NAZARÉ OLIVEIRA
COISAS E GENTE DA MINHA TERRA - O Pechinchas
O meu avô materno tinha um irmão, ou melhor, um meio-irmão que vivia no Porto e era farmacêutico. O seu nome era Rocha, talvez apelido da mãe. Mas para toda a gente era o “PECHINCHAS”. Até para os meus pais. Eu era um miúdo e não o conhecia. Quando a sua carcaça começou a dar sinais de mazelas, passou a vir às Termas pôr o cabedal de molho. Instalava-se na Pensão das Janelas Verdes, gerida por sua meia-irmã (também meia-irmã de meu avô) e, portanto, meus meios-tios-avôs. Era tudo a meias! O meu avô ainda tinha outro meio-irmão, o Mouco, cujo perfil já tracei, quando escrevi sobre o Natal. Parece que o meu bisavô cultivava várias leiras e deixou sementes abundantes. Pelo menos, filhos de quatro mães!
Um dia, o meu avô foi às Termas visitar o meio-irmão Pechinchas e levou-me consigo. Ao começo da manhã, lá fomos, pedibus calcantibus. Em Várzea, parámos na taberna do Zé Corte, para o meu avô (re)matar o bicho que, pelos vistos, tinha ressuscitado entre casa e Várzea.
Chegados às Termas, dirigimo-nos à Pensão da minha meia-tia-avó, que nos disse que o meu meio-tio-avô estava para o banho terapêutico, no Balneário Rainha D. Amélia. Fomos lá. Eu nunca tinha lá entrado. O meu avô levou-me a ver a nascente da água quente, onde — dizia ele — se podia depenar uma galinha. Mostrou-me o retrato da Rainha, que está no Balneário, e contou-me coisas da sua vinda de que ainda se lembrava perfeitamente. Mal diria eu que, 57 anos mais tarde, haveria de escrever e publicar um livro sobre a presença da Rainha D. Amélia em São Pedro do Sul, para comemorar o centenário da sua vinda a banhos, nas Termas!
Mas voltemos ao tio-avô Pechinchas: ficámos a aguardar que ele saísse do banho. Eu estava curioso. Como seria ele? Fui dando largas à minha fantasia. Por fim apareceu, envolto em agasalhos, a tapar a boca e o nariz com um cachecol e umas farripas a espreitar de um barrete que lhe tapava o casco.
Fomos para a Pensão e recolheu ao quarto. Apareceu-nos algum tempo depois, enfarpelado e com outro visual. Como estava longe da minha fantasia! Era um homem de estatura média, mais para o baixo do que para o alto, a rondar a terceira idade, de olhos piscos, nariz aquilino, sobre o qual se encavalitavam umas cangalhas de pitosga, de grossas lentes e aros de tartaruga, um bigodito mal semeado e beiça caída; e só não era careca porque uns resíduos capilares habilmente penteados lhe disfarçavam a calva. Perfil de judeu usurário, por alguma coisa lhe chamavam “O Pechinchas”.
Aproximou-se de mim, simulou um afago e uma expressão facial que pretendia ser um sorriso, mas me pareceu uma careta. Abriu uma pasta, tirou uma bolacha e, solenemente, meteu-ma na boca, como se fosse a hóstia consagrada. Depois, ficou à conversa com o meu avô. Foi isto em meados de Setembro de 1939, Tinha eu dez anos. Lembro-me deste pormenor porque falavam da Guerra Mundial, que tinha rebentado dias antes (1 de Setembro) com a invasão da Polónia pela Alemanha.
Aproximava-se a hora do almoço e a conversa tinha caído em ponto morto. Como já tinham rogado todas as pragas ao Hitler, despedimo-nos e metemo-nos à estrada, de novo a butes, e viemos almoçar o casa. Minha mãe fez o almoço, porque não contava connosco, pensando que, no mínimo, no-lo teriam oferecido nas Termas.
O Pechinchas não nos ofereceu o almoço, mas não viemos de mãos a abanar: ao meu avô ofereceu um frasquito de uma pomada de seu fabrico, que — dizia ele — curava todas as feridas. A mim, repetiu a comunhão da bolacha e, abrindo um porta-moedas de malha de prata (ficaram-me os olhos nele) deu-me um tostão, com a magnanimidade de quem dá um rolo de libras. Nunca mais o vi.
E foi assim que eu conheci o meu meio-tio-avô Pechinchas de quem não guardo saudades.
Recordações de infância!
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