Mário Pereira
Um cargo à medida

Soubemos por estes dias que Durão Barroso foi nomeado presidente não executivo do banco Goldman and Sachs.
Ele veio justificar-se dizendo que aceitou para não ser acusado de viver da política.
Acontece que a União Europeia lhe paga uma reforma suficiente para não precisar de fazer mais nada ou, como o próprio Durão Barroso já fazia, andar por aí a dar umas aulas e a fazer conferências. O que certamente lhe garantia mais do que o salário mínimo nacional.
Por muito que ele se torça não deixa de ser legítimo perguntar se foi contratado para disponibilizar os seus contactos na Comissão Europeia e junto dos governos dos vários países ou como pagamento de serviços já prestados.
Presidente não executivo parece ser o que ele já foi na Comissão Europeia, embora fosse suposto que ele era executivo e se preocupava em resolver os problemas em que a Europa se foi enrolando.
É sabido que a Goldman and Sachs tem mais presidentes e vice presidentes não executivos que porteiros pois o Dr. Durão Barroso e afins gostam e títulos sonantes e não seria tão chique ter um cargo de assessor, que na prática é o que ele vai ser.
O Dr. Durão Barroso está muito habituado a dobrar-se perante os importantes e os poderes de facto que se encontram instalados no mundo e em particular na Europa, por isso ganhar umas massas para emprestar o seu nome a um dos maiores bancos mundiais e dos que mais tem beneficiado da desregulação financeira, que tem vindo a minar a Europa, não lhe causa problemas de coluna nem lhe coloca nenhum dilema moral.
Durão Barroso sempre conduziu a sua carreira sem problemas morais. Aliás já foi assim quando deixou o governo para ir para a Comissão Europeia e na guerra do Iraque.
É muita pena, que não lhe passe pela cabeça a possibilidade de estar a desonrar as instituições europeias e em última instância a União Europeia ao aceitar este cargo. Mas é isso que ele está a fazer.
Ele também não percebe que ao aceitar determinados cargos perdia outras hipóteses. Ao escolher ser Presidente da Comissão Europeia devia saber que isso implicava deixar de poder fazer outras coisas. Entre elas, certamente, ser empregado dum banco ou duma empresa multinacional.
Ninguém está a ver o Presidente Obama daqui a um ano como colega do Durão Barroso no Goldman and Sachs ou a ser assessor duma empresa de venda de armas.
Esta atitude de Durão Barroso também mostra qual era o entendimento que ele fazia do papel e da importância da Comissão Europeia e até da própria União Europeia e por si só explica muitas das razões que os povos têm para não acreditarem na União Europeia e nos seus dirigentes.
Eu acredito que no seu íntimo Durão Barroso olha para o seu novo tacho como um passo em frente na sua carreira.
A sua esposa, num comício em Tondela há alguns anos, disse que ele estava para a política como o cherne está para os peixes.
De facto ele faz parte da nata de um certo tipo de políticos para quem o lema é: se é legal podemos fazer. Esquecendo completamente que o seu papel enquanto políticos, mais o que obedecer às leis existentes, é conseguir que haja leis melhores.
Não via nenhum problema se Durão Barroso quisesse ser dirigente da Caixa de Crédito Agrícola da terra do avô dele. Isso sim seria colocar a sua experiência ao serviço de pessoas concretas que não têm voz na Europa ou sequer em Lisboa.
Cargos não executivos parecem ser o ideal para as empresas cooptarem os políticos. Temos a ex Ministra Maria Luís Albuquerque como não executiva de um banco inglês que fez negócios manhosos com Portugal enquanto foi ministra das finanças e temos também Paulo Portas como não executivo na Mota e Companhia.
A importância destes cargos já ficou clara quando soubemos o papel dos administradores não executivos do Grupo Espírito Santo, que eram pagos para não verem nem perguntarem nada.
Mário PereiraRedação Gazeta da Beira
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