Nazaré Oliveira
FIGURAS TÍPICAS (parte VI) - O João Valério
FIGURAS TÍPICAS (VI)
O João Valério
Foi uma figura típica de São Pedro do Sul. Funcionário da Câmara Municipal, a prestar serviço num gabinete — a Administração — que, pelos anos 40-50, funcionava no Claustro do Convento. O Administrador era o Prof. Paulino, um duro como professor e como administrador. O gabinete era chefiado pelo Daniel Silva e o Valério era o Oficial de Diligências.
Não sei bem qual era o estatuto jurídico da Administração nem que poderes tinha o Administrador. Sei que, em certos casos e delitos, tinha poderes de investigação e ali se davam uns apertos aos inquiridos. Ser chamado à Administração nem sempre era pêra doce, até porque o Prof. Paulino tinha lá um conceito de justiça que não andaria muito longe da sua pedagogia.
Ora, o João Valério, como Oficial de Diligências, estava investido de certos poderes, inclusivamente usar pistola. Um dia, assisti a uma cena em que o vi puxar por ela e disparar. Estava eu à porta de minha casa quando vi passar o Alexandre Bourdain, um matulão que morava no meu bairro e nem sempre trilharia caminhos direitos, a caminhar apressadamente. Atrás dele e à distância de uns 20 metros, vinha o Valério gritando: “Pára, Bourdin, pára, Bourdain, ou disparo”. É o páras! O Bourdain fez ouvidos de mercador. E o Valério disparou mesmo. Pôs o joelho em terra, puxou da pistolita e mandou dois tiros. O Bourdain deu corda aos sapatos, virou para o Largo da Negrosa e desapareceu. O Valério nem tentou persegui-lo. Parou a falar comigo: que tinha um mandado para o fazer comparecer na Administração; e mostrou-me o papel com a intimação; disse-me que não queria atingi-lo, era só para intimidar. Disso já eu estava convencido, mas o Bourdain era um tipo batido e não se intimidou.
O Valério ficou algum tempo a falar comigo. Com surpresa minha, fez-me perguntas sobre a minha vida académica. Depois vi que as perguntas não eram inocentes. Entrou em confidências e disse-me que andava a preparar-se para concorrer à Polícia Científica. Não tendo habilitações académicas além da 4ª classe, notei que tinha uma certa cultura, fruto da prática e de leituras, pensava bem e exprimia-se correctamente, ainda que com alguma afectação. Falava vagarosamente e martelando as sílabas.
A partir desse dia, sempre que me encontrava, passou a conversar comigo. Quando assumi o cargo de Proposto do Tesoureiro Municipal, passei a conviver mais com ele: a Tesouraria e a Administração funcionavam em salas contíguas. Falava-me de livros que tinha lido ou estava a ler, particularmente de um intitulado Polícia Científica.
Compreendi melhor a sua preocupação de transmitir de si uma imagem aristocrática. Confidenciou-me que, sendo oficialmente filho de pai incógnito, sabia perfeitamente quem era o seu pai: um varão da família Correia de Lacerda, do conhecido Solar das Paulas; referia-se a uma das proprietárias como “a minha prima Maria Luísa”. Que havia de pôr em tribunal uma acção de paternidade a reivindicar o seu direito ao nome e património da parte de seu pai. E concretizou o seu intento. Não sei que argumentos e trunfos apresentou o seu advogado. Certo é que ganhou a acção e deixou de ser o João Baptista Valério para passar a ser João Baptista Correia de Lacerda.
A sua vida deu uma volta. Refinou mais as suas atitudes. Oficial de Diligências, à falta de melhor, servia para um João Valério. Mas não servia para um Correia de Lacerda. Por isso, pediu a aposentação, deixou o emprego e assumiu a sua nova posição social de descendente da aristrocacia. Passou a querer que o tratassem por Correia de Lacerda. O pior para ele foi que as pessoas não mudam facilmente de hábitos de linguagem enraizados e para todos continuou a ser o João Valério. Era mais simples e era difícil dobrar a língua para lhe chamar Correia de Lacerda.
Um dia, o Padre António Luís, abade de Manhouce, veio à Vila tratar dos seus assuntos. Com a sua gordura, a careca luzidia e a pastita debaixo do braço, subia o Jardim em direção à Câmara, para colher uma informação. Estava com sorte. Encontrou o Valério, com quem noutras vezes havia tratado outros assuntos. Dirigiu-se a ele: “Ó Senhor Valério, podia dar-me uma informação?” O Valério, com ar pomposo, em tom solene e martelando as sílabas, interrompeu-o: “Ó Senhor abade, o João Valério morreu”. O rústico Padre António Luís abriu os olhos e dispara-lhe a jaculatória: “Então, Paz à sua alma!” E desandou, deixando-o embatucado. A lição produziu efeito, porque passou a moderar-se um pouco mais.
Concebeu outro projecto: casar. Já não era novo e sempre tivera um fraco pela Milú Bandeira, de uma família de teres e haveres, filha do conhecido advogado, Dr. Bandeira. Enquanto Valério, a Milú era uma fortaleza inexpugnável, talvez não tanto por ela como pelas muralhas familiares que a circundavam. Mas agora, enquanto Correia de Lacerda, o caso mudava de figura. E tentou. A Milú também já não era nova, as defesas estavam mais vulneráveis e a coisa pegou. Casaram. A família torceu o nariz, mas estava feito. Foi um amor serôdio, mas ainda a tempo de terem a felicidade de gerar um filho. Infelizmente, não viveram muito tempo juntos, porque o Valério morreu cedo. Sei que tratou sempre a sua esposa com muito carinho.
A viúva veio viver para Viseu. Um dia, apareceu em minha casa e apresentou-me o filho, já um adolescente, que vinha frequentar a Escola onde eu era professor. Era um moço com boa apresentação, traços do pai e a revelar boa educação. Recebi-a com muito gosto. Era minha conterrânea, tinha sido colega de minha mulher na Escola Primária. Em seu nome e do falecido marido, pediu-me que, lá na Escola, olhasse pelo filho. Dei-lhe todo o apoio possível.
Foi isto há mais de trinta anos. Perdi-lhe o rasto. É hoje um homem. Não sei se algum dia lerá estas linhas. Se tal acontecer, quero que saiba que tive sempre o maior respeito por sua mãe e por seu pai que sempre manifestou consideração por mim.
João Valério passou a vida atrás de um sonho: a sua promoção social. À sua maneira, lutou por ele!
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