Nazaré Oliveira

O Bairro da Negrosa III (continuação)

O Bairro da Negrosa que descrevi era o bairro da minha infância e adolescência. Acabada a escola e passado o tempo do pontapé na bola, dos jogos da bilharda, do pião, da fisga, das colecções de cromos dos futebolistas, novos interesses foram surgindo. Desde logo, o mais importante foi o meu interesse pela leitura. Só que, em minha casa, não havia livros e eu não tinha dinheiro para os comprar. Mas foi ainda no Bairro da Negrosa que encontrei a solução. Junto à Escola, vivia o casal Laranjeira. O marido passava parte da semana no Porto, por razões profissionais, e a esposa compensava a sua ausência com a leitura. Tinha muitos livros, que pôs à minha disposição. E foi assim que tive os meus primeiros contactos com Júlio Dinis, Camilo, Eça, Aquilino, Alexandre Dumas, Júlio Verne, Victor Hugo e tantos outros que povoaram o meu imaginário juvenil. Ao escrever sobre o Bairro da Negrosa, eu não poderia deixar de recordar a D. Antonieta Laranjeira que foi, naquele período, a fonte principal que alimentou o meu gosto pela leitura. Mais tarde, fui professor de seu filho no Colégio de S. Tomás de Aquino. É hoje o Arquitecto Laranjeira. Outra fonte das minhas leituras era a Biblioteca Itinerante da Gulbenkian que, periodicamente, passava pelo Bairro e nos permitia requisitar dois livros que restituíamos na visita seguinte.

Como todos os bairros, a Negrosa também tinha as suas figuras típicas. De entre todos, merece destaque o NASCIMENTO. Nasceu, cresceu, viveu e morreu na Negrosa. Débil de cabeça, ignorante, analfabeto, bisonho, mas tinha um dom: um ouvido musical privilegiado. A flauta era o seu instrumento sublime. Sem saber uma nota, a música estava nele. Fazia parte do seu ser. Tocar flauta era para o Nascimento tão natural como comer ou respirar. Tanto tocava a Laurindinha como tocava o Hino Nacional. Música que fosse do seu agrado era certo e sabido que havia de tocá-la. Se passava junto de um aparelho de rádio que transmitia uma novidade musical do seu agrado, o Nascimento parava, de ouvido à escuta, numa imobilidade de estátua, concentrado. Nada mais existia à sua volta. A música penetrava-o e começava a produzir efeitos. O primeiro sinal era o pé, que começava a bater, marcando o compasso. Depois os dedos, que começavam a movimentar-se batendo nas coxas. Mentalmente, ele já estava a tocar. Quando a música terminava, metia a mão no bolso interior do casaco e, lentamente, tirava a flauta. Os dedos tacteavam os buracos, inclinava a cabeça, piscava o olho, humedecia os lábios para fazer embocadura, estendia a beiça e aplicava-a na flauta. Saíam os primeiros sons, mas a coisa não ia logo à primeira. E, nos dias imediatos, o Nascimento rondava os lugares onde havia rádios, farejando, à caça da música. Se a ouvia de novo, o ritual repetia-se. Em pouco tempo, a nova música fazia parte do seu repertório e, da flauta, a melodia saía límpida e escorreita.

Sem nunca ter saído de S. Pedro do Sul, o Nascimento era conhecido por gente de todo o país, porque, na época balnear, todos os dias palmilhava da Negrosa para as Termas, onde passava o dia a tocar flauta para os aquistas. À custa do reumático dos que ali vinham procurar alívio, ia-se governando. Mas não pedia. Era incapaz de estender a mão. Tocava e, no fim, ficava imóvel, mudo, à espera. Se lhe davam, aceitava. Não agradecia. E não era por indelicadeza. É que ele raramente falava. A perguntas não respondia ou pouco mais rosnava que uns monossílabos. Não falava para pedir, também não falava para agradecer. Como a rapaziada gozava com ele, era desconfiado. Quando não tocava, caia no seu mutismo habitual. Por vezes, ficava parado, estático, como se o seu pensamento vagueasse por outros mundos. De repente, dava uma guinada e mudava de rumo.

O Verão era a sua época alta e as Termas o seu campo de acção. O resto do ano era mais difícil. Vila, Negrosa, Ponte, Drizes e pouco mais. Mas havia as festas e ele lá estava com a sua flauta. Era o S. Bartolomeu, a Santa Eufémia, a Senhora da Nazaré, a Senhora do Livramento, a Senhora da Guia… Quando bebia uns copitos a mais, desemperrava-se-lhe a língua e até cantava e recitava uma lengalenga, “Gosto disso”, que aprendeu não sei como e de cujo sentido humorístico talvez não se apercebesse bem. Mas a cantar e a recitar era banal. Era o vinhito e não ele.

Tocar flauta, sim! Nisso, ele era artista! Se não fosse um pobre diabo, um pé descalço, um ignorante, um cabeça fraca incapaz de qualquer aprendizagem, o Nascimento poderia ter ido longe. Mas tudo lhe faltou para ser um Rão Kiao, menos uma coisa: a vocação musical. Só que a vocação não basta para ser Alguém!

Outra figura típica nascida no Bairro da Negrosa era António Fonseca, mais conhecido por ANTÓNIO PORRINHAS. Muito novo emigrou para o Brasil. Não fez uma grande fortuna mas, no comércio, amealhou o bastante para uma vida desafogada e para vir gastar à sua terra natal. Era um homem simpático, de sorriso permanente, cumprimentador, na sua linguagem adocicada de sotaque brasileiro. Amador teatral lá pelas terras do samba, vinha com frequência à sua Negrosa trazer a festa. Nas malas, trazia as indumentárias, as partituras das músicas, uma vitrola e muitos discos. Na cabeça, trazia o espectáculo.

Chegado à sua terra e cumpridas as visitas aos amigos, começava a preparar o que ele chamava o Entremez. Os actores eram rapazes e raparigas da terra, que ele próprio ensaiava, caracterizava, punha a dançar e a cantar. A orquestra era composta por alguns membros da Filarmónica e o indispensável Nascimento da flauta. Ele, António Porrinhas, verdadeiro showman, era a primeira figura do espectáculo. No Largo da Negrosa armava-se um palco e ali se desenrolava a função, ao ar livre, gratuita e aberta a toda a gente. Começava sempre com o mesmo samba, em que ele fazia uma Carmen Miranda bamboleante: “A alegria já chegou à nossa terra natal, vem da terra carioca para alegrar Portugal”. Seguiam-se quadros de revista, paródias mais ou menos picantes, com letras por ele adaptadas à vida portuguesa e à vida local. A estreia era sempre na Negrosa, mas o espectáculo repetia-se noutros locais.

Acabada a festa, António Porrinhas regressava ao Brasil, a ganhar fôlego e dinheiro para voltar daí a dois anos. E voltou, em fins dos anos 40. Só que, desta vez, não houve festa, porque a morte o surpreendeu à chegada. Está sepultado na sua terra natal. (Continua)

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.