Nazaré Oliveira

A Rua Direita nos anos 40 / 50

Fotografia de Simão Almeida (FOTOARTE)

Há duas décadas, na Tribuna de Lafões, escrevi sobre a Rua Direita. Muitos anos se passaram sem que voltasse a calcar as suas pedras, que tantas vezes pisei na minha mocidade. Ou não morasse lá a minha namorada!

Como Alexandre Dumas na história dos Três Mosqueteiros, eu poderia dar a esta crónica, agora reformulada, o título Vinte Anos Depois. Como me acontece quando trilho caminhos de juventude, o meu espírito envereda por rumos do passado. Na minha mente, cruzam-se cenários que resistiram à erosão do tempo, com impressões e emoções vividas, personagens, figuras desaparecidas, actividades que se extinguiram. E vejo-me a descer a Rua Direita nos anos 40/50.

Rua Direita, que de direita só tem o nome! Várias terras têm uma Rua Direita que geralmente é torta. Porquê? Muitas vilas e cidades medievais tinham uma rua principal que atravessava a povoação. Por isso lhe chamavam “Rua Directa”. Por corruptela, deu “Rua Direita”.

Mas voltemos à nossa RUA DIREITA. Ali se misturava o pequeno comércio com variados ofícios. Ao cimo, na embocadura da rua, o mestre sapateiro JOAQUIM GRÃO-DE-BICO, miudinho, físico de Asterix (sem poção mágica), combatente da Grande Guerra, que arranhava o francês misturado com brasileirismos, vestígio da passagem pelo Brasil.

Logo a seguir, no rés-do-chão da casa da D. Aruquinhas, mãe do Manuel Borges, era a LOJA DO CARECA, que vendia de tudo, desde mercearias, pregos, fechaduras, dobradiças, ratoeiras e toda a qualidade de ferros.

Em frente, abriu mais tarde uma loja de comes e bebes cujo dono, para exprimir admiração ou aflição por qualquer facto, repetia o estribilho “Ai Nosso Senhor!”. Como andava sempre com Nosso Senhor na boca, a tasca passou a ser O NOSSO SENHOR.

A seguir, era o ZÉ CELEIRO, onde se podiam comprar as melhores botas de atanado e toda a qualidade de cabedais.

Anexo, era o FREITAS, com chapéus e boinas para todos os gostos e idades. A aprender o ofício do pai, lá estava o Venceslau — o Xalau, meu colega de escola e um dos alunos mais inteligentes — que ficou pela 4ª classe porque em S. Pedro do Sul ainda não havia colégio e teve de ficar a vender chapéus. Mas deu provas das suas capacidades em vários sectores da vida sampedrense, nomeadamente como Presidente da Junta de Freguesia.

Em frente, uma mistura de tasca com loja de funileiro. Era o FLORIANO BATATA, que alternava a venda de copos de vinho com o bater da lata que havia de transformar em almotolias, funis, lampiões, regadores e e outros utensílios que exibia dependurados em cordas. O Floriano era um tipo patusco de quem se contavam algumas anedotas: um dia os amigos levaram-no ao Porto, onde ele teve vários azares: num estabelecimento comercial, inadvertidamente deu um encontrão num manquem de modas; atrapalhado, desbarretou-se e disse delicadamente “desculpe, minha senhora”. Na porta giratória de um restaurante, os amigos, a certa altura, deram por por falta dele; voltaram atrás e encontram-no dentro do restaurante, a barafustar com o raio da porta que andava às voltas e o metia sempre lá dentro; e muita sorte teve ele por não haver escadas rolantes! Estas e outras peripécias, contadas na terra, fizeram dele objecto de gozo.

Continuando a descer a rua, umas escadinhas davam acesso à CASA DA FAMÍLIA CRUZ, que passou a ser também a casa do José Fernandes, que entrou nessa família pelo casamento. Do José Fernandes, funcionário competentíssimo, guardo uma grata recordação porque, pelos meus doze anos, com ele pratiquei e aprendi muito, na Conservatória do Registo Predial. Naquela casa se vieram a instalar, mais tarde, os estúdios da FOTO ARTE que têm desenvolvido um importante papel na divulgação das actividade e dos valores paisagístico e arquitectónico do Concelho.

Um pouco mais abaixo, era a PEIXARIA DA CRISTINA e, em frente, as MANAS CHÃS, onde se podiam comprar vidros, tintas e os mais variados artigos de louça.

No topo da Avenida do Teatro, a Rua Direita tinha a mercearia do António Zé que passou a ser a LOJA DO RIQUINHO, o “supermercado” da época. Ali se vendia tudo o que era necessário para satisfazer a cozinheira mais exigente. A Loja do Riquinho, além do maim, era o locar onde as donas de casa sabiam as novidades: quem estava doente, quem se ia casar, quem se tinha zangado com o namoro, quem tinha comprado ou vendido casa, quem disse mal de quem…

Antes do Riquinho, era o JÚLIO RELOJOEIRO e, para baixo, o MANUEL BRITO, alfaiate, manejando a tesoura e assentando as costuras ao freguês, enquanto sus muchachos esgrimiam as agulhas ao mesmo tempo que discutiam qual das duas corporações de bombeiros chegava primeiro aos fogos e esguichava mais alto; ficavam sempre a ganhar os Bombeiros Novos, porque o patrão era o 2º Comandante (o 1º era o Bombeiro-Mor José Nazaré).

Na “indústria” da Rua Direita, seguiam-se o marceneiro e o tanoeiro. O EDUARDO PRETO – que não era preto mas mulato — considerava-se a fina flor da marcenaria. Perfeccionista, janota, com o seu patuá de bem-falante, manejava a “boneca” com que puxava o verniz aos móveis, que ficavam a brilhar como um espelho.

Ao lado, o TANOEIRO, de cujo nome já não me lembro, encaixava as aduelas nas pipas.

Voltemos agora um pouco atrás e a um plano mais alto: por cima do Riquinho e do Manuel Brito, era a ESCOLA FEMININA, onde a D. Aida, a D. Maria do Céu, a D. Rosa e outras professoras se esmeravam a ensinar as meninas da Vila a soletrar a Cartilha Maternal, a cantar a tabuada e a fazer as contas, enquanto a Armindinha velava pela disciplina e limpeza da Escola. Ali se realizavam os exames dos alunos das escolas masculina e feminina. Ali fiz o meu exame da 4ª classe.

A fazer esquina com a Avenida do Teatro era o MAMOUROS, onde o senhor Antoninho dava ao Calombro os copos a escorropichar. (O Calombro era uma figura típica que me há-de merecer uma crónica futura.)

Sempre me causou impressão como na pequena LOJA DO QUINTELA cabia tanta coisa, desde o bom cheviote à popular chita, passando pelos cotins, flanelas, algodões e retroses. Por ali passei muitas horas com o Manuel Quintela (Filho), meu companheiro de quarto no Colégio da Via Sacra, em tentativas baldadas de o fazer estudar, até que ele mandou o Colégio à fava e se agarrou ao metro a medir fazendas e, depois, como tinha faro para o negócio, se meteu noutras cavalarias. E talvez tenha tido mais proventos do que eu, que passei a vida agarrado aos livros. Mas cada um é para o que nasce!

Em frente, era a casa das Gouveiras, SEDE DO SAMPEDRENSE, que à noite se animava com a gente nova, na disputa de renhidas partidas de pingue-pongue.

Do outro lado, a PADARIA DA HELENA CHÃ, onde se vendia a melhor broa que algum dia comi.

Na sua loja, o ILÍDIO, que tocava na Banda, consertava e vendia relógios e discos de gramofone.

Sapateiros não faltavam. Desde o já referido GRÃO-DE-BICO ao JOÃO COSTA, ao VASCO BADALO e, ao fundo das escadinhas que levam às Moitinhas, o HILÁRIO, que  não cantava o fado nem dedilhava a guitarra, mas dedilhava a sovela e batia a sola como ninguém.

E se o Hilário batia à sola, bem perto o JOÃO LATOEIRO batia a lata. Parecia um despique de bateria dos conjuntos modernos!

Mais abaixo era a LOJA DO DIONÍSIO e, em frente, lá estava o imponente e maciço PALÁCIO DO MARQUÊS, onde em tempos se albergaram cabeças coroadas. No seu flanco, a FARMÁCIA DIAS, onde pontificava o ZÉ DA FARMÁCIA, trave mestra da botica, a ferver as seringas e as agulhas com que picava S. Pedro do Sul; quem tivesse furúnculos não ficava por espremer até ao tutano— para não falar nos males secretos que requeriam a sua competente intervenção. Dirigia a Farmácia ALBERTO DIAS (PAI) que, entre outras coisas, era conhecido pela regularidade dos seus intestinos, tão certos como o melhor cronómetro: todas as tardes, quando o relógio da vizinha Torre de Santo António batia as quatro badaladas, Alberto Dias saía da Farmácia, descia a Rua Direita, atravessava o Adro com o seu porte de faraó egípcio, descia a rampa e enfiava na porta do Clube; despejada a tripa, mais aliviado, fazia o percurso inverso e regressava à Farmácia.

Cheguei ao fim da Rua. À CAPELA DE SANTO ANTÓNIO, barroca, com entrada para a Praça.

RUA DIREITA! RUA DE TODAS AS PROCISSÕES: A Procissão do Senhor dos Passos que ia de visita aos judeus da Ponte; a fúnebre Procissão do Enterro do Senhor, na Sexta-feira Santa, com as suas tochas a brilhar na escuridão da noite, a velar o esquife com o Senhor morto; a Procissão da Ressurreição, com as colgaduras às janelas; a do Corpo de Deus, a que a presença da Câmara Municipal com a sua bandeira dava uma solenidade oficial; e a fechar o ano, a Procissão de Nossa Senhora da Conceição que tinha o seu quê de chique, com as senhoras a exibirem as toilettes, algumas vezes expressamente feitas para aquele dia. Pequenas vaidades que Nossa Senhora perdoava, dada a fé com que era venerada e o empenho que a Reitora e as Mordomas punham na festa, onde não faltavam passadeiras de flores que as devotas da Rua faziam, para a Senhora passar.

Chegado ao fim da Rua Direita, topei com o Santo António que me fez voltar ao presente. Milagre seu, esta minha incursão pelo passado!

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