Mário Pereira

Crónicas do Olheirão

Notas sobre programas eleitorais

Os programas eleitorais dos diversos partidos políticos, que começam a vir a público  continuam focados num lógica de resposta às necessidades das pessoas que foram identificadas por  especialistas diversos.

No meu trabalho com pessoas com deficiência e outras situações de grande vulnerabilidade a abordagem tradicional, que ainda predomina entre nós, assenta na mesma estratégia. Submetem-se as   as pessoas a avaliações feitas por muitos especialistas: médicos, psicólogos, assistentes sociais e diversos terapeutas.

A função desse diagnóstico multi-disciplinar é determinar as necessidades da pessoa, para a partir daí os técnicos elaborarem um programa para responder a essas necessidades.

Na generalidade dos municípios existe uma Rede Social, que junta muitos especialistas,  cujo trabalho mais importante também tem sido fazer o diagnóstico social do concelho, que é sobretudo o levantamento das necessidades.

É geralmente reconhecido que os programas de apoio aos pobres não conseguem resultados proporcionais ao dinheiro neles investido. Sem dispor de elementos que permitam afirmar isto com rigor, sou levado a crer que o fator determinante do insucesso tem sido centrarem-se naquilo que os técnicos pensam serem as necessidades das pessoas e não no que elas querem.

Contudo, nas últimas décadas tem vindo a consolidar-se outra forma de avaliar as situações  que consiste, simplesmente, em perguntar às pessoas o que querem para o seu futuro.

Deixou-se de procurar saber o que a pessoa precisa e o que importa  é saber o que a pessoa quer para o seu futuro. Depois os apoios a prestar são função do que ela quer e não daquilo que os técnicos pensam que ela possa precisar.

As evidências. que se vão acumulando, mostram que as pessoas melhoram os seus desempenhos pessoais e as relações com as sua famílias e as comunidades em que vivem quando os apoios fazem  sentido para os seus projetos de vida e os seus sonhos.

O professor Miguel Angel Verdugo da Universidade de Salamanca afirma ser necessário aprendermos a pensar da direita para a esquerda.

Todos nós estamos  habituados a pensar, como lemos, da esquerda para a direita, ou seja de trás para a frente  e precisamos de pensar da direita para a esquerda ou seja da frente para trás. Primeiro teremos imaginar onde queremos chegar e depois pensar nos passos que temos que dar para lá chegar.

António Costa dizia há algum tempo que quando pensamos como a direita governamos com a direita. O grande problema é que a forma de pensar a política é essencialmente a mesma dos partidos desde direita à esquerda.

Ele e os outros políticos esquecem uma coisa básica: as pessoas não se movem para satisfazer aquilo que os outros acham que são as suas necessidades.

Quantos de nós já ouvimos outras pessoas dizerem-nos: tu precisas disto e daquilo e nós não fazemos. Começamos a fazer isso logo com  os nossos pais, depois com os professores, os médicos, os polícias e também com os políticos.

Não haverá um pessoa adulta que nunca tenha dito de uma criança, de um jovem, ou de um pobre: para o que é preciso não se mexe mas para o que ele quer até corre.

Toda a gente da ponta direita à ponta esquerda diz que precisamos de crescimento económico para resolver os nossos problemas.

Vivendo nós confinados a um planeta onde não se fabricam coisas como tempo, ar ou água, que visto do espaço é muito pequeno, e sem outros por perto para onde possamos estender-nos não vejo como poderemos resolver os nossos problemas crescendo até ao infinito.

Mais do que num mundo sempre a crescer eu preferia viver num mundo mais harmonioso e sem desigualdades iníquas.

Mais do que viver num mundo com mais bens materiais eu preferia viver num mundo onde as pessoas sejam mais respeitadas.

Mais do que ter escolas onde as crianças podem ficar doze horas por dia, eu preferia viver num país em que os pais tivessem tempo para cuidar dos seus filhos e não precisassem de os deixar na escola mais do que seis horas.

O cidadão comum atualmente vive para trabalhar (pois o objetivo do seu trabalho é enriquecer a empresa ou organização em que trabalha) eu , cá por mim, preferia viver num mundo em que as pessoas só trabalhassem para poderem ter uma vida mais confortável e mais harmoniosa.

Todos os partidos pensam que as pessoas precisam de mais dinheiro e menos impostos para poderem comprar carros e casas novas e para irem comer mais vezes fora. Esquecendo que há outras necessidades humanas fundamentais como: sentir-se respeitado e valorizado, sentir orgulho no país a que pertencemos, ter mais tempo para estar com a sua famíliaRedação Gazeta da Beira

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