Nazaré Oliveira
Coisas e Gentes da minha Terra (parte XI) - A Catequese
A Catequese
Como todas as crianças, na idade própria e na linha da boa tradição paroquial, fui frequentar a catequese. Aprender a doutrina, como se dizia. Menino bisonho, lá me levaram ao Senhor Vigário, que já me havia baptizado. Fui integrado num grupo de rapazes. Nada de misturas com as meninas, que formavam grupo à parte!
O Senhor Vigário apresentou-me à D. Eurídice, capataz das catequistas. Depois do Senhor Vigário, Dona Eurídice era a “manda chuva” da igreja.
O Padre Nosso e a Avé Maria já minha mãe me ensinara. Mas por aí se ficava a minha ciência teológica. Lá aprendi todo a catecismo: a Salve-Rainha, as Bem-Aventuranças, todos os Actos (de Fé, de Caridade, de Esperança), as Virtudes Cardeais, as Virtudes Teologais, os Pecados Mortais, os Pecados Veniais e um rol de orações a vários santinhos, muito eficazes para certas maleitas e situações.
Eu tinha boa memória e encasquetava tudo com facilidade, embora nem sempre compreendesse, até porque as catequistas também talvez não compreendessem bem tudo o que nos ensinavam. Às vezes falavam mais do inferno do que do céu. Transmitiram-me a ideia de um Deus mais juiz castigador do que um Deus do amor e do perdão. Se trovejava, era Deus a ralhar, se tínhamos preguiça, dizíamos uma tolice, uma mentirita ou olhávamos para as pernas de uma menina era um pecado grave. Íamos para o inferno. Não se podia pôr o pé um ramo verde! Para as catequistas mais benevolentes, não era caso para tanto e resolviam a coisa com o purgatório.
Um dia apareceu lá pela catequese um seminarista a fazer-nos uma espécie de exame. Era o sampedrense Flávio, no seu fato preto, engravatado, muito penteadinho e escovadinho, elegante como se fosse para um concurso de beleza (e talvez ganhasse o prémio!). Ao lado do Senhor Vigário, alto como uma torre, o Flávio, baixinho, parecia-me uma miniatura de padre. Estava de férias do seminário, veio à catequese e começou a interrogar. Quando chegou à minha vez, apanhou-me distraído e acordou-me com uma boa lambada. Depois, lá viu que eu sabia aquilo tudo e amaciou.
Aproximava-se o dia da primeira comunhão. Uma tarde, o Senhor Vigário chamou-me à sacristia (já me referi a este episódio, quando tracei o perfil do Senhor Vigário) e disse-me: “Como tens boa memória, serás tu capaz de decorar umas palavrinhas, para dizer aos teus companheiros no dia da comunhão? “Hesitante, lá lhe disse que sim. Entregou-me dois linguados de papel com as palavrinhas. Lá encasquetei o arrazoado. Recomendou-me segredo. Nem as catequistas sabiam.
No dia da comunhão, no momento próprio, a um sinal do Senhor Vigário, subi ao altar e comecei: “Companheiros e companheiras, chegou enfim o dia venturoso da nossa primeira comunhão. Nosso Senhor Jesus Cristo baixou há pouco aos nossos corações…”
E por aí adiante, lá debitei o resto. A memória não me atraiçoou e o “sermão” saiu di- reitinho.
Os meus pais ficaram felizes, o Senhor Vigário satisfeito e as beatas admiradas com as “minhas” palavras bonitas. Até a D. Eurídice, que não era para manifestações afectivas, me deu um beijo.
Posteriormente, o Senhor Vigário pediu-me que fosse continuando a aparecer e meteu-se-lhe na cabeça que eu havia de ir para o seminário. Mas, se se meteu na cabeça dele, não se meteu na minha. Mais uma vez, apareceu o seminarista Flávio que, por encomenda do Senhor Vigário, tentou convencer-me. Não teve êxito e o mensageiro também não era o mais indicado: eu ainda não tinha esquecido a lambada. De resto, mais tarde, vim a compreender que, em relação ao seminário, tínhamos um ponto comum: eu não queria entrar e ele queria sair. Porque, algum tempo depois, o Flávio deixava o seminário, Mais tarde, viemos a ser grandes amigos. Meia dúzia de anos mais velho do que eu, o facto de sermos conterrâneos e vivermos a maior parte da nossa vida em Viseu, bem como as nossas afinidades no domínio da escrita mais nos aproximaram em assídua convivência.
Flávio Gouveia Osório foi um sampedrense que mereceria ser mais conhecido e lido na sua terra. Prosador e inspirado poeta, a sua escrita é multifacetada, vernácula e escorreita, em que o léxico erudito se combina com o léxico popular, na descrição de ambientes e personagens. Deixou vários livros publicados e colaborou em revistas portuguesas e estrangeiras. Foi um estudioso do poeta, também sampedrense, António Corrêa d’Oliveira, com o qual privou de perto. Não queria deixar de evocar Flávio Gouveia Osório, porque o merece e faz parte da GENTE DA MINHA TERRA, onde veio acabar os seus dias, no Lar de Idosos da Misericórdia.
Os meus tempos de catequese são recordações de infância que marcam um aspecto da vida religiosa sampedrense e de algumas das suas personagens, na segunda metade dos anos trinta.
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