Natália Nunes: a escritora feminista que frequentou a escola primária em Oliveira de Frades
Centenário (1921-2021)
Partilhou a vida com Rómulo de Carvalho, o poeta António Gedeão. “Horas Vivas: Memórias da Minha Infância”, o primeiro livro, evoca as recordações de Oliveira de Frades na segunda metade da década de 20 do século passado

“O Passal, a casa onde ficámos a viver em Oliveira, pertencia, como disse ao tio Alfredo que apenas o ocupava um mês, durante o verão. Era a antiga residência do vigário da vila e ficava mesmo dentro do adro da Igreja. O Passal não era um prédio numa rua, como os da cidade, não era uma parede com janelas mas uma casa a que podíamos dar a volta e ficar a conhecer por todos os lados. Se subíssemos à ponte da Devesa, veríamos o seu telhado vermelho a fazer contraste com a copa verde dum grande castanheiro…”, escreveu Natália Nunes em “Horas Vivas: Memórias da Minha Infância” – o seu livro de estreia, publicado em 1952 – onde a escritora evoca os anos que viveu em Oliveira de Frades, vila onde frequentou parte do ensino primário no final da década de 20 do século passado.
Natália Nunes nasceu em Lisboa a 18 de novembro de 1921. Tinha sete anos quando a doença do pai obrigou a família a deixar a cidade por uns tempos: “Quando se levantou os médicos disseram que, agora, não poderia retomar o trabalho pois tinha um buraco no pulmão e o que era preciso era fazer uma vida de repouso numa terra de bons ares”. A penicilina só surgiria duas décadas depois, a tuberculose era uma doença mortal, e a região de Lafões era afamada pelo efeito terapêutico dos seus bons ares. Recorde-se que – não muito longe de Oliveira de Frades – a Sociedade do Caramulo foi fundada em 1920 por Jerónimo Lacerda, o projeto da estância sanatorial data de 1921 e o chamado Grande Hotel (sanatório na verdade) foi inagurado em junho de 1922.
Os três anos que a mulher que casou e partilhou a vida com Rómulo de Carvalho – o poeta António Gedeão – viveu em Oliveira de Frades foram de tal forma marcantes que estiveram na génese do primeiro livro que publicou. Observadora, a menina que haveria de ser escritora, registou impressões e factos que viriam a ser o pilar da construção da sua primeira obra memorialista “Horas Vivas”, onde descreve a vida quotidiana da Oliveira de Frades dos anos 20 e início da década de 30 – não seria muito diferente da das outras vilas de Lafões – as dificuldades da população, a estratificação social, o difícil acesso de muitas crianças à escola, a influência da Igreja, os problemas das mães solteiras, os hábitos e os costumes da zona. Ao longo dos anos, Natália Nunes voltou algumas vezes a Oliveira de Frades e manteve contacto com pessoas da vila como foi o caso das irmãs Teresa Azevedo e Silva e Maria Alzira Azevedo a quem chegou a oferecer os primeiros livros que publicou.
Em 1964, a publicação do romance “Assembleia de Mulheres”, foi uma lufada de ar fresco e uma rotura no discurso e na afirmação do sentir feminino. Para além de romancista, ensaísta, dramaturga e, tradutora, a bibliotecária-arquivista Natália Nunes também colaborou nas revistas “Vértice” e “Seara Nova”. Oposicionista à ditadura do Estado Novo, fez parte da última direcção da Sociedade Portuguesa de Escritores, que foi encerrada pela PIDE em 1965.
Era mãe da premiada escritora Cristina Carvalho, que acaba de publicar “Strindberg — Neste Mundo Fui apenas Um Convidado”, com chancela da editora Relógio D’Água e prefácio do psiquiatra Daniel Sampaio.
Natália Nunes morreu a 13 de fevereiro de 2019. Na útlima edição do ano em que se assinala o centenário do seu nascimento, a Gazeta da Beira recorda esta importante escritora que viveu em Lafões e escreveu sobre a região, esperando que a sua vasta obra que está esgotada seja reeditada em breve.
Legenda : A escritora Natália Nunes com 15 ou 16 anos em Oliveira de Frades, nas férias de verão.
Créditos: Cortesia Cristina Carvalho
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