Nazaré Oliveira
Coisas e gentes da minha terra (parte IX) O GOVERNADOR CIVIL DE BAIÕES
AUGUSTO MARQUES DE OLIVEIRA era um homem muito conhecido em São Pedro do Sul. Era geralmente designado por AUGUSTO DE BAIÕES, freguesia próxima da sede do Concelho, tão próxima que hoje faz parte da União de Freguesias São Pedro do Sul-Várzea-Baiões.
O Augusto em Baiões nasceu e ali residia, mas passava o dia e boa parte da noite na Vila, onde tinha muitos amigos e vida social. Era um dos habitués do Clube São Pedro, onde passava os serões com o seu grupo da batota.
Era um homem de boa apresentação, elegante mesmo, boa educação, bem falante e bem relacionado. Dispunha de uma situação económica mais que desafogada, o que lhe permitia apoiar e participar em várias instituições da terra. Foi Provedor da Misericórdia no triénio 1976/78, mandato que não completou devido à sua morte prematura. Era um homem generoso. Quando, em 1971/72, estive a dirigir a Escola Preparatória D. João Peculiar, então criada, com ele mantive contactos, devido ao apoio que ele dava a alunos necessitados.
Um dia, realizava-se no Salão Nobre da Câmara Municipal uma sessão de recepção a um qualquer Secretário de Estado, que vinha trazer a São Pedro do Sul mais umas pitadas de Estado Novo, a pretexto de uma qualquer inauguração. O Governador Civil era o Dr. Marques Teixeira, prestigiado sampedrense.
Bombeiros perfilados, com os capacetes e os machados brilhando ao sol daquela tarde quente. Ao salão nobre iam chegando entidades e convidados. Jardim acima, o público que ainda ligava a estas coisas ou não tinha mais para onde ir dirigia-se para o edifício. E lá vinham, no seu passo cadenciado, o Augusto de Baiões e o Prof. Virgílio, engravatados e encadernados a preceito, nos seus fatos de cerimónia.
Ao portão da Câmara, dois polícias acompanhantes das entidades controlavam as entradas. Um dos cívicos pediu-lhes a identificação. O Augusto, com ar solene, responde-lhe: ”GOVERNADOR CIVIL DE BAIÕES E O SEU SECRETÁRIO”. O polícia bateu o tacão e fez continência. E o “Governador Civil de Baiões” e o seu Secretário, compenetrados das suas funções, subiram a escadaria e instalaram-se no salão nobre.
Iniciou-se a sessão, que decorreu nos moldes habituais: as mesmas tiradas patrioteiras, os mesmos louvores às entidades presentes e aos “pais da Pátria” que, em Lisboa, velavam pela Nação!
Foi assim que, pela primeira vez, em São Pedro do Sul se realizou uma sessão política com dois governadores civis.
O Prof. Virgílio, que era gozão, contou a história no Grupo do Clube e o Augusto Marques de Oliveira passou a ser para toda a gente o “GOVERNADOR CIVIL DE BAIÕES”.
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