Mário Pereira (Crónicas do Olheirão)
Lafões e a globalização

Costumamos falar da globalização como uma coisa abstrata que se passa algures longe de nós.
Quem, como eu, nasceu e ainda viveu alguns anos, antes do 25 de abril de 1974, numa das muitas aldeias da nossa região percebe que tudo está mudado e estas mudanças são uma das consequências da globalização.
A globalização é um fenómeno que interligou o mundo todo, em resultado das mudanças tecnológicas e políticas que facilitaram a circulação das mercadorias, das pessoas e do dinheiro.
A avicultura que nos habituamos a olhar como algo natural na nossa região só é possível pela globalização.
A nossa região não produz, praticamente, nenhum dos cereais que estão na base da alimentação das galinhas e dos frangos que produz, excetuam-se algumas experiências pioneiras e alguma minhoca que os frangos do campo encontrem no chão.
Nós só podemos ter os nossos aviários, porque há barcos gigantescos a transportar os cereais de lugares tão distantes como a Argentina ou a Austrália. Também não somos capazes de comer os frangos e os ovos que produzimos e que têm e ser transportados para outras regiões e, eventualmente, até para outros países.
A chegada dos tratores e outras máquinas que facilitaram o trabalho agrícola são, também, fruto do desenvolvimento tecnológico, que acelera e é acelerado pela globalização.
As indústrias que vieram a seguir à avicultura também só são possíveis devido ao comércio global que permite levar para todo o mundo os bens aqui fabricados e trazer para cá as matérias primas necessárias.
Nestes processos de transformação há sempre quem perca e quem ganhe. Na nossa região a globalização levou ao colapso um modo de vida que existia há muitas centenas de anos fazendo desaparecer a agricultura de subsistência que moldou a nossa paisagem e se destinava, como o nome indica, a assegurar a alimentação das pessoas que aqui viviam.
Se de repente o comércio internacional se reduzisse a níveis de há 100 anos atrás, teríamos de recuperar muitas técnicas dessa agricultura de subsistência para não passarmos fome.
A minha questão é:
Se não tivessem acontecido estas mudanças a vida da larga maioria das pessoas que aqui vivem seria melhor?
Eu não tenho dúvida em dizer que a vida é bem melhor, mais confortável, mais longa e com menos sofrimento, embora reconheça que algumas pessoas sofreram mais os impactos negativos e receberam menos benefícios.
Transpondo para o nível dos países e do mundo vemos uma transformação constante e acelerada que trará vantagens a umas pessoas e problemas a outras, cabendo aos governos assegurar que há algum equilíbrio de modo a que uns não fiquem com a carne toda e os outros só com os ossos.
A globalização é como um rio que todos os dias engrossa devido sobretudo às novas tecnologias, como nos rios de água é possível construir diques e represas. Acontece que os diques vão evitando pequenas cheias, mas um dia cedem provocando inundações gigantescas.
As consequências das políticas anti globalização, como tem feito Trump, podem ser bizarras e inesperadas.
Uma consequência bizarra atingiu uma amiga investigadora na Universidade de Coimbra, que foi impedida de participar num congresso nos Estados Unidos, porque há algum tempo atrás esteve no Iraque numa missão da Cruz Vermelha Internacional.
Certamente, Trump não estaria a contar com uma queda das receitas do turismo nos Estados Unidos entre os 35 e os 50% desde que ele tomou posse.
Muitas vezes, falamos da globalização como falamos das sogras. Dizemos mal mas gostamos do que elas fizeram.
Março de 2017 – Mário Pereira
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