Nazaré Oliveira

Um convívio / patuscada de um grupo de amigos sampedrenses (parte I de III)

A fotografia que hoje se publica tem uma história: foi-me enviada do Brasil, em 1997, pela D. Julieta da Silva Guimarães, sampedrense há muito radicada no Rio de Janeiro. Sensível às evocações que então vinha publicando na Tribuna de Lafões, a saudade da sua terra levou-a a enviar-me esta e outras fotografias, nomeadamente de um entremez levado a efeito por seu tio António Porrinhas, que recentemente evoquei quando escrevi sobre o Bairro da Negrosa.

Entretanto, a D. Julieta faleceu e a fotografia lá ficou no pó de uma gaveta à espera da oportunidade para vir à luz do dia. E veio em 2016, no livro Regresso Imaginário do meu amigo Dr. Guimarães Rocha, a quem a cedi. Porque todas as personagens são, a seu modo, representativas de um espaço e de um tempo (meados do século XX), entendo que cada uma merece que aqui deixe um breve perfil.

DE PÉ E DA ESQUERDA PARA A DIREITA:

ANTÓNIO SILVA: vulgarmente conhecido por ANTONINHO MAMOUROS. O diminutivo nada tinha a ver com a estatura, porque era um homem alto e desempenado. Juntamente com Adelino Pereira e Dionísio Vila Maior, duas figuras típicas sampedrenses, formavam a conceituada Firma Adelino e Silva que desenvolvia as suas actividades de comércio de mercearias por grosso, distribuidora e reabastecedora das mercearias do concelho e não só. Era o Centro Comercial, na Rua Serpa Pinto, por baixo da Pensão Comércio, também conhecida pela Pensão dos Custódios, os dois irmãos Martins Soares que para sempre ficaram Os “Custódio”, por serem filhos do Custódio da Loja Nova, a Loja dos Carecas.

Naquela época, para além da Caixa Geral de Depósitos, não havia bancos em S. Pedro do Sul. António Silva tinha nas mãos a actividade bancária e seguradora, como correspondente de Bancos e Companhias de Seguros. Para essas actividades tinha como seu imediato o jovem António Carvalhais, que ele adestrou nos meandros da Banca. Quando os via juntos, o António Silva muito alto e o Carvalhais atarracado, sempre me faziam lembrar um sinal gráfico: o ponto de exclamação.

António Silva fez parte dos corpos gerentes da Misericórdia. Era homem de muitas relações que gostava de reunir os seus amigos na sua Quinta do Fojo, onde havia sempre bons petiscos e bom vinho, lá para os lados de Oliveira de Frades.

  1. ANTÓNIO TAVARES: médico com consultório na Praça da República. Nos anos 30 e 40, os médicos da terra eram o Dr. Ferreira de Almeida, o Dr. Aloísio e o Dr. Roque Machado. Morreu o Dr. Ferreira e montou consultório o Dr. Tavares, logo designado por “o médico novo”, porque era novo na terra, na idade e na profissão. Sempre de cabeça ao léu, fosse verão ou inverno, alto, muito direito, vertical, como se tivesse engolido o fio-de-prumo. Uma das imagens que dele guardo é a das suas intermináveis partidas de xadrez, no Café Edgard, com o Luciano, ajudante de notário.

MANUEL BORGES: Tesoureiro da Caixa Geral de Depósitos e Comandante dos Bombeiros Voluntários. Tenho na minha retina a sua imagem de Comandante fardado, com o peito constelado de luzentes medalhas que ostentava com garbo. E a sua imagem de caçador, com o blusão de cabedal, botas cardadas, caçadeira a tiracolo e cinturão de cartucheira com as perdizes pendentes. Sem descurar as suas funções, nos tempos da guerra soube aproveitar o el dorado do volfrâmio, o que lhe rendeu bons proventos.

Da família Borges tenho gratas recordações pessoais, porque, na minha juventude, frequentei com assiduidade a sua casa. Inicialmente, quando moravam na Companhia, no prédio onde, dos anos 20 para os 30, funcionara o Hotel Rodrigues, propriedade dos pais da D. Alda, esposa do Manuel Borges. Mas tarde, na vivenda que construiu na Quinta do Carvalhedo, fronteira à Quinta do Olho do Cu. A minha presença na sua casa começou com a minha amizade com o seu malogrado filho Manuel Pedro, sensivelmente da minha idade e que a morte tão cedo levou. Alargou-se depois a outros membros da família, que primava por bem receber os amigos. Recordo em especial a filha Carlota — para toda a gente, a Tita —, um pouco mais velha do que nós, um grupo de jovens rapazes e raparigas, que recebia ao fim de semana para umas tardes dançantes na sua casa, onde havia um pick-up com discos variados, desde os tangos às valsas. Foi aí que que começou a florir o grande amor da minha vida, aquela que haveria de ser minha mulher e mãe das minhas filhas. A Tita foi verdadeiramente a madrinha do nosso namoro. Perdoe-se-me este resvalar para sentimentos pessoais, mas eu não poderia passar sem deixar aqui uma palavra de saudade para a minha mulher e para a Tita Borges. Uma e outra bem cedo nos deixaram. Certamente, lá estarão juntas no Além, como juntas estiveram na Vida.

JOSÉ GAMALIEL: Em fins dos anos 40, chegou a São Pedro do Sul um alentejano que haveria de ficar para sempre e tornar-se tão sampedrense como os melhores. Era um Regente Agrícola recém-formado que vinha desempenhar funções na Junta Nacional dos Vinhos aqui sediada. Era um homem alto, de porte atlético, boa figura, a respirar juventude e força, extrovertido, simpatia irradiante e espontânea, comunicativo, de gargalhada franca. Dele se podia dizer “em cada esquina um amigo”. Com o seu sotaque alentejano (que nunca perdeu), o Gamaliel conquistava toda a gente com o seu charme, especialmente o elemento feminino. Era aquilo que as mulheres costumam designar por “um belo homem”. Tanto poderia ter sido um regente agrícola como um atleta olímpico ou um galã dos filmes de Hollywood. Mas era Regente Agrícola e a sua função era percorrer toda a região de Lafões em missão de fiscalização e apoio aos agricultores vinhateiros.

A chegada do Gamaliel veio sacudir o coração das jovens casadoiras sampedrenses. E o mais curioso é que a juventude masculina também simpatizava com ele, talvez inconscientemente grata por ele ter vindo acordar corações adormecidos pela rotina e pacatez da Vila.

No seu impecável fato-macaco branco de trabalho (veja-se a fotografia), colado à sua mota de brilhantes cromados, percorria toda a região, carregando no acelerador. E as acelerações da mota faziam acelerar muitos corações. O Gamaliel sabia-o e andava à cata de saber qual deles estava em sintonia com a aceleração do seu coração e da mota. E descobriu que era o coração da Gina Borges. Casaram e, como diziam os contos das princesas encantadas, “foram felizes para sempre”. As outras conformaram-se e assestaram baterias noutras direcções. E o Gamaliel, integrado na família Borges, ganhou a maturidade de um chefe de família e pai de dois filhos que vi crescer: a Gina, que veio a ser professora, e o Zé, que é hoje o Coronel José Gamaliel.

A minha saída de S. Pedro do Sul afastou-me do contacto com o Gamaliel, que foi meu amigo. Voltámos a encontrar-nos quando, mais tarde, já chefe dos seus serviços, me pediu um estudo sobre a Região de Lafões, para publicação num livro da Junta Nacional dos Vinhos.

(Continua)

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