Mário Pereira
Crónicas do Olheirão
Onde anda o dinheiro da Fundo da Segurança Social?
Anda por aí um enorme alvoroço com a proposta do PS para utilizar parte do Fundo da Segurança Social na reabilitação urbana.
O que eu estranho é que ninguém pergunte onde tem andado esse dinheiro até agora. Como não acredito que esteja em notas num cofre na sede da Segurança Social é óbvio que tem sido investido nas bolsas internacionais.
Numa lógica de longo prazo faz mais sentido e, pelo menos aparentemente, é mais seguro, que esse dinheiro esteja aplicado em imóveis nas cidades do que em ações na bolsas.
Os capitalistas conseguiram essa coisa brilhante, que foi convencer os trabalhadores que a melhor forma de garantirem as suas reformas é entregarem-lhe o dinheiro dos seus descontos para eles investirem na especulação financeira.
Este é o grande equivoco dos sistemas de reformas à escola mundial.
É minha convicção que a maioria do dinheiro que anda a circular nas bolsas de todo o mundo e a alimentar a especulação financeira é dinheiro cuja finalidade seria garantir as reformas dos trabalhadores, mas que um dia vai desaparecer numa crise das bolsas, com muito maiores prejuízos para os trabalhadores do que para os capitalistas
Continuo a acreditar que os descontos feitos pelos trabalhadores de todo o mundo, com o objetivo de garantirem uma reforma no futuro, são a grande fonte de liquidez do sistema financeiro internacional, muito mais que lucros de todas as empresas do mundo.
Se a nível mundial uma média de 30% do custo com salários for canalizada para estes fundos, (pelo menos nos países desenvolvidos será assim) tenho a certeza de que não há outro negócio que gere tanta liquidez. Nem a droga ou os negócio de armas geram essa liquidez e são muitíssimo mais arriscados.
Uma coisa diferente seria a Segurança Social ter participações em empresas numa perspetiva de longo prazo e na busca de rentabilização dessas empresas O problema é que hoje os negócios nas bolsas não têm relação com o valor das empresas mas apenas com o valor dos títulos, chegando ao ponto de haver esquemas que permitem aos especuladores ganharem dinheiro quando as ações perdem valor.
Assim, espero que o PS ganhe as eleições e que em vez de aplicar 10% do Fundo da Segurança Social na economia aplique muito mais e retire esse dinheiro dos circuitos da especulação.
É notável que até pessoas genuinamente empenhadas na luta contra a economia de casino e a especulação capitalistas defendam, com toda a sua energia, que o dinheiro dos seus descontos está muito mais seguro investido em ações nas bolsas do que em prédios na baixa de Lisboa. Do mesmo modo é estranho ouvir pessoas que dizem ter medo de fazer um depósito a prazo num banco mostrarem-se muito preocupadas com essa possibilidade.
E já que esta proposta gerou tanto alvoroço seria muito interessante e educativo que o governo publicasse num jornal nacional a lista dos investimentos do Fundo da Segurança Social: que ações detém, de que países comprou dívida pública, etc… Talvez se esses dados fossem conhecidos o alarido se virasse ao contrário.
Imagino o susto que apanharíamos quando víssemos que o dinheiro, que deveria garantir as nossas reformas, está aplicado em fundos de investimentos com sede em paraísos fiscais, que são administrados por alguém que ninguém conhece, que com esse dinheiro negoceia em ações nas bolsas de todo o mundo e que, muito provavelmente, até usa esse dinheiro para especular contra a dívida portuguesa de modo a fazer subir os juros que pagamos ao estrangeiro.
Acresce que a experiência dos últimos anos mostra que apesar de, pelas mais variadas formas, terem sido retirados aos trabalhadores dezenas de milhares de milhões euros para dar aos detentores do capital o investimento na economia real diminuiu, razão pela qual faz também sentido reduzir os descontos dos trabalhadores mas não faz qualquer sentido reduzir os dos patrões.
Se o governo quiser dinamizar a economia deverá aumentar o dinheiro de que os pobres e os trabalhadores dispõem pois eles vão gastá-lo e dinamizar a economia real. Pelo contrário os capitalistas quando têm mais dinheiro só dinamizam a especulação financeira.
Mário Pereira Junho 2015Redação Gazeta da Beira
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