Metáforas e palavras emboscadas
Manuel Veiga

Sou um tipo de palavras. (e espero também que os meus amigos me tenham em conta como um homem de palavra.) Quero dizer que, desde que me conheço, as palavras tem sido meu alimento, não pelos livrinhos publicados, mas como ferramenta de trabalho no exercício do meu múnus profissional.
Algumas palavras, eu amo. Outras nem tanto. Outras, engasgo-me com elas. Mas julgo poder dizer, sem excessiva presunção, que a todas elas sei usar, com propriedade, no momento e nos locais certos.
E, confesso-vos, que ultimamente trago engasgada a palavra “metáfora”, tal é a profusão de metáforas, que empanturram nossas vidas. Mais de que uma moda, são uma autêntica praga! Não acreditam? Basta espreitar as “metáforas do consumo” (p. exemplo, as marcas, as embalagens, etc.) ou alguns blogs (ditos literários) e teremos “metáforas” para todos os gostos, algumas das quais, embora emproadas, não passam intragáveis charadas.
Não imaginam, por exemplo, como depois da consagrada “Jangada de Pedra”, a “pedra” medrou no céu das charadas, perdão das metáforas. Um verdadeiro filão. E quando digo pedra é pedra mesmo – não calhau! Calhau não tem dignidade de metáfora. Pode até, (no mundo das metáforas, está bom de ver) descobrir-se, no interior da pedra, “um coração ardente a palpitar” – mas calhau, nunca!…
Por isso, proponho-me daqui em diante, prestar mais atenção às “palavras emboscadas”, ou seja aquelas que verdadeiramente “determinam o sentido do discurso, sem porém o dizerem”. É que se as metáforas “reluzem”, as palavras emboscadas seduzem-(me).
Como se sabe o sentido metafórico, é sentido figurado, cujo efeito se extingue no momento em que a metáfora é lida. É uma espécie de embalagem reluzente que atrai a leitura, mas se deita fora, mal a mensagem “metafórica” seja decifrada.
As palavras emboscadas são “coisa” diferente. Não se exibem, actuam. Não proclamam, “decidem” a significação e o sentido. E até o contexto(s) de leitura. Estão presentes, mas não gritam. Podem até conviver com metáforas e usá-las e desventrá-las, mas “o seu reino é de outro mundo”- as palavras emboscadas fingem o que (não) são! E negam-se. Negam-se, sempre! Qual “poeta fingidor/ que finge tão completamente/ que até parece ser dor/ a dor que deveras sente…”
Ou se quiserem, de uma maneira mais prosaica, as palavras emboscadas fazem lembrar certas senhoras da sociedade, que garantem, juram e trejuram que nunca comem carne à Sexta-feira. E que, surpreendidas e engasgadas, com bife filet mignon, garantem, juram e trejuram que comer carne, à Sexta-feira, é outra coisa…
Claro que as palavras emboscadas são “perigosas”, porque seduzem e convencem. Talvez por isso são tão queridas da publicidade e da política (de alguns políticos, helás!, que muitos são tão básicos que, nem sequer sabem de metáforas). E na literatura também. São elas que revelam os escritores de talento. E definem as obras-primas.
O problema é que, as palavras emboscadas, como qualquer outro signo linguístico, se prestam ao engodo e à trapaça. E quando assim é a literatura não passa de uma farsa. Ou ainda mais grave, de mera agência de recados literários ou outros.
Garanto não existirem, neste texto, palavras emboscadas. Mas se descobrirem alguma, NEGO!
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