Nazaré Oliveira

A PRAÇA (I)

A PRAÇA era o coração da Vila. Antigo Passeio Rainha D. Amélia, passou a ser Praça da República a partir de 1910. Na parte de cima, avultava o PALÁCIO DO MARQUÊS DE RERIZ, imponente construção setecentista, com os seus pergaminhos históricos de aposentadoria da última Rainha de Portugal e dos Infantes. Ao lado e separada pela embocadura da Rua Direita, a CAPELA DE SANTO ANTÓNIO, barroca, com fachada de janela tripla, encimada pelo símbolo da Inquisição e a torre do relógio, que batia compassadamente as horas e que o Quinato trazia sempre certo como um malho. Logo a seguir, o estabelecimento de fazendas do AMÉRICO CORREIA DE PAIVA.

Atravessada a Rua Serpa Pinto, a FARMÁCIA DA D. ELVIRA, sobre a qual morava o Velez Ferreira, um alentejano radicado em S. Pedro do Sul. Na viela Rua Baronesa de Palme, ficava o NOTÁRIO e a casa de pasto do ZÉ RATINHO. Do outro lado da viela, existia, lá pelos anos 30, uma construção onde funcionava o CENTRO REPUBLICANO, que tinha no rés-do-chão o BOTEQUIM DO AIRES PADEIRO; este edifício foi demolido, para dar lugar a outro, onde foi instalada a PENSÃO CENTRAL do ZÉ CAETANO, com a ALFAIATARIA FREITAS por baixo; ao lado, a loja de tintas do ZÉ PÓVOA e a de fazendas do VIRGÍLIO BRANCO, onde mais tarde se instalou a ELECTRO-RÁDIO. No pequeno largo frente à Pensão, foi construído o POSTO DA POLÍCIA DE VIAÇÃO E TRÂNSITO que, não fora o facto de a planta ser única em todo o país e ter inscrita a designação, poderia ser tomado por um quiosque; posteriormente, foi ali colocado o BUSTO DO POETA SAMPEDRENSE ANTÓNIO CORREIA DE OLIVEIRA, transplantado do Largo da Câmara Municipal.

Do outro lado da estrada que vinha da Ponte, era a MERCEARIA DO BAPTISTA, a seguir, as lojas do VALDEMAR COUCEIRO, do MIRANDA (electrodomésticos e ferragens), e do LININHO (com variados artigos, desde fazendas, linhas, botões, papelada escolar e outras miudezas). Estas lojas ficavam por baixo da CASA DOS CORREIA DE LACERDA, mais conhecida por CASA DAS PAULAS, residência senhorial setecentista, com oito janelas de sacada, capela e uma bela entrada do lado da rua que vai para o Chão do Mosteiro. Depois desta rua, a PHARMACIA DO HOSPITAL, pegada ao CAFÉ EDGARD, que havia de engolir a Pharmacia, deslocada para o rés-do-chão da Pensão Central. Do Edgard, que merece tratamento especial, haveremos de falar. A seguir era o edifício onde morava e tinha consultório o DR. TAVARES, com o JAIME BARBEIRO no rés-do-chão. Seguia-se a CASA DAS PUCARIÇAS, onde o ABEL ROCHA (mais conhecido por Abel Careca) instalou o seu estabelecimento de fazendas. A fechar este lado da Praça, o grande edifício revestido de azulejos, com as suas sacadas e portão de ferro forjado que dava acesso à escadaria de pedra para o primeiro andar, onde funcionava o CLUBE DE SÃO PEDRO. No rés-do-chão, ficava o STAND CLEMENTE, com artigos para automóveis e a respectiva bomba manual de gasolina da Vacuum. Encerrado o stand, deu lugar ao CAFÉ SÃO PEDRO. A seguir ao portão do Clube, o estabelecimento que, em tempos não muito distantes, fora sede da importante firma conhecida por OS SEBASTIÕES, ainda na memória de muita gente, devido às suas actividades bancárias e por, além de outros empreendimentos, ter construído no rio Vouga a Central Hidroeléctrica de Drizes, que durante muito tempo alimentou de energia a Região de Lafões; já no período de decadência da firma, acabou por sofrer um grande incêndio, que ficou conhecido por “Incêndio da Central”, de que ainda me lembro. Quando esta firma se extinguiu por exaustão, a sua sede passou a ser a CASA PORTELO, estabelecimento comercial explorado por António Portelo e, mais tarde, pelo meu amigo já desaparecido Custódio Rodrigues, que acrescentou ao comércio de fazendas importantes actividades seguradoras.

Ultrapassada a estrada que vinha da Companhia, entrávamos na pequena rampa que dá acesso à Igreja. Logo à entrada, debaixo do Adro, ficavam as instalações, que tinham na fachada, em letras bem visíveis, a designação RETRETES, cuidadas pela Gracinda, que morava em frente e que, por mais zelosa que fosse, não conseguia evitar que alguns utentes menos civilizados deixassem nas paredes interiores, além do mais, alguns riscos, desenhos e legendas às vezes a roçaram a obscenidade. Um dia, entrei nas Retretes, dirigi-me aos mictórios e vi que um deles tinha o cano roto e esguichava para quem o utilizasse. Um espirituoso deixara lá esta quadra:

Os urinóis desta terra

São uma coisa diferente

Nos outros mijamos nós

Mas este mija na gente!

 

Ao cimo da rampa, ficava a CASA QUINHENTISTA, construção em boa cantaria, com duas portas de arcos de volta perfeita e quatro janelas manuelinas, onde funcionava o GRÉMIO DA LAVOURA, que, no tempo da Guerra, distribuía as senhas de racionamento. Por baixo, era o SOUSA DAS BICICLETAS que nós, rapazotes, alugávamos para aprender a pedalar, na QUELHA DA BADALA. E estávamos de novo na Igreja.

Assim se fechava o circuito da Praça, onde o Passado e o Presente se entrelaçavam. Tudo isto enquadrava um espaço constituído pelo Adro e por uma rampa que escorregava desde o Palácio de Reriz até à estrada. O Adro, porque ficava num plano superior, era local privilegiado para ver passar as Procissões, pregar o Sermão do Encontro, fazer a concentração dos Ramos, pela Páscoa. Por vezes, nas noites de Verão, ali apareciam SALTIMBANCOS ambulantes: o rufar da caixa e o som da rabeca anunciavam o espectáculo: não era um circo, não havia trapézios, a pista eram dois tapetes estendidos no chão com o público à volta; além dos homens da caixa e da rabeca, um velho palhaço que fazia umas piruetas, dizia umas graças e tocava serrote, uma contorcionista de meia-idade e traços de uma beleza murcha, que ainda se dobrava muito bem, um cãozinho amestrado que fazia umas habilidades — intercaladas de algumas mijadelas que não estavam no programa — e um velho ilusionista, ainda elegante de porte e linguagem, que fazia uns truques que deixavam de boca aberta os espectadores; ele e a sua companheira de vida e partenaire eram os Empresários da Companhia, provavelmente ruínas materiais e humanas de algum circo que, em melhores tempos, tinha recebido outros aplausos. A meio do espectáculo, havia peditório: e toda a gente dava uma moeda, que era vergonha não dar nada. Depois da colheita, era a segunda parte. Acabada a função, levantavam a cangalhada, recolhiam à carroça, a caravana partia e o Adro ficava deserto.

Outras vezes, apareciam por lá os ROBERTOS, com a sua voz esganiçada e as suas pantominas, que acabavam sempre à traulitada e com a derrota do vilão. Tudo isto fazia as delícias da pequenada.

A Rampa era ocupada pela PRAÇA DOS AUTOMÓVEIS DE ALUGUER, que ainda não se chamavam táxis. Ao fundo, encostada ao Adro, havia uma fonte com torneira de pistão, que raramente tinha água. Nos fins dos anos 30, os carros de aluguer eram os dois Willis, um do meu pai (ainda me lembro do número da matrícula — MP-10-08), outro do Acácio Trinta, os mais modernos, e os velhos Fords do Ângelo, do Pangaio e do Aires Padeiro, que às vezes ainda pegavam à manivela; mais tarde, a arrastadeira do Zé da Rita, o Euclides, o Manuel da Cobertinha e outros; para abastecimento, havia uma bomba de gasolina da Atlantic que ainda funcionava manualmente.

À Praça vinham desaguar quatro artérias: a Rua Direita, a Rua Serpa Pinto, a estrada da Ponte e a estrada da Companhia. Para ali convergiam as gentes do Cimo de Vila, da Ponte e dos lados da Negrosa. Era o centro cívico da Vila. Para além das actividades comerciais, os dois pólos de atracção eram a Igreja e o Café Edgard.

No próximo número, falaremos do Edgard.

(Continua)

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