Nazaré de Oliveira

Partir uma perna nem sempre é uma desgraça

Na dobragem dos anos 40 para os anos 50, costumava eu encontrar-me com o Padre Coelho, Capelão do Hospital. Dávamos grandes passeios pelo Bairro da Negrosa, Várzea, Drizes, Ansiães… Falávamos de tudo: política local e nacional, problemas sociais e humanitários, temas pedagógicos, com intuitos mais ou menos moralizantes, no contexto dos padrões morais da época. Nem sempre estávamos de acordo: ele com a sua formação de sacerdote; eu com a minha impulsividade de juventude e alguma presunção resultante de leituras relacionadas com a formação académica que estava a fazer.

Um dia, estávamos nós ao portão do Hospital, para darmos início ao nosso costumado passeio, quando chegou a notícia de que tinha havido um acidente rodoviário, para os lados de Bordonhos e vinha aí uma ambulância dos bombeiros, com três feridos: um com traumatismo craniano, outro com fracturas da coluna vertebral e outro com uma perna partida. Esperámos. Chegada a ambulância, os bombeiros tiraram os dois primeiros feridos, os mais graves — pensávamos nós — que foram levados para as enfermarias pelos enfermeiros de serviço. Faltava o da perna partida. Como a ambulância se preparava para partir, o Padre Coelho manifestou a sua estranheza a um dos bombeiros. E travou-se o seguinte diálogo:

— Então não havia um homem com uma perna partida?

— Havia, sim senhor.

— Então por que não veio para o Hospital?

— Porque ficou na oficina de marceneiro do Carlos Bandeira, onde o Celestino já está a reparar a perna de pau partida.

Eu e o Padre Coelho não conseguimos suster uma gargalhada. E lá partimos para o nosso passeio a comentar o caso.

Quando, mais de uma hora depois, regressámos, quisemos saber do estado dos dois feridos. Fomos à enfermaria e lá estavam, entrapados e ligados, com mazelas para algumas semanas. Mas já lá estava uma visita: o terceiro homem, o da perna de pau, novinho em folha.

Não havia dúvidas: o Celestino fora mais rápido e eficiente do que os médicos do Hospital.

Moral da história: nem sempre partir uma perna é uma desgraça!

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *