Nazaré Oliveira
MANJERICOS
MANJERICOS

O texto que hoje se publica é de carácter estritamente pessoal, mas insere-se perfeitamente no título geral das minhas crónicas. As três personagens que o integram fazem parte das “Coisas e Gente da Minha Terra”: Eu, a minha Namorada (mais tarde minha mulher) e a minha Mãe. Os Manjericos eram os vértices do triângulo.
Quem nunca sentiu a magia perfumada dos manjericos, especialmente no São João? Nesse dia, ainda hoje, quando à minha porta passam as Cavalhadas de Vildemoinhos, onde vários carros carregados de vasos de manjericos têm lugar de destaque, eu compro sempre um vaSO e delicio-me com o perfume dos manjericos, que em mim despertam ressonâncias do passado, associadas numa sinestesia de impressões visuais, olfativas e afectivas.
Minha mulher nasceu no dia de São João de 1927. O que se segue foi escrito em sua me memória, no dia de São João de 1999, sete anos após a sua morte:
MANJERICOS
I
A minha mãe cultivava
Manjericos no quintal;
Era eu que lhos roubava,
Mas não fazia por mal.
II
Todos os dias levava
Um raminho à minha amada;
No peito lho colocava,
Para andar mais perfumada.
III
Mas a minha mãe sabia
Que o seu filho era o ladrão;
Eu via quanta alegria
Ia no seu coração.
IV
Redobrava de cuidados,
Manjericos bem regados,
E ai de quem lhes tocasse
E manjericos cortassel
V
Ficava toda zangada,
Porque ela os queria guardar,
Para o seu António levar,
Para a sua namorada.
VI
E sem quaisquer embaraços
Decorria o namorico,
Entre beijos e abraços,
Com cheirinho a manjerico.
VII
Manjericos perfumados,
Meus dois amores enlaçados,
Como me sabia bem!
Eu não queria mais nada
Que o amor da minha amada,
Com a bênção da minha mãe!
Dia de São João, 24-06-1999
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