Mário Pereira

Todos nos vemos gregos

Quando dizemos “Estou a ver-me grego …”, queremos dizer que nos sentimos atrapalhados ou enrascados. A verdade é que os últimos desenvolvimentos políticos na Grécia e na Europa têm feito com que muita gente se veja grega.

Os primeiros serão os próprios gregos, depois os políticos europeus, depois os economistas importantes e bem-falantes mas também os políticos e os partidos portugueses estão a ver-se gregos com a situação.

Eu também me tenho visto grego para compreender a situação e por isso tenho preferido não me entusiasmar excessivamente com os acontecimentos das últimas semanas.

O que tem acontecido nas últimas semanas mostra que apesar de todas as limitações da organização política europeia, se criaram interdependências tão fortes entre as várias nações, que qualquer decisão unilateral pode causar prejuízo a que a toma.

A atitude da Grécia mostra também que quando os países, mesmo sendo pequenos, se atrevem a pensar pela própria cabeça e a desafiar o pensamento único se conseguem avanços importantes na solução dos problemas.

A esquerda portuguesa, como um autêntico náufrago, viu-se grega para tentar apanhar a boia lançada pelo governo grego. As dificuldades da esquerda decorrem dum pensamento político e económico que se resume a ser contra a austeridade e contra a Alemanha, daí que seja tão mobilizador como o discurso do governo.

Os economistas de direita têm-se visto gregos para perceberem as críticas da Comissão Europeia e do FMI às políticas que eles acreditavam serem as únicas capazes de salvar o mundo, ao mesmo tempo que os economistas para quem o euro é o grande inimigo dos povos se veem gregos para compreenderem o esforço feito pelo governo grego para se manter na zona euro.

O professor Cavaco Silva tem-se visto grego para explicar porque está tão preocupado com os mil milhões de euros que Portugal concedeu em garantias à Grécia e não diz nada sobre as dezenas de milhares de milhões que os seus amigos do BPN, do BES e da PT fizeram desaparecer.

O governo tem-se visto grego para entender que um governo que questiona as políticas da Alemanha e da Europa possa ser mais ouvido do que o nosso que se limitou a dizer esfola cada vez que lhe diziam mata.

Quando o Presidente da Comissão Europeia disse que a Troika tinha, em muitos momentos, ofendido países como a Grécia, Portugal, Irlanda e até a Espanha, o ministro Marques Guedes viu-se grego para explicar que o nosso governo nunca se sentiu ofendido ou desrespeitado. O que é verdade, pois usou a Troika como justificação para fazer o que queria fazer e não teria coragem para fazer sem a cobertura da Troika. Aliás o seu lema foi ir além da Troika, e a verdade é que foram.

O Partido Socialista também se tem visto grego para propor políticas que apontem um caminho de saída para a crise em que vivemos.

Além de terem o mesmo problema que o PS, o Bloco de Esquerda e o Partido Comunista, que sempre foram contra o imperialismo americano, têm-se visto gregos para explicar seu protesto contra a redução da presença de militares americanos nos Açores.

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