Mário Pereira

Quarenta anos que valeram a pena

Ed653_CronicasComo acontece em todas as transformações sociais, nem todas as pessoas terão saído a ganhar com o 25 de Abril, mas não há dúvida que este tem sido um dos melhores períodos da história de Portugal

As situações que vemos hoje na Ucrânia e na Síria e o que aconteceu na antiga Jugoslávia há poucos anos atrás, mostram que não basta as pessoas serem educadas e cultas para conseguirem chegar a soluções pacíficas para as suas disputas. Há que ter a sorte de muitos astros estarem alinhados, seja por boas ou más razões. Nós tivemo-la.

É fácil compreender que alguém que há quarenta anos era jovem ou um adulto saudável e agora tem um passivo de vários desgostos pessoais e dores diversas, que os anos trouxeram, possa dizer que a vida era mais agradável.

Pelo contrário, tenho grande dificuldade em ouvir pessoas, que se consideram cultas, algumas até são professores universitários, dizerem que antes de 1974 a vida era melhor do que agora.

Acredito que para algumas pessoas a vida num regime ditatorial pudesse ser mais confortável pois não seriam perturbados pelo incómodo da democracia nem  com essa coisa, para eles absurda, de os mais fracos também terem direitos.

Ouvir alguém como o Dr. Durão Barroso gabar a excelência da liceu que frequentou antes do 25 de Abril não é absurdo porque é a explicitação do seu programa político.

Ele faz, claramente, parte do grupo que considera a desigualdade entre as pessoas uma coisa boa e um objetivo político.

O combate às desigualdades sociais é um dos pontos em que mais ficou por fazer e, por si só,justifica uma nova revolução ou o aprofundamento da que foi iniciada há 40anos.

Apesar de tudo o que se diz e da nossa incompetência coletiva, os últimos 40 anos constituem, muito provavelmente, o mais longo período da história de Portugal de paz e de desenvolvimento contínuo.

Só por isso já seria motivo para festejar.

Uma das coisas que se associa à democracia atual é a falta de grande lideres políticos. Não sei se isso é uma maldição ou uma sorte.

Por mim prefiro um governo de homens banais a um governo de lideres inspirados e mobilizadores.

Um governo de homens que não são exemplos de coragem e até de homens com medo não é tão mau como parece.

Talvez a grande qualidade da democracia seja possibilitar que o poder possa ser exercido por homens banais.

Tendo a acreditar que o que consideramos uma fraqueza do regime democrático seja afinal uma das suas forças.

Uma forma de governo que permite dispensar os lideres carismáticos, quase sempre homens perturbados,  que exercem o poder convencidos de que o seu dever é conduzir o povo a algum o paraíso e possibilita que o poder seja exercido por homens e mulheres como nós, é, necessariamente, boa.

Se, neste momento, a  Rússia não tivesse um lider que se julga imbuído da missão de reconstruir a grande Rússia, seguramente, a situação na Ucrânia não seria tão perigosa.

A democracia não resolve todos os problemas que as pessoas arranjam, mas tem menos tendência a arranjar grandes problemas do que os grandes lideres.

É evidente que nestes quarenta anos não se resolveram todos os problemas mas a verdade é que temos algumas coisas ao nível do melhor que se faz na Europa.

Num tempo em que tanto se critica o estado  e os serviços públicos, não deixa de ser curioso que os sectores em que Portugal mais evoluiu tenham sido a educação e a saúde, onde o peso dos serviços públicos é esmagador.

Se a economia privada tivesse progredido tanto como os serviços públicos de saúde e educação teríamos hoje uma país alinhado com a média da União Europeia.

Já me passou a fase de acreditar em revoluções capazes de resolverem todos os problemas dos homens, mas acredito que a democracia precisa de um novo impulso, que só pode vir dos jovens que, em vez de se afastarem da política, ganhariam em envolver-se e lutar por aquilo que lhes faz sentido.Redação Gazeta da Beira

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