Nazaré Oliveira

Figuras Típicas (parte III) - O João do Rodrigo

Muita gente terá ainda na retina a imagem do João do Rodrigo. Com a farta bigodaça de guias retorcidas, aspecto sólido, corado, bem nutrido, o colete de cabedal e grande chapéu de alta copa e abas largas, toda a sua figura fazia lembrar um rancheiro fanfarrão dos filmes do faroeste. Só lhe faltava o cinturão com as balas e o coldre com as pistolas. Comunicativo, palrador alegre, de gargalhada espontânea, quase septuagenário quando o conheci, nem os anos lhe fizeram perder a boa disposição. Quando puxavam por ele, tinha sempre uma chalaça ou uma boa piada, com aquela franqueza rude que o levava a dizer às viúvas bem conservadas: “a senhora ainda está muito nova, não pode ficar assim”. Foi um dito que ficou. E ninguém lhe levava a mal. Ele até o dizia por bem. Apenas queria ser amável e consolador. Figura simpática, o João Rodrigo!

Era a época em que ainda se recorria ao carro de bois para os transportes mais variados. O João do Rodrigo tinha o seu carro. Fazia carretos. Ele, o carro e os bois formavam uma trindade, de tal modo se identificavam. Os três eram como se fossem um.

Um dia, ia ele à frente do carro ao compasso pachorrento dos ruminantes, de aguilhada ao ombro, fumando o seu paivante, quando vê aproximar-se em sentido contrário o Dr. Ferreira. E aqui entra a segunda personagem da história. O Dr. Ferreira de Almeida, conhecido médico local e director clínico das Termas, era, como diria Aristóteles, um “animal político”. Capataz da República em São Pedro do Sul, a política estava-lhe no sangue. Era um jornalista de pena afiada e um polemista de respeito. À época (1915), era ele Presidente da Câmara. E aqui é que, para o João Rodrigo, a porca torcia o rabo. É que o carro, de eixo de madeira, por falta de sabão, fazia um chiadeira dos diabos. E diziam as Posturas Municipais, em placas afixadas nas esquinas: “É proibido seguir com os carros a chiar”. A transgressão era punida com multa.

O João do Rodrigo fica preocupado. Raio de azar! Logo havia de aparecer o Presidente da Câmara, pessoa por quem tinha a maior consideração mas que, naquele momento, melhor fora que estivesse nas Termas a mandar pôr o cabedal de molho aos reumáticos. E o João do Rodrigo prepara-se para fazer uma finta ao Dr. Ferreira. Eram correligionários políticos, sempre votara no seu partido e, como tinha lábia e patuá de sobra, com meia dúzia de salamaleques e cortesias, falar-lhe-ia de política e os ouvidos do Dr. Ferreira haviam de ser mais sensíveis ao fadinho republicano do que ao chiadouro do carro. E quando o Dr. Ferreira chega junto de si, o João do Rodrigo manhosamente desbarreta-se, dobra a espinha, reverente, mesureiro, e, pondo nas palavras as unturas que faltavam no eixo do carro, dispara-lhe o cumprimento: “Como está Vossa Excelência passou bem, Senhor Doutor?” Ia preparar-se para continuar a fita, mas o Dr. Ferreira, que lhe adivinhara as manhas, cortou a enxurrada de cumprimentos e, com um sorriso de fina benevolência:

“Anda lá, João! Anda lá, João! Menos cumprimentos a mais sabão ao carro!”

Nada mais disseram. Tinham-se compreendido mutuamente.

O Dr. Ferreira continuou a sua rota, provavelmente a cumprir a sua missão de João Semana, enquanto o João do Rodrigo enfiava o duplo barrete: a reprimenda e o seu largo sombreiro. Picou os bois e continuou o seu caminho, a assobiar a Laurindinha e a retorcer as guias do bigode, para levantar o moral. Como se o seu moral estivesse nas pontas da bigodaça!

(Continua)

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