Nazaré Oliveira

JOSÉ NAZARÉ

Era para toda a gente o ZÉ NAZARÉ. Para mim o TIO ZÉ. Porque era irmão de minha mãe. Iniciou-se na arte de serralharia com seu pai e meu futuro avô. Passou depois para a mecânica de automóveis, então incipiente. Em plena juventude, veio a Grande Guerra e ele foi mobilizado para fazer parte do batalhão enviado por Portugal. Lá andou pela França, na guerra das trincheiras e participou na batalha de La Lys cujo centenário se celebrou no passado dia 9 de Abril. Valente, não hesitou em dar o corpo às balas para, debaixo da metralha alemã, salvar um médico militar de Aveiro, que para sempre lhe ficou grato e posteriormente visitava muitas vezes.

Regressado a Portugal, estabeleceu-se por conta própria com uma pequena oficina de mecânica de automóveis, no Bairro da Negrosa. Foi aí que um acontecimento trágico lhe mudou a vida: tinha um filho, o Germano, que aos 12 anos já ia trabalhando com ele na oficina. Um dia, o Germano, enquanto o pai almoçava, meteu a cabeça debaixo de um carro e começou a martelar, prosseguindo a reparação. Eu, miúdo ainda, andava a brincar junto do carro. A certa altura, uma martelada em falso no macaco faz cair o carro que lhe fura a cabeça. Morte imediata. Só eu presenciei a tragédia e dei o alarme. E, por coincidência, era um Austin do meu pai. É um drama da minha infância que muito me traumatizou e jamais poderei esquecer.

O Tio Zé, que já tinha sofrido os efeitos dos gases da guerra, mais se desequilibrou. Tinha outra filha, mas era como se não tivesse: logo após o nascimento deram-na a criar aos padrinhos, a D. Eurídice e o Aires, conhecido ourives, que não tinham filhos; fizeram dela sua filha e os pais perderam-na para sempre.

José Nazaré era um homem de acção. A dor abalou-o mas não o derrubou. Nada sabia de psicanálises mas, inconscientemente, sublimou as suas tendências e energias naquilo que já era a grande paixão da sua vida: os BOMBEIROS. Já em 1925, um grupo de dissidentes dos Bombeiros Voluntários — José Nazaré Júnior, José Rodrigues Pereira Nazaré (seu pai). João Jorge de Lima, Manuel Viegas de Carvalho e Antónia Teles Júnior — havia fundado uma nova corporação de bombeiros — o CORPO VOLUNTÁRIO DE SALVAÇÃO PÚBLICA.

José Nazaré era o mais novo, o mais ousado, o que tinha mais garra — o mais bombeiro. Desde logo se tornou a alma da corporação. Era ele que tudo aglutinava. Todos os outros foram desaparecendo. Só ele ficou. Foi primeiro comandante durante décadas, até que a idade o obrigou a passar o testemunho, ficando comandante honorário. Quando nasci, já ele era comandante há muitos anos e sempre assim o conheci. Quando me tornei adulto, não descansou enquanto não me meteu nos corpos gerentes da Corporação. Em alguns domingos, o comandante Lopes da Costa, dos Voluntários de Viseu e pessoa das minhas relações, vinha a S. Pedro dar formação aos bombeiros. O Tio Zé convidava-o para almoçar em sua casa e lá ia eu também. A Tia Marta torcia o nariz, mas lá conseguia encaixar dois sorrisos para fazer as honras da casa. E eu, pacientemente, lá gramava mais uma lição sobre bombeiros, fogos, motobombas, mangueiras e agulhetas.

Para com ele tenho uma dívida por uma falta que involuntariamente cometi: um dia li no jornal que lhe fora prestada uma homenagem. Eu não estive presente, porque já não vivia em São Pedro do Sul e não li a notícia prévia; sendo eu familiar e tendo em conta que, em tempos anteriores, tinha feito parte dos corpos gerentes da Corporação, era de esperar que a Direcção me tivesse dado conhecimento (já não digo enviado convite, que tal não era preciso); expliquei-lhe o motivo da minha falta, que ele compreendeu. Ficou o desgosto!

Tudo o que dizia respeito aos Bombeiros de Salvação Pública era com o comandante Zé Nazaré. Deixou a pequena oficina da Negrosa, para si de trágicas recordações, e montou a Auto Reparadora Lafonense, entre a Negrosa e a Vila. Foi ali que transformou uma camioneta num pronto-socorro. Ali se fazia a manutenção das motobombas. E tudo isto sem cobrar um tostão.

A profissão foi outra das suas paixões. Dotado de admirável intuição, numa época em que ainda não havia electrónicas, o seu ouvido apurado escutava o trabalhar do motor como um médico auscultava o coração. E não precisava de estetoscópio para fazer o diagnóstico e aplicar a terapêutica. Com ele aprenderam muitas gerações de jovens a arte da mecânica. Para todos, clientes e empregados, ali era o MESTRE ZÉ. Por lá andei também, a seu pedido, não para aprender a arte mas para o ajudar a endireitar a escrita que era tudo menos isso. Ainda consegui que cobrasse alguns calotes que por lá andavam à espera de esquecimento.

A vida sentimental de José Nazaré foi agitada. Não foi feliz no casamento. Culpa de quem? Não sei e nem me compete julgar. Fiquemo-nos pelos factos: desde cedo, enveredou por uma relação extraconjugal que durou até à morte e foi uma das coisas mais importantes da sua vida. Ainda eu andava de calções, já ouvia a Tia Marta falar da Maria Piçuda, da Ponte. É evidente que a Tia Marta, como esposa traída, dizia as últimas da Maria Piçuda. Só mais tarde a conheci e compreendi o que ela significava na vida do Tio Zé. Na Ponte, era uma pessoa benquista e respeitada. Para as crianças, que gostavam dela, era a Tia Maria Piçuda. O epíteto tinha perdido a sua conotação pejorativa e ela própria o aceitou, porque percebeu que não queriam ofendê-la mas manifestar-lhe amizade e carinho.

Depois de ficar viúvo, o Tio Zé deixou a casa na Negrosa e passou a residir na Ponte com a sua companheira de tantos anos. Acabou por casar com ela. E foi a sua sorte! Ela sempre o respeitou e tratou-o com carinho até ao fim. Um dia fui visitá-lo, nos últimos tempos da sua vida. A D. Maria abriu-me a porta e disse para ele: “Está aqui o seu sobrinho”. Estava comodamente instalado à lareira. Conversámos e, nas suas palavras e nos olhos, senti perpassar um sentimento: a saudade por já não poder comandar os Bombeiros. Tive ocasião de apreciar o carinho com que era tratado, na sua condição de limitado pela idade. Ele próprio mo manifestou, nos momentos em que a esposa, delicadamente, nos deixou sozinhos para falarmos à vontade. Não pude deixar de meditar na natureza daquele afecto: Amor de mulher? Amizade fraternal? Carinho maternal? Era um pouco de tudo isso! De qualquer modo, uma coisa era certa: era amor e ternura. Acompanhou-o com dedicação até ao fim.

José Nazaré foi sepultado com a sua farda de comandante, na mesma campa onde repousava o filho, também sepultado com a farda de bombeiro, que já usava aos doze anos, quando a morte o levou. Fazer do filho um bombeiro foi um sonho que o fatalidade o impediu de concretizar.

Pudesse o Comandante Nazaré, quando desceu à terra, ter visto o brilho dos machados e ouvido o toque dos clarins das várias Corporações de Bombeiros que o saudaram!

Esta a história de um homem que VIVEU A SUA VIDA ENTRE FOGOS: desde o  FOGO DAS TRINCHEIRAS ao FOGO DOS INCÊNDIOS!

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