Mário Pereira
Notícias dos dias que correm
O Jornal Expresso do passado dia 3 de Abril de 2015 trazia na pagina doze do caderno de economia algumas notícias sobre as remunerações das administrações das empresas cotadas na Bolsa de Lisboa, das quais destaco:
– A REN quer dar ao trabalhadores um aumento de 0,8% mas a administração custará 26% mais.
– Os CCT subiram os gastos salariais com a administração em 83%, tendo a remuneração anual do CEO Francisco Lacerda passado de 175 mil euros para 450 mil, mais 175%.
– A EDP gastou com o conselho de administração executivo mais 15% do que em 2013, sendo que António Mexia, o presidente executivo, auferiu 1,15 milhões de euros mais 16% do que em 2013.
– Na GALP as remunerações com a administração subiam 9% em 2014, cabendo ao presidente executivo 1,72 milhões de euros, mais 4,7% do que em 2013.
– A ALTRI subiu os custos com os administradores em 31%.
– A EDP Renováveis aumentou os administradores em 16%.
Não é fácil acreditar mas são empresas portuguesas.
Mais fácil é ver algo de estranho nisto, pois este é o mesmo país em que o desemprego aumentou e em que a média de salários nos novos contratos de trabalho celebrados em 2014 não foi além de 580 euros.
Quando o governo diz que a economia está a recuperar e que a a situação está melhor deve estar a pensar nos administradores destas e doutras empresas.
Embora alguns governantes possam nem ter consciência disso o objetivo das políticas que prosseguem é assegurar a transferência de mais rendimentos do trabalho para o capital, o que na prática significa transferir mais riqueza para o 1% das pessoas mais ricas.
O aumento das administrações das empresas muito acima dos aumentos dos trabalhadores é um fenómeno mundial e torna-se possível porque os grupos económicos conseguiram que os estados e os governos dos diversos países assumam sobretudo o papel de garantes dos seus negócios e dos seus lucros.
A somar a estes dados vamos sabendo que há empresas que pedem dinheiro aos bancos para pagarem dividendos aos seus acionistas e até os prémios aos seus gestores.
Não deixa de ser extraordinário que apesar das empresas estarem fortemente endividadas, a percentagem dos lucros reinvestida nas empresas seja, regra geral, mínima quando comparada com o que é distribuído pelos acionistas.
Aqui chegados as questões não são só de legalidade ou de teoria económica mas são sobretudo de ordem moral.
O pouco respeito pelos trabalhadores surge como natural, mas é caricato que os mais ricos também não mostrem respeito pelas empresas, que cada vez mais são usadas apenas como instrumentos para conseguir a melhor remuneração do capital.
A Comissão Parlamentar sobre o BES veio mostrar como no emaranhado de empresas do Grupo Espírito Santo algumas foram criadas apenas para esquemas cujo objetivo era enganar os outros acionistas, o público em geral, o estado ou todos.
A questão não pode ser a de saber se as empresas e as pessoas cumprem a lei, mas sim saber se o que fazem está certo ou errado.
As pessoas que se beneficiam com estas decisões serão muito estimáveis, certamente se orgulharão dos seus valores morais e de serem muito solidárias para com os pobres.
Independentemente destas questões morais, tenho dificuldade em compreender como elas conseguem dizer a trabalhadores precários, alguns a quem pagam o salário mínimo ou ainda menos, para se empenharem nos objetivos da empresa ou como algumas delas conseguem escrever nos jornais ou irem à televisão defender a austeridade para os trabalhadores e os pobres e dizerem, sem se rirem, que a culpa da crise é dos pobres e de quem trabalha porque temos vivido acima das nossas possibilidades.Redação Gazeta da Beira
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