NAZARÉ OLIVEIRA

FIGURAS TÍPICAS (parte VII) - Dionísio - Vila Maior

Era um conceituado sampedrense que, apesar da nossa grande diferença de idades, me dispensou a sua amizade e com quem tive o prazer de conviver com alguma intimidade.

Falecido era 1970, foi figura marcante ao longo de várias décadas, deixando o seu nome e a sua acção ligados aos mais variados sectores da vida sampedrense.

Foi comerciante, sócio da Firma proprietária do Centro Comercial Adelino e Silva que explorava o comércio de mercearias por grosso e abastecia toda a região. Mas não se ficava por aí. Era um homem de figura distinta, cabelos brancos, que me fazia lembrar uma cabeça de senador romano. Tinha uma personalidade multifacetada. Aberto às manifestações de carácter cultural e artístico, intervinha onde sentia que as suas capacidades podiam ser úteis: músico exímio, regeu a Banda Filarmónica Harmonia e o Orfeão local; em 1953, assumiu a iniciativa de ressuscitar as Festas da Vila, mortas havia cerca de trinta anos, e liderou as Comissões de Festas de vários anos, numa das quais participei, a seu convite. Compreende-se por que passaram a chamar-lhe o “Pai das Festas”.

Desde novo, fez as suas incursões pela imprensa regional, tendo sido redactor e administrador de um jornal que em tempos se publicou em S. Pedro do Sul. O “bichinho”

da escrita ficou e, quando, em 1953, surgiu a Tribuna de Lafões, voltou à liça. Ali deixou o melhor das suas actividades jornalísticas numa série de artigos, alguns sobre temas da actualidade, a maioria sobre temas da vida concelhia, a que estava particularmente atento. E foi através deste seu pendor para a escrita que nos aproximámos.

Em 1952, iniciava eu, com os meus vinte e poucos anos, a minha actividade como professor no Colégio de São Tomás de Aquino e, pouco depois, a minha colaboração na recém-criada Tribuna de Lafões. Um dia, fui procurado pelo Senhor Dionísio que me pedia o favor de ler os seu escritos antes de os enviar para o jornal. Respondi-lhe que me sentia muito honrado com a confiança e, se isso o deixava mais tranquilo, estava à sua disposição. E assim passou a fazer-se. Embora ele não tivesse formação académica além da instrução primária, a sua inteligência, as leituras, a sua experiência de vida e acrisolado bairrismo forneciam-lhe temas pertinentes que, na sua perspectiva, tratava com clareza de ideias. Os seus artigos eram lidos com muito interesse. Cuidadoso a manusear o dicionário, nunca lhe encontrei um erro ortográfico. Tão-pouco algum daqueles erros de concordância agora tão vulgares, mesmo em alguns agentes da comunicação social. Apenas dois aspectos lhe apontei que deviam ser melhorados: a preocupação por vezes exagerada de não repetir certas palavras no mesmo texto levava-o a procurar sinónimos que, não sendo erro, nem sempre eram os mais adequados. Mostrei-lhe, com exemplos tirados de alguns bons escritores, que a repetição, sobretudo quando as palavras repetidas estão distantes, não prejudica o estilo e às vezes até o melhora.

Outra deficiência era a pontuação: quando eu o aconselhava a suprimir ou acrescentar uma vírgula, resistia: que não lhe soava bem. Feita a sua pontuação, fazia leituras sucessivas e o seu ouvido de músico, habituado a um ritmo interiorizado, reagia às alterações. Era isto nos anos 50; se fosse vinte anos mais tarde, atirar-me-ia com Saramago à cara! Com as minhas indicações e a ajuda de um prontuário que lhe aconselhei, acabou por assimilar as regras fundamentais da pontuação, que deixaram de fazer mossa ao seu ouvido.

Entendendo que devia manifestar-me o seu agradecimento, pelo Natal presenteava-me sempre com um grande bacalhau que pesava mais do que o reduzido auxílio que eu lhe prestava.

Escreveu até ao fim da sua vida. Terminou o último artigo, que tinha por título O Concelho Progride, com a seguinte nota: “Tocaremos este assunto assim que seja possível. Aliás, se Deus mo permitir”. Dir-se-ia que previa o fim. Poucos dias depois já não estava entre nós.

Testemunho da consideração em que era tido foi o seu funeral, em que se incorporaram uma representação da Câmara Municipal, todas as Bandas de Música da Região de Lafões, Corporações de Bombeiros e outras colectividades da vida sampedrense.

Que Deus, que ele invocou no seu último escrito, o tenha junto de Si!

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