Mário Pereira CRI – ASSOL
Eu não gosto da escola...
A Educação em Pequenas Histórias

Eu não gosto da escola…
Sempre que iniciamos um apoio, procuramos conhecer bem as crianças e os adolescentes com quem vamos trabalhar. Isto pressupõe questioná-los sobre o seu dia-a-dia, acerca da família, da vida escolar e dos interesses dentro e fora da escola. É muito comum ouvirmos a frase “eu não gosto da escola!” Quando aprofundamos o tema, procurando perceber as razões para tal descontentamento, os alunos focam, sobretudo, as dificuldades na relação com os professores, os conteúdos programáticos pouco cativantes e o tempo longo que passam dentro da sala de aula e, consequentemente, as reduzidas oportunidades de brincar e socializar com os pares.
O que poderá estar a falhar?
O que terá mudado na escola, na sociedade e nos próprios alunos para que estas opiniões sejam cada vez mais frequentes?
Nós fazemos a seguinte reflexão:
– Parece-nos que o mundo se tem vindo a transformar muito rapidamente enquanto as mudanças na escola se fazem de forma mais lenta;
– Continua a exigir-se, em grande parte dos contextos, que os alunos permaneçam quietos e calados durante longos períodos de tempo, ou seja, assumindo um papel passivo na sua própria aprendizagem. Parece-nos que as crianças e os jovens do mundo atual anseiam um papel mais ativo na procura do conhecimento, o que lhes dá condições para aumentar a sua autonomia e liberdade para criarem e se divertirem dentro do contexto escolar;
– Parece-nos que os conteúdos programáticos estão ainda desajustados tendo em conta o perfil das crianças e dos adolescentes que estão, atualmente, na escola e as transformações da sociedade nos últimos anos. Carece o conhecimento com significado, a diversidade e a inovação. Além disso, a extensão dos programas não agrada nem a alunos nem a professores que se veem, muitas vezes, pressionados para cumpri-los, não deixando espaço a um processo de aprendizagem mais ativo, dinâmico e atraente;
– Parece-nos que continua a existir pouco investimento na promoção da cidadania, no que toca a valores como a inclusão, tornando a escola melhor e para todos. Não deveriam também estas competências ser alvo de avaliação no final de cada ano letivo?
– Parece-nos que se continua a verificar um espírito demasiado competitivo quando o incentivo à cooperação poderia trazer mais valias para a aprendizagem e para a vida da sociedade atual;
– O contexto de aprendizagem é, muitas vezes, assombrado pelo medo de errar, de questionar, pelo receio de vir a ser gozado. Não deveria ser antes um ambiente de segurança, de proximidade, de valorização, de respeito, de liberdade, de proatividade e de curiosidade?
– Não deveria estar o aluno no centro do processo de aprendizagem em vez das metas curriculares? Não deveríamos focar-nos nos seus interesses e talentos, respeitando o seu ritmo de aprendizagem, necessariamente individual, criando, assim, condições para alunos mais satisfeitos, motivados, com mais autoestima e mais preparados para os desafios da vida pós-escolar?
– Também o corpo docente deverá ser alvo de reflexão: Estarão os professores exaustos? Serão as turmas demasiado grandes? Haverá demasiada burocracia? Terão a autonomia que desejam? Estarão eles preparados (formados) para as crianças e adolescentes do século XXI?
Resta-nos a esperança de que as mudanças necessárias ocorram com mais efetividade e celeridade, tornando a escola melhor e mais agradável para todos!
Dezembro 2022 1ªedição
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