Nazaré Oliveira
Coisas e Gentes da minha Terra (parte X) - O NATAL

O NATAL faz parte do imaginário de todos nós. Acontecimento mais transcendente da história da Humanidade, ao longo de mais de dois mil anos, é fonte perene e inesgotável para todas as áreas da actividade humana, nomeadamente no domínio do espírito. A Literatura tem encontrado campo fértil de inspiração: sobre ele, grandes prosadores e poetas têm escrito as mais belas páginas. Na Pintura, belos quadros têm saído dos pincéis de muitos artistas. Na Escultura, basta lembrar os presépios de Machado de Castro. Na Cerâmica, as ingénuas figuras de mestres oleiros. Na Música, seja ela erudita ou popular (lembremos as Janeiras). Em todos os sectores da cultura: filósofos, teólogos, psicólogos, sociólogos, cineastas, teatrólogos, cada um à sua maneira, todos têm encontrado no Natal temas para a sua reflexão e produção.
Mas em todos os sectores da vida humana o Natal está presente, com a sua magia e encanto, nesta quadra que vai desde o Nascimento de Cristo ao dia de Reis, passando pelo Ano Novo: no comércio, na indústria, no espectáculo, na solidariedade, até na política, em que o Presidente da República envia à nação a sua mensagem, o Governo e a Assembleia da República trocam cumprimentos e o Papa dá ao mundo a sua benção urbi et orbi.
Longe vão os natais da minha infância, que recordo com saudade: a consoada, o bacalhau com batatas e couves da nossa horta, as fritas de menina, as rabanadas, o cálice de vinho fino que nessa noite se bebia, as libras de chocolate que o meu pai comprava no Edgard para o Menino Jesus pôr no sapatinho (nós fingíamos que acreditávamos), a Missa do Galo de que ouvia falar mas a que não ia, com muita pena minha.
A esta noite anda ligada uma personagem que sempre consoava connosco. Era o MOUCO, meio-irmão do meu avô materno. Antigo tipógrafo, era surdo mas não mudo, embora falasse com alguma dificuldade. Vivia num quarto alugado. Ganhava para o seu sustento e para os cigarritos fazendo alguns biscatos, especialmente a distribuir jornais e panfletos. Na noite de Natal vinha sempre cear com a única família que lhe restava. Pouca gente saberia o seu nome. Creio que se chamava Urbano, mas para toda a gente era o Mouco.
Depois da ceia, a gente miúda jogava aos pinhões com a velha piorra, que girava na expectativa de que saísse o Rapa. O meu pai, o meu avô e o Mouco jogavam o dominó. O Mouco, apesar das suas dificuldades, fazia as despesas da conversa. Uns copitos a mais desemperravam-lhe a língua e falava, falava, expondo as suas ideias revolucionárias colhidas nas suas leituras dos tempos de tipógrafo. O meu meio-tio-avô MOUCO é, ainda hoje, uma figura marcante dos Natais da minha infância!
Mas tudo isto já vai longe! As novas tecnologias haviam de fazer sentir-se também no Natal. Era inevitável na moderna sociedade de consumo.
Hoje, há variados Natais: o Natal Artístico-literário; o Natal Informático, da Internet, do telemóvel, dos SMS, que substituíram o cartão e o postal de Boas-Festas; o Natal Televisivo que nos leva a casa o espectáculo; o Natal dos Hospitais que nos leva junto dos que sofrem; o Natal do Jet Set, em que se exibem toilettes e aparecem algumas figuras balofas a dizerem banalidades — quando não tolices — com poses de quem julga dizer coisas profundas; o Natal das Ceias Pantagruélicas, onde se faz a propaganda dos aristocratas da cozinha que deixaram de chamar-se cozinheiros para passarem a ser chefs (à francesa), ceias onde às vezes se enche o estômago e esvazia o espírito; o Natal do Comércio que, nesta quadra, se desforra das épocas baixas; o Natal dos Sem-Abrigo que lamentam haver Natal só uma vez por ano; e tantos outros Natais: dos reclusos, dos bombeiros, dos idosos, das escolas, das iluminações feéricas… O Natal também tem o seu folclore, costumes, lendas, tradições, variáveis de povo para povo de região para região.
Tudo isto é natural. É muito louvável que os artistas nele encontrem temas para a sua criatividade estético-literária, que o comércio e a indústria ganhem dinheiro e dêem dinheiro a ganhar promovendo o emprego, que se iluminem as ruas, se façam ceias de convívio, se faça do Natal uma festa. Daí a consagrada saudação de “Boas-Festas”. A festa, desde tempos imemoriais, é um dimensão importante da vida humana. Mas o Natal não se reduz à festa, onde tantas vezes predomina o consumismo, o esbanjamento, o supérfluo, a ostentação, que esvaziam o Natal da sua autenticidade.
Sem excluir a festa, o Natal há-de ser tempo de reflexão, de repensar a nossa relação com os outros. Mas a nossa relação permanente, não apenas nesta quadra, em que essa relação até é privilegiada com acções, colectivas ou individuais, de apoio aos mais carenciados, como se quiséssemos, com as nossas generosidades natalícias, saldar o nosso débito de solidariedade.
O Natal não é só para crentes. É para toda a gente. Se fosse só para crentes, não veríamos os aviões, os comboios repletos de passageiros, as estradas cobertas de automóveis e autocarros, com gente que se desloca, nalguns casos de lugares longínquos, para viverem a FESTA DA FAMÍLIA.
É preciso que o verdadeiro espírito do Natal e o profundo significado da sua mensagem de FRATERNIDADE UNIVERSAL sejam compreendidos e vividos por todos, os Homens.
Comentários recentes