Nazaré Oliveira
FIGURAS TÍPICAS (parte IV) - O cantoneiro e a sua mula
Pelos anos 40/50, uma boa parte das mercadorias chegava a São Pedro do Sul via caminho-de-ferro. Na estação do velho Vale do Vouga, lá estava o chefe Lopes, de bandeirinha debaixo do braço e corneta luzidia na mão, a dirigir a descarga para o cais. Depois, era o transporte para os estabelecimentos comerciais da Vila. Para isso havia dois “industriais de transportes” — dois carroceiros: o ZÉ MOLEIRO, mais conhecido pelo ROSCAS, com a sua carroça puxada por um macho, e o CANTONEIRO, com igual meio de transporte, puxado por uma mula.
Com o Roscas convivi de perto na minha adolescência, porque ele vivia na Negrosa, era meu vizinho e afilhado da minha mãe. Por alguma razão lhe chamavam o Roscas: gostava da pinga.
O Cantoneiro não lhe ficava atrás. A sua sede ainda era maior. Ele, a mula e a carroça eram indissociáveis. Avenida da Estação acima, ao passo ronceiro da alimária, lá ia a carroça carregada e caixas e pacotes, a caminho da Vila. Chicote numa das mãos e rédeas na outra, o Cantoneiro parecia um paxá sentado no trono. E já não precisava de dar muita rédea à mula. Ela já sabia o caminho. Só parava para beber um copo ou entregar a mercadoria. Tinha orgulho na sua Mula. Ela era o seu alter-ego, o seu ganha-pão. É certo que não era famosa como a Mula da Cooperativa, que até tinha honras de música. Nem dava dois coices no telhado, mas dava-os na carroça, para lembrar que estava na hora da ração. No mais, a mula, coitadinha, até era muito paciente e, quando zurrava, era música para os ouvidos do dono.
Um dia, o Cantoneiro teve de sentar o cu no mocho por causa de uma transgressão cometida e relacionada com a mula. Como os homens, também os cavalos, éguas, mulas…, em casos especiais podiam ser requisitados para serviço militar. Para isso, estavam arrolados num cadastro existente nos Serviços de Manutenção Militar que funcionava na Rua Direita, em Viseu. Os donos dos animais tinham de cumprir periodicamente certas formalidades e quem o não fizesse seria punido com multa. O Cantoneiro, porque se esquecesse ou porque não ligava a burocracias (ele nem sabia o significado desta palavra) não cumpriu o que estava estipulado. Entrou em transgressão e recusou pagar a multa. O caso foi a tribunal, para pagamento coercivo.
No dia marcado, o Cantoneiro lá se apresentou a contragosto na sala de audiências. O juiz costumava marcar os julgamentos destes casos para as 5 horas da tarde. Não era hora que se coadunasse com a sede e o estômago do Cantoneiro. Era demasiado tarde e já ia com os copos. Vasilha cheia!
Analisado o caso, o juiz ditou para o escrivão, que era o Dr. Raposo:
— “Provou-se a transgressão…” — Ia para continuar, mas o Cantoneiro rapidamente interpelou-o:
— Provou-se a transgressão? Provou-se mas foi uma porra. Não pago nada!
Levantou-se do banco dos réus e saiu porta fora, não sem antes se dispensar de mais um argumento de peso: o gesto bem português que imortalizou Bordalo Pinheiro.
O magistrado ficou perplexo e perante um dilema: mandá-lo para a cadeia ou deixá-lo ir? Como era um homem tolerante e de bom senso, reflectiu e deixou-o ir.
Julgarão alguns que isto é ficção. Mas foi verdade. Contou-me o episódio meu irmão, funcionário do tribunal que assistiu à cena.
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