do que uma vez assisti a uma cena que muito me impressionava. No velório, as pessoas, depois de apresentarem condolências, sentavam-se caladas ou falando baixinho. Chegava o Manuel da Horta. Depois de uns minutos de recolhimento, tirava do bolso o seu terço e começava a rezar em voz alta. Momentos depois toda a gente rezava com ele, respondendo às suas invocações e jaculatórias.

Da minha convivência com o Manuel da Horta guardo muitas recordações de infância e adolescência. Para além de cultivar as hortas do nosso quintal, interveio em algumas situações familiares. Uma em especial: meu pai ia ser submetido a uma operação cirúrgica, numa clínica do Porto. Precisava de alguém desenvolto e de confiança para o acompanhar. Escolheu o Manuel da Horta. No dia imediato à operação, deu-se um episódio que mostrou bem a sua desenvoltura. No corredor, junto ao quarto, três senhoras tagarelavam como matracas. O Manuel da Horta, notando o incómodo manifestado por meu pai, disse-lhe: “Espere aí, que elas calam-se já”. O meu pai, temendo a sua impulsividade, tentou impedi-lo: “Não vá!” Vendo que não conseguia travá-lo, recomendou-lhe: “Veja lá como lhes fala, peça-lhes por favor”. O Manuel da Horta veio para o corredor, assumiu um ar de papalvo, a olhar para as paredes como quem procurava alguma coisa. Uma das palradoras reparou nele e, armada em boazinha, perguntou: “Posso ajudá-lo?” E ele: “Pode sim, minha senhora; eu sou cego de um olho (e de facto era), mal sei ler, pode dizer-me o que diz aquela placa?” Ela olhou: “Diz silêncio”. O Manuel da Horta respondeu-lhe com um “Ah!” de admiração e esperou uns momentos a ver se era preciso aplicar o plano B, mais radical. Não foi preciso. As madamas entenderam o recado e desandaram.

Era assim o Manuel da Horta. Sério e grave, nos momentos sérios. Alegre e folgazão, nos momentos de brincar, como no Carnaval!

(continua)

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.