Mário Pereira

Quem financia o sistema financeiro?

Ed659_eurosTendo visto “grandes gestores” arruinarem bancos e  empresas sólidas, grandes economistas que não acertam nas previsões, contabilistas e auditores de grandes empresas que não conseguem apresentar contas claras, deixei de ter dúvidas que todos sabemos o suficiente de economia para podermos dar opiniões.

Andamos, talvez demasiado, preocupados em fazer previsões e encontrar explicações, mas a maior dificuldade parece ser conseguirmos fazer as perguntas certas. Só as boas perguntas poderão levar-nos a novas respostas e gerar novas soluções.

A crise do sistema financeiro, que ao que muitos dizem foi criada por ele próprio, parece dever-se ao facto desse sistema se ter tornado um espaço de especulação com o dinheiro dos outros. Salvo raras exceções, quem negoceia nas bolsas não o faz como seu dinheiro.

Todos os dias ouvimos dizer que na Bolsa de Lisboa foram negociadas milhões de euros em ações, obrigações, futuros, derivados ou dívida pública.

Sabendo nós que a Bolsa  de Lisboa nem chega a ser uma formiga entre os elefantes que são as grandes bolsas mundiais, não é fácil imaginar a enorme quantidade de dinheiro que circula nos mercados financeiros.

Se o dinheiro não nasce do nada, as questões que me ocorrem são:

– Donde vem o dinheiro que corre nas bolsas?

– Onde é produzido o dinheiro que os bancos emprestam ao estados e aos privados em Portugal e no mundo todo?

É certo que os bancos centrais fabricam dinheiro, mas não me parece que o façam nessas quantidades absurdamente elevadas.

Os lucros dos maiores bancos mundiais podem ser grandes, quando comparados com a dívida portuguesa, mas a nível global são uma insignificância se comparados com os valores que circulam nos mercados financeiros.

É minha convicção – devo dizer que não fiz contas nem as vi feitas por outros – que as contribuições dos trabalhadores e das empresas, de todo o mundo,  para a segurança social ou fundos de pensões privados são, muito maiores do que todo o dinheiro que movimentado pelo comércio do petróleo, das armas e das drogas.

Esses descontos, que os trabalhadores fazem para as suas reformas, são de facto o grande financiador do sistema financeiro.

Embora a maioria desse dinheiro volte a sair para pagar reformas, no tempo que passa, nesses fundos de pensões, ainda que seja só um mês, acaba investida em ações, obrigações ou dívidas dos estados.

Esta torrente de dinheiro, circula a uma tal velocidade que torna impossível a sua aplicação em fábricas e atividades geradoras de riqueza, tornando-se lógica a sua utilização em investimentos de curto prazo, resultando na enorme especulação financeira que nos sufoca.

O objetivo do sistema financeiro parece ser assegurar uma corrente contínua de dinheiro a entrar. Coisa que só os fundos de pensões e os negócios com a saúde são capazes de assegurar. Daí o crescente interesse dos grupos financeiros na saúde. Ninguém os vê a semear milho, tomate ou melões no Alqueva ou a investir no frango do campo.

No essencial, é indiferente que o sistema para que descontamos, seja público ou privado, porque no final o dinheiro vai ter ao mesmo sítio.

O risco das poupanças serem consumidas na especulação financeira é enorme  e maior ainda nos privados. Ficámos escandalizados porque o BES e a família Espírito Santo têm uma dívida de 7 mil milhões de euros, pois bem o Banco Lehman Brothers quando faliu deixou 619 mil milhões de dólares de dívidas.

Se quisermos libertar a sociedade do peso do sistema financeiro serão necessárias mudanças na gestão da saúde, da segurança social e educação de modo a manter sistemas públicos capazes de prestarem esses serviços sem criarem estes enormes fluxos financeiros usados pelos especuladores.

Se o sistema financeiro se financiasse apenas com os lucros das empresas e dos bancos, ainda que se lhe juntassem os capitais gerados pelos negócios da droga e das armas, tornar-se-ia bem menor e muito menos perigoso.Redação Gazeta da Beira

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