Mário Pereira

Isolacionismos

A maior experiência de isolamento voluntário levada a cabo por um país foi feita pelo Japão entre 1700 e 1900 e, como agora, o grande argumento foi a necessidade de proteger a cultura e as atividades económicas do país.

Os imperadores da época foram radicais e coerentes proibindo todos os contactos contactos comerciais ou culturais com o exterior.

Foi para acabar com as influências estrangeiras que perseguiram os missionários portugueses. História que é contada no filme Silêncio.

Para evitar tentações o imperador, além de proibir os contactos com o estrangeiro, mandou destruir os barcos capazes de navegar no alto mar e ordenou que só poderiam ser construídos barcos capazes de navegar na costa e equipados com um sistema que os afundaria se navegassem para o largo.

Note-se que o Japão, por ser um arquipélago, sempre teve poucos contactos com o mundo exterior, tendo sido os portugueses os primeiros ocidentais a chegar ao Japão  que, naquele tempo,  era uma potência auto suficiente em comida e bens essenciais para a sua população.

Este isolamento, auto imposto, terminaria de forma dramática, com várias guerras à mistura, quando apareceram as tecnologias industriais e  e se desenvolveram os transportes navais que permitiram o comércio internacional em grande escala.

. Nos nossos dias só a Coreia do Norte e Cuba se sujeitaram a um isolamento quase total, não tanto por opção como por imposição externa, e os resultados conhecidos  não são particularmente interessantes nem animadores.

As propostas isolacionistas  do nosso tempo são propostas oportunistas, pois falta-lhe  a coerência japonesa  e enfrentam dificuldades de aplicação devido aos desenvolvimentos tecnológicos entretanto ocorridos: barcos motor, aviões a jato e  sobretudo a internet que sendo  invisível está presente em todo o lado.

As restrições à mobilidade de pessoas e de bens que são a linha política dominante do Presidente Trump e do Reino Unido são oportunistas pois pretendem filtrar o que passa para dentro e para fora  em função de interesses pontuais e particulares.

Felizmente para o mundo todo, os Estados Unidos são um país em que a sociedade é dinâmica e organizada e não tão controlada por um partido político como em Cuba ou na Coreia ou por uma religião como aconteceu no Irão.

As tentações isolacionistas estão em todo o lado e em Portugal a agenda económica de partidos como o Partido Comunista ou Bloco de Esquerda não deixa de ter grandes semelhanças com as política do Trump ou dos conservadores ingleses.

Sair do Euro, controlar as fronteiras, poder aplicar taxas alfandegárias a alguns produtos, etc… é basicamente a mesma coisa.

Sobre a imigração temo que sejamos mais tolerantes apenas porque estamos mais habituados a sair do que a receber pessoas e não tanto por uma crença profunda em valores humanos.

Os comentários que ouvimos sobre os ciganos ou sobre os negros, em alguns bairros de Lisboa, dão para imaginar qual seria a nossa reação se tivéssemos um vizinho negro e outro muçulmano.

O isolamento da humanidade já é um facto físico mas Trump, bastantes  políticos e  muitas pessoas ainda não perceberam que estamos isolados aqui neste pequeno planeta .

A Terra é um lugar demasiado pequeno quando a olhamos à escala do universo e não parece que no sistema solar exista alguém capaz de nos ajudar nem de comprar as nossas exportações e os que houver  para além disso demorarão tanto tempo a cá chegar que é pouco provável que cheguem a tempo de nos ajudarem.

Em vez de nos perseguirmos o melhor será mesmo ajudar-mo-nos uns aos outros.

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