Nazaré Oliveira
FIGURAS TÍPICAS (I)

Nas minhas crónicas anteriores, a propósito de vários temas, já tracei o perfil de algumas figuras típicas: o Senhor Vigário, o Abel, o Padre Carola, o Nascimento da flauta, o Manuel da Horta, a parteira Micas Gralheira, a mulher de virtude Amélia Farrapeira, o António Porrinhas dos entremezes, o Fernando Canguiço da Sopa dos Pobres…
Mas outras figuras típicas estarão ainda na retina das pessoas mais velhas, porque são clichés de um tempo e de um espaço físico e social sampedrense:
O CALOMBRO
Saído das Moitinhas, Rua Direita abaixo, figura grotesca a arrastar os pés pela calçada, curvando-se aqui e além a apanhar beatas, rosnava o seu caótico monólogo. Era o CALOMBRO. João, de baptismo, ninguém sabia de onde lhe vinha o Calombro. Nos pés, uns tamancos ou umas botas cambadas; embrulhado num velho sobretudo se estava frio, ou camisa esbarrigada se estava calor, melena desgrenhada, pencudo e anguloso de face, a sua cara tinha o ar de máscara de Carnaval. Quando o monco o incomodava, tapava uma narina, uma fungadela mais forte e disparava a ranheta pelo outro buraco. Repetida a operação na outra narina, entrava em função o trapo que lhe servia de lenço ou, se não o tinha, passava a manga do casaco ou da camisa pela venta e acabava a operação de limpeza.
Pelava-se por vinho e por cachaça e, se adregava encontrar quem lhe pagasse um copo, escancarava-se num esgar que pretendia ser um sorriso, mas não passava de uma careta. Cigarro que lhe oferecessem era uma festa. Para quem estava habituado a fumar beatas, um cigarro de cu aberto era um luxo. Consolado, chupava com sofreguidão o paivante e a sua mente conturbada punha cá fora o eterno sermão, algaraviada desconexa e incoerente, na sua voz roufenha. As palavras saíam-lhe da boca aos tropeções, sibiladas pelas clareiras dos dentes amarelos da nicotina, e o palavrão era o que melhor se entendia — mas já não fazia mossa nos ouvidos da mais recatada donzela. Farrapos de recordações vindas do fundo do tempo! Resquícios de sonho! Aflorações de conteúdos latentes que nenhum psicanalista conseguiria penetrar!
Como toda a gente, havia de ter uma história. Quem a conheceria? Que insondáveis mistérios se ocultariam nas profundezas daquela mente perturbada? No turbilhão que havia dentro de si, que imagens e ideias povoariam aquele espírito?
A sua insanidade mental não lhe permitia outro trabalho que não fosse serrar e rachar lenha nalgumas casas da Vila, o que lhe rendia uns tostões, o caldo, a pinguita e a bucha. Mas, mais do que o caldo, gostava de uma sopitas de vinho para dar força. Passava diariamente pelo Antoninho Mamouros, a escorropichar os copos.
Se o rapazio o desafiava ou vaiava, cerrava os punhos e rouquejava ameaças, procurando sobre quem descarregar a sua raiva que não era de muita duração. E continuava, resmungando e gesticulando, pelas ruas da Vila.
Dizia-se que nas suas veias corria uma mistura de sangue azul com sangue plebeu. Não sei. O que de certeza corria era álcool.
Foi envelhecendo. Arrastando os pés como se arrastasse a vida, fígados minados pelo vinho e pela cachaça, bofes queimados pelo tabaco, os seus dias chegaram ao fim. Repousa no Cemitério, a cuja entrada tantas vezes pregou o seu desconchavado sermão.
O JOAQUIM LATOEIRO — QUINATO — RONCA
Os três nomes por que era conhecido. LATOEIRO, da profissão que tinha exercido. QUINATO, nunca eu soube de onde lhe vinha a alcunha. RONCA, sabia-o até por experiência própria. Era o nome mais expressivo pelo qual a rapaziada o designava, porque, quando falava com o seu vozeirão e cara de poucos amigos, era para ralhar, melhor dito, para roncar, na sua função de fiscal do Cine-Teatro. Era ele que tudo controlava, com olho de lince e malha apertada.
Por meados dos anos 40, grande número de rapazes e raparigas da minha geração foi forçado a conviver com o Ronca. Na nossa adolescência, a Fernandinha Miranda, uma jovem senhora e exímia pianista sampedrense, ensaiava e levava à cena espectáculos juvenis (sobre ele hei-de falar mais detalhadamente). Durante semanas e às vezes meses, os ensaios faziam-se no Cine-Teatro. E tínhamos que gramar o Ronca, a vigiar o irrequieto bando de rapazes e raparigas: “Não ponham os pés nas cadeiras da plateia, não toquem nos cenários, não entrem nos camarins, não sujem as instalações sanitárias”. De vez em quando, de mistura com o som das teclas do piano que a Fernandinha dedilhava com mestria, o nosso ouvido era agredido pelo som da trombeta nasal dedilhada pelo Ronca, a assoar-se ao lenço tabaqueiro encardido. Se algum de nós pisava o risco, o Ronca mandava dois berros que até a Fernandinha e o músico Álvaro Duarte se encolhiam.
Ao domingo havia cinema. O Quinato era o primeiro a entrar e o último a sair. Com antecedência cronométrica, lá vinha ele encafuado no seu casacão, passada ronceira de paquiderme, a subir a Avenida do Teatro. Chegado à porta, rosnava um lacónico “boa noite” às pessoas que já estavam à espera, metia a mão nos abismos interiores do casaco, pescava o molho de chaves, abria as portas, entrava, acendia as luzes — mas ainda ninguém podia entrar, excepto o piquete dos bombeiros. Fazer esperar era para o seu ego uma maneira de mostrar a autoridade. Acabados os preliminares, disparava a ordem: “Podem entrar”. Este cenário repetia-se com uma regularidade tão grande como o movimento da Terra. Fiscalizava tudo: a bilheteira, os porteiros e, sobretudo, deitava o olho para os galinheiros, de bilhetes a quinze tostões, frequentados por gente mais nova e às vezes barulhenta que nas coboiadas exteriorizava o entusiasmo com palmas e pateadas, quando Gary Cooper corria os vilões da fita à bala e ao murro. O Ronca ficava fulo. Tudo fiscalizava com inexcedível zelo. Dir-se-ia que no seu corpo se anichara a alma de algum inquisidor. Por isso o António Zé e o Chico Barros, empresários do Cinema, confiavam nele.
Era um republicano da velha-guarda que, na juventude, tinha vivido a revolução bolchevique, a ponto de registar com o nome de Lenine o neto que criou e vivia com ele, que toda a gente tratava por Lino. Pelos anos 40, o Lino, já homem feito, era o superlativo artista a manobrar a velha máquina de projecção dos filmes que nos deliciavam, desde as valentes coboiadas às fitas de puxar à lágrima e às cómicas do Totó e do Bucha e Estica. O Quinato e o Lino eram as duas peças fundamentais que faziam funcionar a geringonça cinematográfica, única diversão da Terra, antes da televisão.
O Quinato era um homem com variadas aptidões. Um homem dos sete ofícios. Uma das suas funções era a manutenção do Relógio da Praça, na Torre de Santo António. Geralmente, pouco antes da meia-noite, atravessava a Praça, subia as escadas e, quando da torre escorriam as doze badaladas, dava corda ao relógio que trazia sempre certo como um malho. Meia noite, hora dos lobisomens! E isto lhe valeu mais uma alcunha: o Lobisomem.
Nas horas de ócio, parava pelo Café Edgard. Ali, como não havia lugar para dar ordens, despia a sua pele de Ronca e passava a ser o Quinato, mais urbano e comunicativo. Gostava de politicar com os amigos e mostrar sabença. Municiado com um arsenal de bombas fraseológicas, catadas da leitura mal assimilada de O Capital, arrotava meia dúzia de chavões marxistas que os parceiros de cavaqueira tinham dificuldade em mastigar. Tolerava os homens de farda, mas odiava os homens de sotaina. Quando alguém contava uma história ou relatava um facto, a sua reacção era sempre: “Não se vá sem resposta, que eu já lhe conto”. E lá vinha a réplica.
Algumas vezes cheguei a perguntar-me se o Quinato / Ronca, para além do seu neto Lenine / Lino, gostava de mais alguém. Ora o Edgard tinha um gato felpudo de estimação que — vá lá saber-se porquê! — se afeiçoou ao Quinato e, mal ele chegava, ia aninhar-se nos seus joelhos. O Edgard, que era fotógrafo distinto, apanhou-os numa bela fotografia que, ampliada, passou a estar exposta no Café, com a legenda “O QUINATO AFAGANDO O GATO”. Rimava e era verdade. Afinal o Quinato gostava de alguma coisa: gostava do gato! Pena que aquela fotografia se tenha perdido! Seria uma bela ilustração para este escrito.
Quando recordo o Quinato, não posso deixar de recordar Estaline, de quem parecia um sósia, tal era a semelhança física entre os dois. Pelo menos dois traços fundamentais tinham em comum: as ideias e os bigodes, ainda que no Quinato fossem mais compridos os bigodes do que as ideias.
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