Nazaré Oliveira
COISA E GENTE DA MINHA TERRA - O Bairro da Negrosa (parte 1)
O Bairro da Negrosa (parte 1)

O BAIRRO DA NEGROSA era o meu bairro. Ali nasci e vivi até aos 27 anos. Na minha infância, três coisas davam ao bairro especial importância: o HOSPITAL, a ESCOLA e a SOPA DOS POBRES.
O HOSPITAL pertencia à Misericórdia de Santo António, que o geria e financiava. Era formado por duas alas, separadas pela Capela. Numa das alas, era a enfermaria dos homens, na outra, a das mulheres. Ao fundo da quinta, era a morgue, com saída para o caminho de Ansiães por um grande portão vermelho, que nós chamávamos “portão dos mortos”, junto do qual tínhamos alguma relutância em passar, sobretudo à noite.
Nesse tempo não havia centros de saúde e médicos de família. As enfermarias eram ocupadas por doentes das classes mais desfavorecidas, que, não tendo dinheiro para irem ao médico e se tratarem em casa, tinham como único recurso o Hospital. Para gente de mais posses havia dois ou três quartos particulares. Os serviços de enfermagem eram prestados pelas religiosas, sempre vestidas de branco e designadas por “irmãs da caridade”. Havia também o Antoninho Enfermeiro, um quarentão que também fazia uns serviços ao domicílio e era um artista a “botar as bichas”, “pôr ventosas” e “papas de linhaça”, remédios da época para muitas mazelas. Os serviços clínicos eram prestados pelos médicos da Vila. Frequentemente, via passar, a caminho do Hospital, o Dr. Ferreira de Almeida, atrás das suas barbas republicanas, o Dr. Aloísio, a olhar para a biqueira das botas, e o Dr. Roque Machado, com a sua pose aristocrática. Eram os médicos da velha-guarda. Mais tarde, outros vieram.
A SOPA DOS POBRES: há 20 anos, na Tribuna de Lafões, escrevi, sobre esta instituição, uma crónica que, em parte, reproduzo.
A SOPA DOS POBRES ficava junto ao Hospital. À entrada do caminho para a Várzea, onde hoje se encontra o Lar dos Idosos. Era uma construção pobre. Era pouco mais de um barracão, com uma cozinha e umas mesas de bancos corridos, sob a batuta da Irmã Glória. Avultavam grandes panelões, em cujo ventre ferviam os legumes e a carne que, diariamente, iam alimentar estômagos vazios que a caridade sampedrense havia selecionado. Sim, porque a caridade era selectiva! A primeira condição era adquirir o estatuto de “pobre”, sem o qual não havia direito à sopa. O olho da caridade estava atento às necessidades. Mas também aos comportamentos, de acordo com os padrões de moralidade da época.
Todos os dias os via passar. Por volta das 11 horas, começavam a juntar-se no largo da Negrosa, vindos de todo o lado. Fauna humana de todas as idades, homens e mulheres amachucados pela vida, empurrados pela miséria, desde o ainda jovem mas fraco de miolo, ao velho trôpego e fraco de peito, a tossir o catarro crónico, à velha embiocada no seu xaile preto de viúva triste, a engrolar padre-nossos. Afeitos à sua condição de “pobres”, era o último quinhão que lhes cabia de uma vida madrasta. No verão, procuravam a sombra fresca das árvores do terreiro. No inverno, a réstia de sol que lhes aquecia os pés, enquanto aguardavam a sopa que lhes iria aquecer os estômagos.
Fernando Canguiço era o “filósofo” do grupo. Nos lábios, um permanente e fino sorriso de quem encarava a vida com uma certa dose de ironia. Simpático, afável, cumprimentador. “Pitosga”, a espreitar pelas frestas dos olhos, aproximava o rosto das pessoas, para melhor as identificar. Nos momentos que antecediam a distribuição da sopa, conversava com os colegas, dava conselhos, contava histórias, onde não faltavam umas pitadas de filosofia da vida. Sempre de boas relações com o mundo, ali continuava o seu antigo ofício de trolha, rebocando mazelas do espírito e dando umas pinceladas de cor à vida negra dos mais desalentados. Era o único que os fazia sorrir. E, quando era preciso bater à porta da caridade, para apresentar qualquer pedido (hoje diríamos reivindicação), era ele o porta-voz da turba. E fazia-o sempre com um sorriso de simpatia. Sem humildade, mas sem arrogância. Gaguejava um pouco, mas não era peco a falar. Bom diplomata, sabia levar a água ao seu moinho. Nas minhas deambulações pela Negrosa, muitas vezes conversei com ele e tive ocasião de lhe apreciar as artes de conseguir o que pretendia.
Quando o rancho estava pronto, a Irmã Glória abria a porta e batia as palmas. Aquele bater de palmas repercutia naquela gente como as badaladas de um sino. Todos se aproximavam. Não havia atropelos. Se havia coisa que a Irmã Glória apreciava e impunha era ordem e respeitinho. O rancho era abundante e chegava para todos. Dava para o almoço e para o jantar. Cada um estendia o púcaro e recebia o caldo, o naco de carne e o pedaço de broa. Alguns abancavam logo, que o estômago tinha as suas exigências imediatas. Outros preferiam o sossego da casa, onde, às vezes, havia mais bocas à espera. Mas não era só do estômago que se tratava. Quando o frio começava a apertar, lá vinha a camisa de flanela e o par de peúgas.
Todos os dias eu via passar aquela “pobre gente pobre”. De vez em quando, havia um que nunca mais passava. Cumpria-se a lei suprema da vida. Mas a brecha não ficava por tapar. “Pobres” nunca faltavam!
(Continua)
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