Nazaré Oliveira

Do sermão do Padre Carola aos sermões do Cónego Isidro (parte 1)

COISAS E GENTE DA MINHA TERRA

O sermão era um dos momentos mais importantes das festas religiosas. Quando havia arraial, os mordomos tinham sempre a preocupação de contratar uma filarmónica e bons fogueteiros, para a parte profana, menos no período em que, em meados do século passado, o bispo D. José proibiu músicas e foguetes nas festas ligadas à Igreja. O mal-estar gerado por essa medida e, sobretudo, os protestos nas festas ligadas à Igreja. O mal-estar gerado por essa medida e, sobretudo, os protestos das Bandas e dos Pirotécnicos, e até de alguns párocos, em surdina, obrigaram o bispo a engolir o despacho proibitivo. E voltaram a ouvir-se as filarmónicas e os foguetes, que romaria sem música e foguetes não era romaria que se visse. Para os actos religiosos, missa, procissão e sermão, era ponto de honra contratar um bom pregador, às vezes o pároco da freguesia, outras vezes vindo de fora. E o que era um bom pregador? Nem sempre era o que pregava um sermão profundo e substancialmente conceituoso. O povo gostava mais que lhe falassem ao coração do que à razão. Bom pregador era aquele que sabia explorar o sentimentalismo, nem que fosse através de uma retórica balofa, e conseguia pôr as beatas a fungar, o que, para elas, era o supremo critério de avaliação dos méritos de um pregador. Naquele tempo, padres e beatas eram dois termos correlativos. Implicavam-se mutuamente. Os padres precisavam do apoio das beatas (que tanto podiam fazer dele um santo, como um pecador) e as beatas precisavam dos padres, ainda que mais não fosse para as absolverem das suas pequenas faltas. Sim, porque as faltas eram sempre “pequenas”, de acordo com a sua lógica, que poderíamos reduzir a um simples silogismo: “Quem é virtuoso não comete grandes faltas / Eu sou virtuosa / Logo, eu não cometo grandes faltas”.

Na tradição local, há memória de bons pregadores e bons sermões. Falava-me o meu avô materno num célebre SERMÃO DO PADRE CAROLA. Venera-se em Várzea Nossa Senhora do Ó, simbolo da maternidade, que lá está na Igreja paroquial, grávida, com o Menino Jesus nas entranhas. Num certo ano, talvez na minha infância, no dia próprio, celebrava-se a festa religiosa. O Padre Carola, pároco da freguesia, tinha fama de bom pregador e de uma certa originalidade. Senhor de si, ufanava-se dos seus dotes oratórios e de ter sempre o auditório na mão. Chegou o momento do sermão. Eu não estava lá. Mas estava o meu avô e, pelo seu relato, posso imaginar o cenário: O Padre Carola subiu ao púlpito. Esperou que passasse o frufru das pessoas que se sentavam e ajeitavam, pigarreou para aclarar a voz e, como se quisesse dizer aos fiéis “aí vai sermão”, assumiu uma atitude solene (o sermão também era espectáculo!) e, em voz enfática e forte, começou: “Grande dia! Grande festa! E grande sermão! Grande dia, porque é dia de Nossa Senhora do Ó! Grande festa, porque é o meu Pai mordomo! E grande sermão, porque sou Eu que o prego!” Proclamado o intróito, parou e passeou os olhos pela assistência, a colher o efeito. Servido o aperitivo, seguiu-se o prato forte: uma sermonada ao seu estilo. Não sei se foi um grande sermão, como ele o rotulou. O meu avô dizia que sim: “Um sermão de arromba, de fazer chorar as pedras!”. Certo é que o Padre Carola pôs as beatas a fungar e alguns homens a limpar uma lágrima furtiva. Atingira o clímax da oratória sagrada. É de supor que o Padre António Vieira, lá no seu túmulo, tenha sentido inveja do Padre Carola!

Não sei qual era o seu primeiro nome e suponho mesmo que Carola devia ser alcunha. Mas, pela amostra, penso que o nome que lhe quadrava seria Narciso.

Já no meu tempo, pregador de nomeada era o CÓNEGO ISIDRO, que paroquiou a freguesia de S. Pedro do Sul desde 1944 a 1970. Inteligente e culto, o seu estilo era outro. Artista da palavra e malabarista das ideias, os seus sermões eram ricos na forma e no conteúdo, o que não significava que menosprezasse o sentimento e o lado espectacular. Como um bom harpista, ele sabia tanger as cordas mais sensíveis do coração dos fiéis. Mas fazia-o com dignidade. Sem descer a demagogias fáceis. Foi um dos fundadores do Colégio de São Tomás de Aquino, em 1949 (o acontecimento mais importante do Concelho, no terceiro quartel do século passado). Para além da sua acção de pároco, a sua função de professor e co-director do Colégio tornou mais profunda a relação com a juventude sampedrense e seus familiares.

Pregar fazia parte do seu ministério sacerdotal. Acompanhei de perto alguns dos seus sermões, particularmente um que com ele “partilhei”. Melhor dito, foram quatro (na verdade, foram quatro em um).

Corria o ano de 1954. Eu era um jovem a começar a minha carreira de professor, no Colégio de São Tomás de Aquino. Entre os bons amigos que ali granjeei, estava o Cónego Isidro. Naquele ano, convidou-me para o acompanhar e guiar-lhe o “Taunus”, num percurso por vários locais, onde ia pregar uns sermões, no dia de Nossa Senhora da Assunção. Imeditamente lhe disse que sim, até pelo prazer que me dava a sua companhia.

Dia 15 de Agosto, a ronda começou por Negrelos, Senhora do Livramento, onde o Cónego Isidro arrancou um sermão de excelência.

Sermão acabado, aí vamos nós a caminho de Sá de Carvalhais, para a Senhora das Chãs. A festa já tinha começado. No momento próprio, o Cónego Isidro embalou e eu ouvi o sermão pela segunda vez. Foi só mudar o nome da Nossa Senhora.

E, de Carvalhais, lá vamos para Manhouce. Quando entrámos na Igreja, a primeira coisa que me saltou à vista foi a careca luzidia e suada do Padre António Luís, que iniciava a celebração. Pouco depois, eu estava a ouvir sermão em triplicado.

A manhã estava quase no fim e ainda faltava a Junqueira, no concelho de Vale de Cambra, mas pertencente à diocese de Viseu. Como se fazia tarde, carreguei um pouco mais no prego. Pelo caminho sempre fui dizendo ao Cónego Isidro que, se ele fosse cansado, eu podia pregar o sermão, pois já sabia a música de cor. Era só dizer-me como se chamava ali a Nossa Senhora! Quando lá chegámos, o mordomo da festa já estava em pulgas, a ver que chegava a hora do sermão e faltava o pregador. Mas chegámos a tempo. Tudo cronometrado! Já não tive coragem de ouvir o sermão. Quatro era de mais! E, enquanto o Cónego Isidro se esfalfava para fazer chorar aquela gente, eu fui contemplar a paisagem.

Acabada a festa, fomos almoçar com o Padre Boloto. Era mesmo almoço de padres! Já era tarde, a fome apertava, os petiscos eram convidativos, o vinhito era bom e o Cónego Isidro, que então era bom garfo, lá entendeu que, depois de ter pregado quatro sermões, estava absolvido do pecado da gula. E carregou-lhe. E eu não fiquei atrás. Entre padres, comi que nem um abade! Acabado o almoço, o Cónego Isidro estirou-se numa poltrona. Deu-lhe a soneira e ainda passou pelas brasas. Merecia-o! O Padre Boloto tinha ido à Igreja, ultimar uns assuntos com os mordomos e eu deixei o Cónego Isidro a curtir a soneca e saí a procurar uma sombra, para me estender. Mas depressa concluí que a poltrona do padre devia ser mais fofa do que a madre natureza. Regressei à sala no momento em que o pároco voltava da Igreja e o Cónego Isidro abria os olhos. Petiscámos mais uns bolitos, bebemos um cálice de Porto – suponho que ainda não se soprava no balão – e preparámo-nos para o regresso. Era fim de tarde, estava mais fresco, eu agarrei-me ao volante e lá viemos nas calmas, que já não havia mais sermões para pregar.

Bons tempos em que o Cónego Isidro pregava quatro sermões no mesmo dia! É com alguma emoção que recordo o saudoso Amigo! Que Deus o tenha junto de Si!

(Continua)

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