Nazaré Oliveira

Sermão do encontro (Parte 2)

COISAS E GENTE DA MINHA TERRA (PARTE II)

(Continuação)

SERMÃO DO ENCONTRO

No número anterior, falámos do Sermão do Padre Carola e dos sermões do Cónego Isidro. Falemos agora do SERMÃO DO ENCONTRO, pregado na sexta-feira santa, aquando da Procissão do Enterro do Senhor. Era o mais espectacular e de maior audiência.

À noite, a procissão saía da Igreja do Convento, Rua Direita abaixo, à luz das tochas e ao compasso da marcha fúnebre tocada pela Filarmónica. Na embocadura da Rua, entre o Palácio de Reriz e a Capela da Misericórdia, surgia a grande Cruz de madeira, despida de imagens, geralmente transportada pelas mãos possantes do Vasco Badalo ou do Otelo de Pouves. Logo a seguir e ladeado pelas Irmandades com as suas opas, o Esquife com o Senhor morto, transportado aos ombros por homens descalços e encapuzados. A Procissão começava a descer a rampa da Praça. Todas as atenções e sentimentos se centravam no esquife, atrás do qual vinha o andor da Senhora da Soledade, seguida pela Verónica com o santo sudário e as Três Marias com lenço na mão para enxugar as lágrimas. Depois, vinham os Anjinhos. Manifestação de fé, a procissão também era espectáculo! No Adro, num plano superior em frente do Café Edgard, armava-se um Púlpito de madeira. A Praça estava repleta. Ali afluía gente vinda de todos os quadrantes da Vila.

No Adro, o pregador, dissimulado entre a multidão, esperava o momento de entrar em cena. Quanto o esquife estava próximo, a música calava-se. Tinha-se interrompido o trânsito, desligado o rádio do Café, apagado as luzes no Palácio de Reriz, na Casa das Paulas e noutras residências. Então, o pregador surgia de rompante no púlpito, avultando sobre a multidão e, estendendo o braço de mão aberta, num gesto teatral, exclamava: “Parai!… Parai!… “.  A procissão parava, à espera do resto do sermão. E, no silêncio religioso da noite, ecoava a voz do pregador. O tema da morte de Cristo era propício ao sentimento e à fácil exploração da sensibilidade dos fiéis. O sermão era espectacular mas curto, porque, daí a pouco, ia ser continuado. O pregador abrira o sermão com a expressão “Parai… Parai…”. Agora fechava-o, dizendo: “Continuai!… Continuai!…”. A Filarmónica voltava à marcha fúnebre interrompida e a procissão retomava o andamento, em direcção à Igreja, onde o Senhor ficaria sepultado. Aí havia mais sermão, agora dirigido especialmente à Mãe do Cristo morto, que se despedia do Filho à beira do sepulcro. Era, uma vez mais, a tónica do sentimento a ser explorada. Acabado o sermão, a procissão voltava a sair com o andor da Senhora da Soledade, seguida pela Verónica, as Três Marias e os Anjinhos, Rua Serpa Pinto acima, a caminho da Igreja do Convento, onde ficaria recolhida, à espera de domingo, para receber noutra procissão, o seu Filho Ressuscitado.

Qual o significado de tudo isto? Para uns, seria uma manifestação de fé; para outros, espectáculo. Na realidade, era uma mistura das duas coisas. Cada qual privilegiava um dos aspectos à sua maneira.

Os pregadores do Sermão do Encontro geralmente vinham de fora. Mas, algumas vezes o pregador era o pároco. Lembro-me especialmente de um sermão pregado pelo Cónego Isidro. Naquele dia, a saída da procissão tinha estado comprometida pela chuva que caíra abundantemente em toda a tarde. Para o começo da noite, porém, a chuva parou e a procissão saiu. Tudo como habitualmente. Quando chegou o momento próprio, o Esquife com o Senhor morto parado em frente do Edgard, o Cónego Isidro subiu ao púlpito e começou o Sermão do Encontro. Depois de um breve intróito, vieram os louvores ao S. Pedro, que tinha mandado aquela aberta para que a gente da Terra de que era Padroeiro pudesse cumprir a sua devoção e tradição. Só que o S. Pedro devia estar distraído, porque, a meio dos louvores, começaram a cair umas pingas grossas. O Cónego Isidro não se desconcertou. Rapidamente e antes que viesse mais, virou o bico ao prego e, abrindo os braços, exclamou: “Chuva de bênçãos! Chuva de bênções!” E os louvores ao S. Pedro continuaram, porque aquilo eram “lágrimas do Céu” a associar-se à dor dos homens. Certo é que a chuva não pegou. S. Pedro lá se lembrou que era Padroeiro e revogou a ordem. Razão para mais louvores. S. Pedro tinha sempre razão. Merecia louvores, quer chovesse quer não chovesse. Ele lá sabia. Para isso é que ele era santo! E o sermão continuou com o brilhantismo de sempre e lágrimas de algumas beatas que tinham sempre uma reserva de lágrimas para as ocasiões. Acabado o sermão, as restantes cerimónias decorreram no modo habitual.

Dizia-se que tinha havido um ano em que, no Sermão do Encontro, um pregador de fora tinha começado desta maneira: “Ó malvados de S. Pedro do Sul, que matastes o vosso Cristo!” Algumas pessoas não tendo compreendido o sentido figurado, começaram a rosnar. O pregador apercebeu-se e rapidamente deu a volta ao texto, fazendo-lhes compreender que a restrição verbal significava a humanidade. Deste facto não tive conhecimento directo. De várias pessoas o ouvi, incluindo o meu avô, que era o meu “computador”, antes de haver computadores.

Era assim a Páscoa de outros tempos! Hoje, já não há Sermões do Encontro. Agora, sobretudo entre os políticos, só sermões de desencontro.

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