“Não pode haver uma receita comum quando os territórios são diferentes – o mundo rural necessita de muito mais atenção”

Entrevista a João Seixas

“Andamos toda a nossa vida em busca de coisas, objetivos, ideias, e eis que um dia percebemos que parte essencial dessas coisas sempre esteve na infância, na juventude, na terra e na alma de que somos feitos.”

 

João Seixas, geógrafo, investigador e professor na Universidade Nova de Lisboa, tem raízes em Lafões, na freguesia de Sul. Com obra publicada nas áreas dos estudos urbanos, da sociopolítica, da geografia e da economia das cidades, foi um dos fundadores da conhecida Livraria “Ler Devagar” que começou no Bairro Alto e agora tem instalações no espaço “LxFactory”, em Alcântara. Foi consultor da Comissão Europeia para as políticas de cidades e coordenou a reorganização do mapa de freguesias de Lisboa, no tempo de António Costa presidente da Câmara Municipal.

 

Gazeta da Beira – João Seixas, sabemos das suas raízes em Lafões. Há uma história ligada às suas origens que, na realidade sendo umas, no cartão de cidadão são outras. Pode contar-nos essa história?

João Seixas – Nasci em 1966, na cidade de Viseu, na Casa de Saúde do Campo de São Mateus. E os meus pais eram ambos da aldeia de Sul, concelho de S. Pedro do Sul, e apesar de terem estado muitos anos em África, mantinham uma forte relação com a aldeia de Sul. Ora, o meu pai gostava tanto da aldeia que me pôs na cédula nascido em Sul, S. Pedro do Sul. Nunca tive nenhuma crise de identidade por isso, bem pelo contrário. Até achava piada ter nascido num sítio e, supostamente, ter nascido noutro. Talvez me tenha dado uma configuração territorial desdobrada! [risos]

 

GB – É professor na Universidade Nova de Lisboa e professor convidado noutras universidades. A sua vivência é muito viajada e cosmopolita. Do interior centro do país vai para Lisboa, onde faz grande parte da sua vida. Depois a sua formação passa também por Londres e Barcelona.

JS – Sim, vivi a minha juventude e fiz a licenciatura em Economia em Lisboa. Depois fui viver para o Porto, fiz o mestrado em Londres e, de seguida, fui fazer o doutoramento em Barcelona. Dei umas voltas, que hoje sei terem sido bem proveitosas, à procura de conhecer o mundo e ir também estudando e aprendendo, o que sempre me fascinou. Finalmente, regressei a Lisboa e constituí família. Mas sempre que podia, durante todas essas voltas, ia sempre mantendo uma relação com Lafões e com Viseu.

 

GB – Tem filhos?

JS – Sim, duas filhas.

 

GB – Conseguiu transmitir-lhes a relação com Lafões?

JS – Sim, mas ainda não tanto como eu gostaria. Nos tempos mais recentes temos ido muito menos do que gostaria a S. Pedro do Sul e a Viseu. As filhotas são ainda muito jovens, com 9 e 8 anos, e uma parte da vida delas foi em confinamento. A mais nova fez agora 8 anos, passou 20% da sua vida em confinamento! Ora bem, dantes íamos mais e espero que em breve possamos ir de novo com mais frequência, até porque temos uma casa em Sul e família. Infelizmente, das gerações acima da nossa já quase todos nos deixaram. Eram eles que, mesmo nas mais distantes diásporas, mais nos ligavam. Mas pretendo rapidamente retomar e fortalecer essa ligação que me parece essencial. Há uma memória, um gosto, e uma responsabilidade.

 

GB – Porquê essa vontade tão essencial?

JS – É capaz de ser da idade, damos muitas voltas e acabamos por regressar a muitas origens. Muitos escritores o disseram, ao longo de todos os tempos. Andamos toda a nossa vida em busca de coisas, objetivos, ideias, e eis que um dia percebemos que parte essencial dessas coisas sempre esteve na infância, na juventude, na terra e na alma de que somos feitos. Ora isto está intimamente – é a palavra certa – ligado com o território. E, no meu caso, para além de Lisboa, evidentemente com S. Pedro do Sul e com a terra de Lafões.

 

GB – Nesta procura das suas ligações com Lafões, diga-me se o papel que tem tido na livraria “Ler Devagar” tem alguma coisa a ver com Sul?

JS – Tem tudo!

João Seixas com o pai, em 1967, nas Termas de São Pedro do Sul

GB – Ah, bem nos parecia!

JS – A livraria “Ler Devagar” foi fundada por um grupo em que praticamente metade dos fundadores são de S. Pedro do Sul e da região de Lafões. O José Pinho, meu primo, da aldeia de Oliveira de Sul, eu próprio, a Manuela Figueiredo, que também é de Oliveira, os filhos respetivos, e outros primos e amigos. Já agora, antes de a “Ler Devagar” começar como livraria, no Bairro Alto, o José Pinho editava uma revista de poesia e de crítica literária que se chamava “Devagar”, sendo um dos principais autores o António Ferreira, nosso primo de Oliveira de Sul. Um indivíduo brilhante, clarividente, com textos publicados do mais extraordinário que já li. Sob a inspiração do próprio António Ferreira abrimos mais tarde a livraria “Ler Devagar” com gente ligada a S. Pedro do Sul.

 

GB – De Lafões para o mundo cultural de Lisboa…

JS – Exatamente. Mas sempre sem perder o pé – nada de elitismos bacocos e artificiais, sempre com um grande orgulho em quem somos e de onde viemos.  Haverá certamente razões fundas, que fazem com que a gente de S. Pedro de Sul e de Lafões tenha essa capacidade, essa vontade de se expandir, para o mundo e através de muitas formas. No mundo da cultura, da economia, da educação, do conhecimento, da ciência. Alguns dos geógrafos mais importantes do país tinham raízes na região Dão Lafões, a começar pelo Amorim Girão, de Fataunços, Vouzela, ou o próprio Orlando Ribeiro, sendo os seus avós da região de Viseu, creio que da zona de Silgueiros, e ele ia lá muito. Há aqui um tipo de paisagem, uma variabilidade, uma riqueza profunda do território que – com todo o respeito por todas as outras regiões – faz com que se desenvolva, em muitos, uma sensibilidade territorial e social muito aguçada.

 

GB – Já descobrimos boa parte das suas ligações a Lafões que, afinal, são profundas. Gostava de falar consigo, como geógrafo que é com trabalho reconhecido e de mérito, sobre Lafões. Considera que há uma identidade própria da região de Lafões?

JS – Claro que sim, absolutamente. Nunca duvidei disso, mesmo quando estive longe. Embora tenha que lhe dizer que a minha visão pode ser parcial, por mim e pela distância. Mas é de facto uma região com características muito vivas e vincadas. Embora tenha, curiosamente, uma tipologia paisagística e de gentes muito diversificada. A nossa região tem uma diversidade muito interessante, desde os horizontes montanhosos da Serra do S. Macário e da Arada aos maravilhosos frescos do Vale do Vouga, e ao planalto do Dão à medida que nos aproximamos de Viseu, essa cidade milenar. Tudo é muito estimulante, e reflete-se bem nos mais diversos produtos da terra.

 

GB – Trata-se de uma vantagem?

JS – É uma enorme vantagem, que não pode nem deve ser simplificada. A diversidade paisagística poderia dificultar a ideia de identidade, de identificação da nossa região, mas acredito que a diversidade do olhar, do sentir, do trabalhar e do usufruir, é uma enorme riqueza. Repare, para quem estuda as cidades, uma das palavras rainhas é diversidade, ou mistura, não haver apenas três ou quatro opções, mas haver trinta ou quarenta. O que traz riqueza a esta região é precisamente essa enorme diversidade paisagística e humana, termos uma natureza biodiversa. E como tal, mais comercial, empreendedora, mais cultural e ainda, como hoje se diz, mais resiliente. Ainda por cima, em termos mais macro, do país, encontra-se numa situação intermédia, nem é litoral nem é interior.

GB – É uma espécie de território de transição com identidade.

JS – E isso também é raro em Portugal, normalmente a divisão é litoral versus interior. Todo o território que vai desde o vale do Mondego e se estende pelo Dão, passando pela nossa zona de Lafões, não é propriamente interior.

 

GB – Houve uma alteração significativa no mapa das freguesias que também atingiu Lafões. Está particularmente habilitado a falar sobre esta matéria porque coordenou, com Augusto Mateus, a reorganização do complexo desenho de freguesias na cidade de Lisboa, que as reduziu de 53 para 24 e foi considerada um êxito. Para a reforma do mapa das freguesias a nível nacional deveria ter havido uma diferença entre áreas metropolitanas e as restantes regiões do país?

JS – A resposta a esta questão tem vários matizes. Claramente, tem de haver diferenciação consoante os territórios. Não pode haver uma receita comum quando os territórios são diferentes. Teria sido basilar considerar que territórios urbanos e territórios rurais têm especificidades que os tornam diferentes. A reforma de Lisboa é um processo inteiramente urbano que pode ser referência para outros processos em territórios urbanos, como no Porto, em Coimbra ou em Aveiro e mesmo em Viseu. Nos territórios rurais, de todo. Em Lisboa o objetivo não foi, de forma alguma, reduzir freguesias. Foi aproximar a governação, a política, dos territórios. Aliás, esta reforma de Lisboa não teve nada a ver com a reforma das freguesias a nível nacional, conhecida pela Lei Relvas. Foram processos distintos.

 

GB – Quais as diferenças?

JS – Os princípios que subjazem à reorganização em Lisboa são os que me levam a dizer que o processo da reforma das freguesias no resto do país foi muito mal feito. A reorganização em Lisboa foi para reforçar o poder de proximidade aos territórios, às populações, às suas necessidades. Esses não foram os princípios para a reforma das freguesias fora de Lisboa. Deve-se evidentemente rever, e enfim vamos sempre a tempo, o que foi feito nessa reforma das freguesias em 2013 para o resto do país. Agregar, separar ou manter freguesias deve ser o resultado de grandes princípios da política como bem comum e de objetivos fundamentais de melhorar a qualidade de vida das populações e do território. E a partir daí, estruturar as instituições, as competências e as responsabilidades públicas, perante os territórios e as populações.

 

GB – Com a reforma Relvas não foi tida em conta a diferença entre territórios urbanos e rurais, interior e litoral? Foi feita a “régua e esquadro”?

JS – O mundo rural necessita, há muito tempo, de muito mais atenção e dedicação política e social. Vivemos num dos países mais centralistas de toda a Europa, em que o poder local ainda tem muito poucas competências e ainda menos recursos. O verdadeiro processo de descentralização ainda não foi realizado, a regionalização como administração intermédia entre o poder central e o local ainda não foi concretizada. Acredito que esta é uma das principais razões dos bloqueios do país. Mas certamente que não a única, porque em Portugal há grandes problemas ao nível do desenvolvimento social e económico.

 

GB – Esta questão leva ao debate sobre a configuração, adequação e aplicação do PRR, a chamada “bazuca”, nos territórios mais do interior.

JS – Um Plano de Recuperação e Resiliência para a regeneração pós-pandemia, económica, social e ambiental, e ainda por cima ligada a um novo ciclo dos Fundos de Coesão, deveria ter tido um amplo processo de debate e de compromisso, com o envolvimento da sociedade e das várias entidades regionais existentes, desde as CIM até às ONG’s, visto ainda não existirem regiões democraticamente eleitas. Isso não aconteceu, houve uma elevada concentração na construção e nas propostas do PRR, o que pode fazer perigar a necessidade de se canalizar bem as melhores escolhas e investimentos, quer globais quer de cada região. Espero que ainda se possa afinar e detalhar melhor essas necessidades.

 

GB – O antigo concelho de Lafões foi dividido em três municípios, no Século XIX. Há uma certa perceção das dificuldades de cooperação entre municípios, nomeadamente a eventual falta de uma estratégia comum para Lafões. Não seria importante para todos construir-se essa capacidade de cooperação e de definição estratégica comum?

JS – Claro que sim, o que não coloca em causa o peso, a responsabilidade e o posicionamento de cada município. O que mais se sente a falta, hoje em dia, são os mecanismos de cooperação. Existe a CIM Viseu Dão Lafões, a região Centro, e estas estruturas devem ser verdadeiros dinamizadores de projetos conjuntos e desenvolvidos em cooperação.

 

GB – Assumiu que também é produto da capacidade da região de Lafões se virar e expandir para o mundo, em termos culturais, económicos, científicos. O que podem esses protagonistas, essas personalidades, o João Seixas, trazer para Lafões? A imprensa regional pode contribuir?

JS – O mundo está em grande mudança. Andamos todos a tentar acompanhar as mudanças, a tentar percebê-las e interpretá-las. Não é simples, mas é essencial. Devemos assumir essa responsabilidade para com o nosso território. Para os filhos de Lafões que não vivem na região, faltará o quotidiano, o contacto mais direto, que é essencial para melhor ver e perceber. Quem está todos os dias na região sabe certamente muitas dessas necessidades. Os de fora podem trazer outras perspectivas. São assim essenciais os pontos de ligação, as interações entre uns e outros. E nesse sentido, a imprensa regional é um agente indiscutível no fortalecimento desses laços.

15/07/2021


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