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Nazaré Oliveira

COISAS E GENTE DA MINHA TERRA (parte 2)

(Continuação da Edição 719 de 08/06/2017)

Naquela já longínqua noite em que assisti ao ensaio da Banda, eu não era o único mirone. Havia outra personagem que não tocava qualquer instrumento. Era o Abel. Só mais tarde compreendi plenamente qual era a relação entre o Abel e a música. Quem era esta personagem? Nunca lhe conheci outro nome. Quando se dizia “O Abel”, estava tudo dito. Estava identificado. Apelidos, se os tinha, não eram conhecidos. Também não eram precisos. Se alguém lhe juntasse um apelido, funcionaria ao contrário. Em vez de o identificar, serviria para confundir. Um só nome dizia tudo; Abel e nada mais. Como aparecera o Abel? Dizia-se que viera dos lados de Lamego. Talvez nem ele soubesse. Era como se tivesse vindo do nada. O Abel era um homem sem história. Sem família. Sem apelido. Sem passado. Sem futuro. Sem profissão. Sem o juízo todo. Sem ter onde cair morto. Tudo nele era privação. O seu ser era o seu não ser. O seu nada era o seu tudo. De que vivia o Abel? Fazia uns recados, alombava umas malas, biscato aqui, biscato ali, recebia umas gorjetas e tinha os seus protectores, que lhe davam o seu cigarrito e uns tostões para o copo e para a bucha.

Mas o Abel tinha uma paixão: a Música, ou melhor, a Banda. Porque ele de música não percebia nada. Gostava de a ouvir e, onde estivesse a Banda, estava o Abel. Acompanhava-a para todos os lados. Passou a ser um “elemento” da Banda. Não tocava mas transportava os instrumentos, sobretudo o bombo, a caixa e os pratos, que eram para ele os instrumentos sublimes. Até porque eram os únicos em que, de vez em quando, podia dar a sua tocadela. Quando carregava o bombo, era um homem feliz. Um homem importante. Era como se levasse o mundo às costas. E, quando o Teles malhava no bombo e o pratilheiro chapava os pratos com estridência, o Abel vibrava em todo o seu ser. Até os olhos se lhe riam. Quando a Banda tocava nas festas, o Abel estava no seu elemento. Tirava a barriga de misérias. Bem comido, bem bebido, era um dia ou uma noite de felicidade.

Dizia-se que o Abel, além da música, tinha outra paixão: um amor platónico (ou talvez não) pela Zefa do Landum, uma pobre mulher também com algumas fragilidades de cabeça. A rapaziada gozava com isso. Mas ninguém o tratava mal e tinha mesmo alguns protectores especiais. O “Sôr António”, meu tio regente da Filarmónica, era para ele o supra-sumo dos homens. Porque lhe alimentava a alma, permitindo-lhe “fazer parte” da Banda, e, muitas vezes, lhe alimentava o corpo, com a sopita e o prato que a tia Judite reservava “para o Abel”.

Outro amigo especial era o Juiz da Comarca, que habitualmente lhe dava a sua ajuda. Um dia, vinha o Abel, rua abaixo, no seu passo saltitante, quando vê, caminhando em sentido contrário, o Juiz, que tinha regressado de férias e subia a rua, acompanhado por um amigo. Porque não contava ainda com o regresso do Juiz, o Abel dirige-se ao magistrado e, na sua língua de trapos, manifesta-lhe a sua surpresa: “Ó Juíza, já viestes? Tás mais a boa, mais a gôda”. O Juiz, bondoso, compreensivo, respondeu-lhe com um “Olá Abel!” e, puxando da carteira, deu-lhe o óbulo habitual. E o Abel, radiante, aos saltinhos, lá vai, certamente a beber um copo na tasca mais próxima, à saúde do seu amigo Juiz.

Porque não tinha onde cair morto, porque era fraco de juízo, o Abel foi para muitos um infeliz. Mas terá ele sido mesmo um infeliz? E quem sabe o que é ser feliz? O Abel também não sabia. Mas talvez o fosse. Era-o pelo menos quando carregava o Bombo às costas e quando a Banda tocava. Certamente que “dele é o Reino dos Céus!”.

Mas deixemos o Abel na paz do Senhor e voltemos à Casa de Música. Durante umas três horas (era sábado, não havia trabalho no dia seguinte) lá assisti a todo o ensaio. A Banda foi desfiando o repertório e ouvi de tudo, desde a “Maria Papoila” e do “Tiro Liro” até à marcha fúnebre da procissão do enterro do Senhor na sexta-feira santa. O menos agradável é que nenhuma peça era tocada do princípio ao fim sem interrupções. De vez em quanto, lá estava o Regente a dar com a batuta umas pancadinhas na estante, para a música parar. Fora o trombone que entrara a destempo, um clarinete que chiara mais alto ou o Teles que atacara no bombo com demasiada força. Feitas as advertências e corrigidas as fífias, a peça voltava ao princípio. Para isso servia o ensaio, que, a meio e quando a coisa estava afinada, parava para uns minutos de descanso. Fazia-se silêncio e, na noite calmosa de verão, ouvia-se o coaxar das rãs, no Lenteiro do Rio, como se a música dos batráquios competisse com a música dos homens. Recuperado o fôlego, recomeçava o ensaio e o cenário repetia-se. Eu gostava de ouvir a Música, ao ar livre, nas festas e nas procissões. Mas ali, entre quatro paredes, com interrupções constantes, não era tão agradável. Só não adormeci, porque o barulho das gaitas, as marretadas no bombo, o batuque da caixa e a estridência dos pratos tal não permitiam. E lá me aguentei umas horas.

Quanto a ensaios, fiquei vacinado e nunca mais voltei. Mas não pude deixar de admirar aqueles homens, que depois de um dia de trabalho, tiravam algumas horas ao seu merecido descanso, para ali estarem, a valorizar-se e a valorizarem a sua Terra, sem qualquer proveito económico, mas apenas por amor à ARTE.

E aqui está como uma simples referência à Casa de Ensaios da Filarmónica desencadeou no meu espírito o desfiar de lembranças que o tempo não apagou. Todos guardamos vivências pessoais que fazem parte do recheio do nosso espírito e que, uma vez evocadas, funcionam como um íman que atrai outras lembranças, que se associam e encadeiam. Preciso é organizá-las e dar-lhes forma, para que se actualizem em pequenos “filmes” da nossa vida, em que sempre somos uma das personagens. É isto que constitui a nossa maior riqueza: o Pensamento, com a nossa capacidade de Recordar.

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