Mário Pereira
Haverá bastonadas boas e bastonadas más?
Crónicas do Olheirão

Haverá bastonadas boas e bastonadas más?
O grande escândalo em Portugal, neste final do mês de maio de 2015, foi o facto de um polícia ter batido num adepto do Benfica sem razão aparente.
Pior que ver um polícia bater em cidadãos, que aparentemente não fizeram nada que justifique a ação do polícia, foi ver na televisão o desfile de comentadores condenando o polícia.
A violência do polícia é um ato condenável e espero que tenha a devida punição. Quanto aos comentadores e jornalistas, que tanto criticaram o polícia, proponho que os fechem no Coliseu, são tantos que não daria um sítio mais pequeno, e os obriguem a ver os comentários que fizeram, ao longo dos anos, apelando a uma ação mais musculada e repressiva das forças policiais.
Durante anos só se ouviam apelos à policia para ser forte e aos juízes para aplicarem penas mais severas, mesmo em situações de pequena criminalidade.
Deveriam os comentadores, jornalistas e até políticos verem também as muitas notícias de abusos das forças policiais, que eles pura e simplesmente desvalorizaram ou até justificaram.
Eu tenho muita pena de o dizer, mas sinto que que a reação a esta agressão da polícia a um cidadão e a falta de reação face a muitas outras agressões policiais tem uma forte componente racista.
Tenho as maiores dúvidas que o coro dos protestos fosse tão intenso se o cidadão que foi agredido em Guimarães fosse negro ou cigano ou mesmo se fosse beneficiário do RSI.
Há algumas semanas participei num encontro em que estavam pessoas que moram ou trabalham no Bairro da Cova da Moura e na Quinta do Mocho que são habitados sobretudo por imigrantes originários de Cabo Verde, Guiné e S. Tomé.
Entre outras coisas aprendi que no Bairro da Cova da Moura a maioria das pessoas de raça branca que lá moram são originárias de Castro Daire.
A descrição que essas pessoas fizeram de várias intervenções policiais nesses bairros, algumas chegaram a terem direito a aparecerem de fugida nos noticiários televisivos, fazem parecer a cena de Guimarães uma brincadeira.
Aqueles relatos referiram agressões de crianças com balas de borracha, pessoas agredidas, ao ponto de precisarem de tratamento hospitalar, e presas apenas porque foram à esquadra perguntar por um morador que tinha sido detido, provocações várias incluindo insultos racistas são o pão nosso de cada dia dos imigrantes africanos.
Quando falo de racismo refiro a diferente valorização e condenação que se faz das situações em função de quem são as vítimas.
O azar do polícia de Guimarães foi ter batido em brancos com alguns conhecimentos e já agora também que o Benfica tenha ganho o campeonato nesse dia.
Se o campeonato se decidisse apenas na última jornada, quase de certeza, haveria tanta discussão sobre os jogos que ninguém ligaria às bastonadas do polícia.
Não deixa de ser interessante que algumas pessoas que condenavam o polícia se esforçassem na mesma frase por justificar os atos de vandalismo de alguns adeptos benfiquistas.
Também não deixa de ser interessante que muitas das pessoas que exigem o despedimento do polícia de Guimarães defendam com igual ardor que uma pessoa possa estar presa meio ano sem uma acusação formal, que em boa verdade é o que acontece com o eng. José Sócrates.
O uso desproporcionado da força pelas forças policiais e o recurso à prisão já provaram não serem eficazes na criação de comunidades mais seguras. O melhor exemplo são os Estados Unidos onde as condenações a prisão perpétua ou à pena de morte são vulgares e apesar de serem o país com maior percentagem de cidadãos presos a criminalidade não só não diminuí como tem aumentado.
Recomendaria aos políticos e comentadores que leiam o que dizem os candidatos da direita do Partido Republicano às eleições presidenciais nos Estados Unidos. Até eles estão a por em causa este modelo de repressão, porque o que tem acontecido é que muitas pessoas que em jovens foram presas por pequenos delitos nunca mais conseguiram reintegrar-se passando a vida entre um tempo na prisão e um tempo fora, levando a que hoje nos Estados Unidos se fale de uma geração marginal e destruída pelas prisões.
Maio 2015 /Redação Gazeta da Beira
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