Memórias

Gabriela Silva; Marta Almeida

– Olá, eu venho de Sever do Vouga, de uma pequena vila situada no distrito de Aveiro, de onde trago muitas recordações. A minha avó dizia ‘’quem conhece Sever do Vouga, não se pode separar, sem se apaixonar.’’ Antes não concordava com ela, mas agora sinto que devia ter seguido os seus conselhos para melhor aproveitar.

Naquele mesmo dia, acordei sobressaltada e preocupada, pois iria começar uma nova etapa, um novo degrau para alcançar uma vida melhor.

– Mãe, MÃE, que horas são? – gritei do meu quarto.

– Compra um relógio! Deixa-me dormir. – responde chateada.

– O típico bom humor da minha mãe, logo de manhã! – exclamei eu.

A mala onde irei levar o necessário tem que estar pronta, por isso, irei verificar mais uma vez. Tomei um reforçado pequeno-almoço, pois o dia de hoje vai ser longo.

– Trim, trim! – ouve-se a campainha.

Desço as escadas, abro a porta. Uma figura encontrava-se de costas, o seu cabelo era ruivo e ficou gravado na minha memória, por causa disso descobri quem era,  a minha melhor amiga, a Carlota.

 

– Soube que entraste na Universidade de Coimbra, porque não me disseste? –inquiriu espantada.

– Desculpa, mas como tu sabes não gosto de despedidas. – respondi.

– Isto pode não ser uma despedida e sim um até já! – retorquiu ela.

– Onde é que entraste? – pergunto.

– Entrei no curso superior de História. – respondeu calmamente.

– Mas em que Faculdade? – perguntei ansiosa.

– Na Faculdade de Letras. – respondeu a Carlota.

– Mas em que sítio do país? – pergunto indignada.

– Em Coimbra. – responde-me ela.

Após esta maravilhosa notícia, chegou a hora de ir embora, por isso a tão temida despedida aconteceu, mas reconforta-me o coração pensar que será um até já.

Aquele carro, já com alguns anos de experiência e muitas peripécias envolvidas, é sem dúvida o melhor transporte para me levar a esta nova fase da minha vida.

Começa assim uma viagem que irá levar-me à vida adulta, ao auto conhecimento e novas aventuras.

Os meus amigos serão o mais difícil de deixar para trás. Muitas risadas, muitas coisas parvas típicas de adolescentes e muitas aventuras. Ainda me lembro daquele dia passado na cascata da Cabreia.

A água caía de maneira abrupta, mas a sensação refrescante permitiu  que aquele dia se transformasse no ponto de viragem da relação com os meus amigos.

Naquele dia de Verão, eu e os meus amigos decidimos passar o dia na tão conceituada cascata. Para muitos deles seria a primeira vez lá, não era o meu caso. Os meus pais e avós já me tinham lá levado. Por isso, já tinha noção dos caminhos e trilhos existentes.

A Ana, uma colega minha, não sabia. Por isso perdeu-se. Andámos todos à sua procura e passadas quatro longas horas ela foi encontrada cabisbaixa junto de uma árvore. Foi um alívio, pois estava a ficar de noite e seria mais difícil encontrá-la. Este dia permitiu que todos os meus amigos ficassem ligados, não só pela preocupação entre todos, mas também pelas memórias lá criadas. Somos todos amigos e sempre o seremos.

Recordei-me de muitos momentos. Um deles foi a tão emblemática Feira do Mirtilo, onde fui voluntária. Fazia muitas tarefas, ajudava quer os comerciantes quer os visitantes. Apesar de muito trabalho, divertia-me imenso com os meus colegas. Num certo dia, um colega meu, o Nuno, queria ajuda com as garrafas de água. Fui ajudá-lo mas, de repente, as águas caem todas ao chão dando origem a uma poça enorme de água, o mais interessante é que o que nos levou a rir não foi a queda da água, mas a reação dele perante uma melga que andava à sua volta.

O carro começa a abrandar. Nem eu nem os meus pais sabem o que se passa, por isso, o meu pai para o carro e sai para ver o problema. O pneu tinha furado, logo neste dia tão importante! Umas bombas de gasolina estavam a cerca de quinze metros de distância do carro, a nossa sorte. O amável funcionário que estava a trabalhar reparou que estávamos um pouco atrapalhados e veio ter connosco. Mudou-nos o pneu e permitiu que esta viagem continuasse, rumo a Coimbra.

Avistei um grande edifício. Era um teatro, lembrei-me do Centro de Artes e de Espetáculos de Sever do Vouga. A primeira vez que lá entrei frequentava a escola primária, por causa das festas de Natal. Mais velha, quando era adolescente fui ver uma peça de teatro sobre as mulheres que retratava o sofrimento de uma mulher infértil, que teve um ou vários abortos e da indiferença da sociedade, face aos seus problemas.

O meu pai parou na Mealhada para almoçarmos. Como é bom o famoso leitão e, apesar de ser muito caro comer de vez em quando não faz mal a ninguém. O restaurante era acolhedor, muito confortável e fomos bem recebidos. Enquanto comia lembrei-me da gastronomia típica de Sever como a lampreia, a vitela, mas também os mirtilos. Os mirtilos são um fruto que não faz mal comer em demasia, pois têm propriedades antioxidantes. Há muitas sobremesas feitas com o mirtilo como tarte, doces, muitas outras coisas variadas.

A comida da minha avó será algo me fará bastante falta. O modo como cozinha, o carinho que põe em cada prato e o seu sorriso quando alguém elogia os seus feitos. É algo que quero atingir não só nos meus cozinhados, mas também na minha vida.

Antes de recomeçarmos a viagem, aconteceu um imprevisto. O carro não tinha gasóleo porque o meu pai parou numa estação de serviços, mas esqueceu-se de abastecer o carro. Entramos de novo no restaurante a perguntar se alguém tinha ou se nos podiam ajudar, um homem grande e forte aproximou-se de nós. Apesar do seu ar assustador, apenas nos queria ajudar e valeu-nos de muito, pois tinha abastecido alguns garrafões com gasóleo e generosamente permitiu que usufruíssemos de um.

Pessoas tão carinhosas e amáveis existem em Sever, ainda me lembro daquele dia na Ecopista onde caí. Felizmente uma família severense ajudou-me e só saiu do meu lado quando já me estava a sentir melhor. As pessoas de Sever do Vouga preocupam-se com o outro, são simpáticas e hospitaleiras.

-Filha, já chegámos!- disse o meu pai.

As ruas movimentadas, a ânsia dos caloiros, o trânsito excessivo, o barulho ensurdecedor, completamente diferente de Sever. As calçadas que percorremos com o carro para chegar até à Universidade. Encontrei as minhas novas colegas do curso de Psicologia. Soube que eram elas, porque os doutores já lhe tinham escrito na testa “Psicologia”, já começavam as praxes, tudo isto para se integrarem no grupo.

-Olá, de onde vens?-perguntou uma colega.

– Olá, eu venho de Sever do Vouga, numa pequena vila situada no distrito de Aveiro, de onde trago muitas recordações. A minha avó dizia “quem conhece Sever do Vouga, não se pode separar, sem se apaixonar”. Antes não concordava com elas mas agora sinto que devia ter seguido os seus conselhos para melhor aproveitar.

Crescer era diferente se fosse noutro lugar se não Sever. Não teria a experiência de subir ao alto de uma montanha e amar, sentir o vento na cara e ter a certeza que tudo dentro de mim está vivo, sentir o sangue nas veias. Hoje, ao voltar a casa, Sever, é como se renascesses, o sangue volta, o ar volta, a alegria volta, a tua personalidade volta e és pessoa só porque estiveste em Sever do Vouga.Redação Gazeta da Beira