Nazaré Oliveira

O Bairro da Negrosa II (continuação)

COISAS E GENTE DA MINHA TERRA

O Bairro da Negrosa II (continuação)

No número anterior, escrevi sobre o Hospital e sobre a Sopa dos Pobres. Falemos agora da Escola. Sobre ela bastante se tem escrito e eu já escrevi também.

A ESCOLA DA NEGROSA ficava situada à beira esquerda da estrada que seguia para Várzea, no local onde, depois da sua demolição, foi construído o edifício dos Serviços Florestais.

Vale a pena historiar um pouco a sua origem. Era uma escola exactamente igual às dezenas de escolas que existiam espalhadas pelo país.Tinha gravada no frontispício, voltado para a estrada, a designação ESCOLA CONDE DE FERREIRA, 1866, data do falecimento do grande mecenas da instrução primária em Portugal. Joaquim Ferreira dos Santos entrou no comércio como caixeiro, emigrou e, em pouco tempo, tornou-se grande comerciante a nível internacional. Andou pela América, Brasil e Angola, onde criou várias feitorias e montou um lucrativo comércio negreiro, com o envio de escravos para o Brasil. Com assinalado êxito, alcançou uma grande fortuna. Regressado a Portugal, continuou a sua actividade comercial, especialmente com operações bancárias. Ingressou na política com o Cabralismo. Feito Par do Reino, Fidalgo Cavaleiro da Casa Real, Conselheiro de D. Maria II, Comendador de várias Ordens, recebeu condecorações nacionais e estrangeiras e foram-lhe concedidos vários títulos, entre eles o de CONDE DE FERREIRA, pelo qual ficou conhecido para a posteridade.

Mas não foi por tudo isto que ele ficou uma figura histórica. Foi porque desenvolveu uma notável acção filantrópica, durante a sua vida e depois da sua morte. É nome grande da Filantropia do século XIX. Não tendo parentes imediatos, pôs a sua fortuna ao serviço dos mais necessitados, em obras de benemerência, tantas que seria fastidioso enumerá-las. Basta citar o Hospital para Alienados, no Porto, que viria a ter o seu nome e foi a primeira construção de raiz para a Psiquiatria. No seu testamento escreveu: “Convencido de que a instrução pública é um elemento essencial para o bem da Sociedade, quero que os meus testamenteiros mandem construir e mobilar cento e vinte casas para escolas primárias de ambos os sexos nas terras que foram cabeças de concelho, sendo todas por uma mesma planta e com acomodação para vivenda do professor”. Isto é um marco na história da educação em Portugal. E aqui está a origem da ESCOLA DA NEGROSA. Era constituída por quatro salas de aula. A fachada era encimada por um pequeno frontão em forma de campanário, com uma sineta. Tocada pelo velho contínuo Laranjeira, o seu “tlem, tlem” (“tem lêndeas, tem lêndeas”, dizíamos nós) regulava a vida da Escola: começo e fim das aulas, intervalos… A alguns metros da Escola, ficava o “Palácio das Necessidades”, casinhoto das retretes, onde a palavra privacidade perdia todo o sentido. Lá arejadas eram elas, que o ar entrava por todas as frinchas e buracos.

Frequentei a Escola desde Setembro de 1936 a Junho de 1940. A ESCOLA DA NEGROSA funcionou desde o último quartel do século XIX até 1960, o que significa que, durante mais de oitenta anos, muitas gerações ali aprenderam a soletrar a Cartilha Maternal de João de Deus, cantaram a tabuada, aprenderam as contas e os problemas, as minúcias da Geografia e se deliciaram com a História. Era o tempo das ardósias e lápis de pedra, das penas de aparo, molhadas no tinteiro de louça enfiado num buraco da carteira. Recordo com saudade os professores do meu tempo: o Prof. Azevedo Matos, que tocava violino; a serenidade calma do Prof. Barbosa; o Prof. Lourenço, “petrónio” da classe docente, sempre janota; a figura frágil do Prof. Valente, frágil no físico que não no saber e a tocar clarinete; o Prof. Paulino, que para nós personificava o poder absoluto, porque era duro e, para mais, director da Escola e Administrador do Concelho. Mas, de entre todos, recordo principalmente o Prof. Metelo, que me acompanhou desde a 1ª à 4ª classe. Era uma figura típica que deixou marcas na classe docente. Solteirão, vivia em Vila Maior. Dali se deslocava diariamente. Umas vezes pedalando o “sarilho” (como ele chamava à bicicleta), outras vezes no “traste”, velha mota que fumegava e dava estoiros, outras ainda lá vinha, qual D. Quixote, montado na égua (chamava-lhe “o bicho”). Os seus métodos pedagógicos não seriam os mais ortodoxos. Não os aprendera todos nos livros. Mas eram eficazes. Sabia usar imagens e metáforas sugestivas. Quando nós, embalados na leitura, não parávamos no ponto final, lá vinha a sua consagrada expressão: “Pousa o saco!” E se parávamos na vírgula, “faz que pousa, mas não pousa”. A sua linguagem tinha sobre nós um poder aliciante e, em certas circunstâncias, até utilizávamos o seu vocabulário: “Ó sepessor. o sarilho tem um pneu vazio!” E, se a mota não pegava, “dêem lá um empurrão ao traste”. Aos sábados, fazia-se ginástica, que terminava com a “revista”. Todos perfilados, dois alunos passavam vistoria à higiene dos colegas. Cara, pescoço, ouvidos, unhas, pés, tudo era passado a pente fino, sob o olhar atento do Prof. Metelo, não fossem os “inspectores” fazer vossa grossa aos amigos. E quem apresentasse resquícios de sujidade ia à “barrela”, na fonte da Negrosa. Feita a barrela, de novo perfilados, os inspectores escolhiam dois colegas e diziam solenemente: “Ficam nomeados para o próximo dia de revista de asseio e de limpeza os alunos fulano e sicrano!” A figura típica e as excentricidades do prof. Metelo não lhe minguavam as qualidades de pedagogo, mas granjearam-lhe a fama de não regular bem do “miolo”. Era, de facto, um original em tudo. Nas atitudes, na linguagem, na metodologia. Mas, sob a sua aparente rudeza, ocultava-se uma personalidade rica de conteúdo humano. Tinha um apurado sentido cívico, que procurava incutir-nos. Era assim o prof. Metelo, que em todos os seus alunos deixou marcas indeléveis.

O ensino da época era sério e rigoroso e os professores competentes e dedicados. As disciplinas fundamentais eram o Português e a Aritmética. O objectivo primordial era saber escrever, saber ler e compreender o texto, dominar as quatro operações aritméticas, com números inteiros, decimais e fraccionários, e resolver problemas elementares. Os alunos saíam com boa preparação, quer para o prosseguimento dos estudos, quer para a vida prática. (Continua)

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