Nazaré Oliveira

Coisas e Gentes da minha Terra (parte XII)

A Tribuna de Lafões

No dia 15 de Janeiro de 1953, publicava-se em São Pedro do Sul o primeiro número da TRIBUNA DE LAFÕES, quinzenário regionalista. No mesmo dia em que nascia a Tribuna — assinale-se a coincidência — morria aquele que até então, em São Pedro, se havia revelado como o melhor jornalista de sempre, o Dr. Ferreira de Almeida, pena brilhante e polemista de garra que, durante anos, dirigiu o Povo da Beira, periódico local.

A lacuna deixada pela extinção deste jornal foi preenchida pela Tribuna de Lafões.

Foram seus fundadores:

Dr. Sales Loureiro que, quatro anos antes, se tinha radicado em São Pedro do Sul para, de parceria com o Cónego Isidro, fundar o Colégio de São Tomás de Aquino; assumiu as funções de Director do jornal.

Dr. Pinho Bandeira, médico e devotado sampedrense, que assumiu as funções de Editor.

António Guimarães, conceituado funcionário administrativo, Administrador e Chefe de Redacção.

Desde início acompanhei a vida da Tribuna de Lafões cuja fundação coincidiu com a minha entrada no Colégio de São Tomás de Aquino, onde, com a verdura dos meus vinte e poucos anos, iniciei a minha carreira de professor. O meu primeiro contacto com a Tribuna foi o de leitor. Depois, passaria a mais: comecei a escrevinhar e, a pedido do meu amigo António Guimarães, passei a colaborar com ele.

O jornal era composto na Tipografia Lafões, na Rua Serpa Pinto, ao fundo do Jardim. A tipografia era propriedade de Álvaro Duarte, um homem de formação artística que, em Lisboa, tinha frequentado o Conservatório, mas que a vida encaminhara para São Pedro do Sul, para outra música, a das máquinas tipográficas. Assinale-se, porém, que Álvaro Duarte não se limitou a isso. Pôs a sua formação artística e dotes musicais ao serviço da terra, participando em variadas manifestações culturais, nomeadamente espectáculos.

Mas voltemos à Tribuna de Lafões.

Enquanto permaneci em São Pedro do Sul, colaborei em várias tarefas: redacção, dar um jeito numa ou outra notícia das correspondências das freguesias, que precisavam de ser retocadas, quer na extensão quer na forma, revisão de provas tipográficas, paginação.

Não havia computadores. A composição era totalmente manual: vários tabuleiros com divisões, tantas quantas as letras do alfabeto, mais as vírgulas, pontos, parênteses e tudo o mais. Em cada cacifro, os caracteres gráficos respectivos. Eu ficava admirado com a perícia e rapidez do Álvaro e do Américo que, a dedo ou de pinça na mão, pescavam em cada divisão as letras necessárias para a formação da palavra. E depois da impressão, a rapidez com que recolocavam cada letra no cacifro próprio! Quando eu fazia a revisão das provas tipográficas raramente apareciam gralhas que eles corrigiam com a mesma perícia.

Havia um correspondente de uma freguesia que, no pormenorizado relato dos casamentos, usava sempre a palavra “paraninfaram” como sinónimo de “serviram de padrinhos”, o que é perfeitamente correcto. O homem, talvez por influência brasileira, gostava da palavra e, em todos os relatos, lá vinha o paraninfaram. Um dia, vem a notícia do casamento do senhor Manuel da Costa com a menina Maria das Dores Almeida (os nomes são fictícios, porque já não me lembro dos verdadeiros). E continua a notícia: “Paraninfaram os noivos o Senhor António Matos e sua esposa D. Maria do Carmo”. Até aqui, tudo bem. Eu li o relato e entreguei aos tipógrafos. Quando o jornal foi publicado, a notícia saiu assim: “Casou o senhor Manuel da Costa com a menina Maria das Dores Almeida. Parafinaram os noivos o senhor António Matos e sua esposa D. Maria do Carmo”. A gralha, resultante de uma transposição de letras, tinha escapado à minha revisão, tão habituado à palavra eu já estava!

Com a minha saída de São Pedro do Sul, em fins de 1956, acabaram estas tarefas na Tribuna de Lafões, mas a ela fiquei sempre ligado, como leitor e colaborador pela escrita. Durante quatro décadas, escrevi com assiduidade, ajudando a alimentar a secção “Para a História da Região e do Concelho”. Outros o fizeram também, com brilho. Estou a lembrar-me de Barros Mouro, Padre Alberto Poças, para citar apenas os mais assíduos. Lá deixei também artigos de fundo, crónicas sobre a vida sampedrense, temas pedagógicos, etc.

Foram tantos e de qualidade os colaboradores que passaram pela Tribuna que se torna impossível recordá-los todos: correspondentes das freguesias, de África, do Brasil e de todos os lados onde havia sampedrenses.

Em 1967, o Dr. Sales Loureiro deixou São Pedro do Sul. O Dr. Pinho Bandeira assumiu a direcção, com o Inspector Hildebrando Oliveira no cargo de sub-director. Hildebrando era um homem de acção e sentido das oportunidades, jornalista de fina água, pensava e escrevia muito bem. Deu à Tribuna um segundo fôlego. Infelizmente, a doença e a sua morte, em 1995, amputou a Tribuna de Lafões de um dos seus esteios fundamentais. O Dr. Pinho Bandeira e António Guimarães, ao cabo de 45 anos, tinham chegado ao limite das sua forças. Conscientes das dificuldades e das suas limitações, satisfazendo os desejos de António Guimarães (Filho), trespassaram-lhe o jornal. Mas o Filho, a despeito da sua boa vontade, não tinha para as actividades jornalísticas a preparação e a garra do Pai. A tarefa também não era fácil. A Tribuna de Lafões já não era o único jornal da terra. Em 1982, surgira a Gazeta da Beira, concebida e realizada por gente nova e com melhores meios técnicos: já não era fácil o semi-amadorismo da Tribuna competir com o profissionalismo da Gazeta da Beira.

Durante quase meio século, a Tribuna de Lafões percorreu a terra, cruzou os ares, sulcou os mares, levando a todos os continentes as notícias esperadas por aqueles que viviam longe da sua terra. Pode dizer-se que boa parte da história do Concelho de São Pedro do Sul e da Região de Lafões está nas sua páginas. Acontecimentos da vida colectiva e da vida pessoal dos cidadãos ali estão registados. Nas suas páginas, pulsou a vida sampedrense. Para além de fonte de informação, foi também força de intervenção, abrindo espaços de comunicabilidade, lançou ou apoiou ideias, iniciativas e realizações, catalizou vontades, potenciou controvérsias salutares e fecundas, defendeu e divulgou os valores regionais, dando voz a quantos, nas suas colunas, quiseram expor os seus pontos de vista. Sempre se norteou por três objectivos fundamentais: estar atenta à realidade social do Concelho e da Região, isenção e rigor informativo. Criticou e foi criticada. Mas criticou sempre com seriedade e aceitou sempre as críticas que lhe foram feitas com igual seriedade.

Dobrados 45 anos de uma trajectória de regularidade pendular sem qualquer ruptura de publicação ou das suas linhas de rumo fundamentais, em 15 de Maio de 1998 era publicado o último número, o 1267.

Acabou, mas permanece como arquivo precioso a que terá de recorrer quem algum dia quiser escrever a história do Concelho e mesmo da Região de Lafões. Por mim, honro-me de ter deixado nesse arquivo a minha quota-parte.

Não queria acabar sem deixar uma nota final: meio ano depois da publicação do último número, morria António Guimarães, um dos seus criadores e principal esteio da Tribuna de Lafõe

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