Mário Pereira

Um juiz com pés de barro (Crónicas do Olheirão)

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O Sr. Juiz Carlos Alexandre tem sido nos últimos dez anos responsável por alguns dos processos judiciais mais famosos que aconteceram em Portugal, basta lembrar que foi ele quem mandou prender o ex-primeiro-ministro José Sócrates  e o Dr. Ricardo Salgado, que durante cerca de vinte anos foi o banqueiro mais poderoso do país.

Este homem, que muitas vezes foi chamado de super juiz, conseguiu durante anos manter-se calado, granjeando grande respeito junto de todo o povo.

Talvez por tanto lidar com os jornalistas, dado o interesse da comunicação social pelos processos que tutela, deve ter achado que não era justo serem só os acusados dos crimes a terem acesso ao jornais e à televisão e, vai daí, resolveu dar, no espaço de uma semana, uma entrevista à SIC e outra ao Expresso.

Não vi a entrevista que deu à SIC mas li a que foi publicada pelo Expresso e  nesta  Sr. Juiz insiste nas suas dificuldades económicas, dizendo, entre outras coisas, que precisa de trabalhar  aos fins de semana para compor o orçamento, e que essa até será um razão porque nunca quis ir para outro tribunal onde não precisasse de trabalhar ao fim de semana.

Os lamentos do Sr. Juiz só me recordaram o Dr. Cavaco Silva quando disse que sua reforma não dava para as despesas.

No Expresso o Sr. Juiz Carlos Alexandre explica-se dizendo que recebe líquido  por mês 4200 euros e que a sua esposa recebe cerca de metade do que ele ganha.

Disse também que tem encargos de 3000 euros por mês com empréstimos de meio milhão de euros que gastou em três casas: uma onde mora na região de Lisboa, um apartamento no Algarve e a casa que era dos pais na sua terra natal.

O Sr. Juiz fala destas contas para dizer que é muito honesto, por oposição às pessoas que tem de julgar.

Coisa óbvia e necessária é que um juiz seja honesto e que quem é acusado tenha feito algo de errado. Quando assim não for convirá fechar os tribunais.

O Sr. Juiz parece estar demasiado habituado a olhar para os ricos desonestos e e para os advogados deles, que por definição devem ser mais ricos do que ele. No tempo em que ele terminou o curso de direito dizia-se que quem queria ser rico devia ir para  advogado (agora isso não é tão boa ideia). Ao escolher ser juiz sabia quanto ia ganhar e que tinha um emprego muito bom para o resto da vida mas não seria tão rico como outros colegas de curso.

Uma pessoa que no ano de 2016 em Portugal, tenha por profissão ser juiz ou outra qualquer, com um agregado familiar de cinco pessoas e com rendimentos  líquidos de seis mil euros por mês se lamente da sua situação financeira e a exiba, certamente, perdeu a noção do que é a vida da maioria das famílias portuguesas que vivem com menos de mil euros por mês.

Ao Sr. Juiz aconteceu o mesmo que a muitas pessoas das classes altas, vivendo num círculo restrito e fechado perderam a ligação à comunidade e não entendem as pessoas que vivem com muito menos dinheiro do que eles.

As contas do Sr. Juiz parecem indicar que ele não terá o equilíbrio e o bom senso necessário para decidir processos tão complexos e por onde circula tanto dinheiro.

O meu pai costumava dizer que mais difícil do que ganhar dinheiro é saber gastá-lo. As contas do Sr Juiz dão-lhe inteira razão.

Sem dúvida, que nossa região de Lafões 99% das famílias vivem com menos dinheiro mas certamente 99% delas são mais capazes de adequar os seus gastos aos recursos disponíveis do que um super juiz, que afinal como todos nós tem pés de barro.

Se o Sr. Juiz queria, com esta entrevista, convencer-nos da sua seriedade e modéstia só conseguiu deixar um sabor amargo.

Esta história vem reforçar a minha desconfiança relativa aos super homens, sejam eles juízes, políticos, banqueiros, gestores ou treinadores de futebol. Cada vez aprecio mais pessoas imperfeitas  que fazem muitas coisas bem feitas mas não deixam de fazer coisas erradas.

Mário Pereira – Setembro 2016

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