Mário Almeida

AFINAL, O QUE É AUSTERIDADE?

Ed679_p24_austeridadeO discurso político em Portugal e um pouco por toda a Europa está contaminado por um debate estrambelhado e sem sentido. Que não ajuda em nada ao esclarecimento e só cria confusão e dúvidas na cabeça das pessoas.

Tudo a propósito da austeridade!

Toda gente fala de austeridade com uma autoridade académica e uma presunção que chega a assustar. Sempre com argumentos sustentados em estudos, em números, em opiniões e em resultados.

“Veja-se o caso da Grécia e o resultado que deu!” Dizem alguns.

“Veja-se o caso de Portugal, Irlanda e de como saíram do programa com sucesso!” Dirão outros.

Ou seja, para uns ela é necessária, para outros já chega. Como dirá o povo, no meio é que estará a virtude!

Parece que de um lado estão todos aqueles que concordam, valorizam e gostam de políticas de austeridade. Do outro lado, pelo contrário, estão todos os outros, isto é, aqueles que estão contra o sofrimento do povo, contra as medidas restritivas, contra o desemprego e por aí fora. Como se defender uma política austera é defender o desemprego, é defender o “grande capital”, é defender o empobrecimento dos povos, é defender o fim do Serviço Nacional de Saúde, enfim é defender o mal, no sentido mais rigoroso do termo.

Por outro lado, todos os outros só querem o bem das pessoas. Defendem o povo, defendem o Serviço Nacional de Saúde, defendem o emprego, no fundo, defendem os mais desfavorecidos!

Aqui reside justamente o equívoco. Não há político que não prefira dar no lugar de receber. Não há político que não prefira distribuir no lugar de recolher.

No meu ponto de vista o erro está justamente em pensar que estar a favor ou contra austeridade é uma questão de opção, em que de um lado estão os bons e do outro estão os maus.

Na verdade, filtrando todas as informações que vamos lendo na comunicação social e ouvindo no debate público, a austeridade repudiada por muita gente não é, nem mais nem menos, que gastar apenas aquilo que se produz, ou seja, mais rigor nas contas públicas e maior responsabilidade na utilização dos dinheiros públicos. Parece-me que esta devia ser uma exigência do povo todo e não, como parece ser, um lamento para muitos.

Existe uma cultura no nosso país que vai fazendo escola. A de acreditar que o Estado não deve ter exatamente o mesmo comportamento que qualquer pessoa tem com as contas domésticas. Ninguém consegue viver indefinidamente a gastar mais do que aquilo que ganha, como parece ter sido o caso de Portugal e de muitos outros países da europa. Mas há muita gente que acredita que o estado não deve ter o mesmo comportamento com as contas públicas.

Já ouvi várias vezes o argumento de que o estado não deve funcionar como as nossas contas domésticas e que a existência de défice público é uma condição para haver melhor Serviço Nacional de Saúde, mais emprego, melhor educação e mais cultura.

Sendo certo que o défice é sempre suportado pelo endividamento, é de crer que, mais dia menos dia, a conta aparece para pagar. E aí é o cabo dos trabalhos!

É bom todos pensarmos nisso.

Fiquem bem!

Mário AlmeidaRedação Gazeta da Beira

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