Mário Pereira

Sair para lado nenhum

Sair para lado nenhum

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O referendo no Reino Unido sobre a permanência ou não na União Europeia coloca algumas questões interessantes e que em boa medida são semelhantes às levantadas pela candidatura de Donald Trump nos Estados Unidos.

É verdade que tanto a União Europeia como os Estados Unidos têm muitos problemas de falta de democracia e de distribuição de rendimentos. Como já disse o nosso Presidente da República sobre Portugal também lá as elites têm vindo a distanciar-se do povo e a isolar-se, parecendo apenas preocupadas em manter o poder político e económico.

As campanhas de Trump e dos partidários da saída do Reino Unido da UE mostram uma argumentação estranha e irracional, pois não têm nada a oferecer que possa tornar a vida das pessoas melhor. Recusam a situação atual, sem que tenham algo melhor a propor.

Há uma grande desilusão das pessoas que sentem que a porção de riqueza de que usufruem está muito abaixo das suas expetativas.

As elites políticas e económicas em vez de assumirem que isso se deve a políticas económicas e financeiras erradas procuram atribuir as responsabilidades aos mais pobres de todos: os imigrantes, fazendo deles o inimigo externo culpado pelos seus insucessos.

As pessoas cuja vida não corre da forma que tinham previsto tendem a aderir a este tipo de argumentação com facilidade.

O discurso contra os imigrantes não visa expulsá-los nem evitar a sua entrada, na verdade procura criar um bode expiatório e ao mesmo tempo manter essas pessoas como uma reserva de mão de obra barata, desprovidas de direitos básicos como a saúde ou a educação.

No fundo o que as elites querem é que os imigrantes trabalhem mas não atrapalhem nos serviços de saúde ou mais tarde com as reformas.

O que os pobres desses países ainda não perceberam é que a existência de imigrantes ilegais fará com que os seus salários também sejam mais baixos.

As elites e se quiserem todas as pessoas que cresceram no século passado têm dificuldade em compreender um mundo que se tornou muito mais global e mais pequeno.

As novas tecnologias, nomeadamente a Internet e as companhias aéreas lowcost estão a ajudar a criar um mundo novo e realmente global.

Não por acaso os estudos dizem que no Reino Unido os jovens com menos de 35 anos votaram esmagadoramente pela permanência.

Os votos a favor da saída do Reino Unido da União Europeia, onde na verdade nunca esteve de corpo e alma, são basicamente votos contra este novo mundo.

Foi curioso ver na televisão, no dia a seguir à votação, a desilusão dos votantes pela saída por não ter acontecido nada e ouvir o líder da campanha pela saída dizer que nada mudará a curto prazo.

Apesar de todas as dificuldades que isso coloca a muitas pessoas       o mundo está diferente do que era há 20 anos em dois campos importantes: a tecnologia e a economia.

Por muitos discursos que se façam contra estas mudanças elas vão continuar, porque em larga medida ocorrem num plano que já não corresponde à arquitetura dos sistemas políticos atuais.

O dramático da saída do Reino Unido da União Europeia é que é uma saída para lado nenhum. O mais provável é ser assinado um tratado que mantenha o livre comércio e a livre circulação das pessoas, sem formalmente o Reino Unido estar na UE, o que na verdade não é muito diferente do que acontece agora.

A UE também mudará porque já não responde aos anseios de muitas pessoas e o mundo já não é o mundo para que foi criada.Redação Gazeta da Beira

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