Maria Salete Lima Vaz

Gerontofobia: o medo de envelhecer...

Texto de Maria Salete Lima Vaz*
(*Psicóloga Escolar e Clínica/Técnica Superior na empresa  Agrupamento de Escolas de Sabugal)

 

O medo de envelhecer talvez seja a condição maior que determina a sociedade na exclusão dos velhos.

As pessoas em processo de envelhecimento, representam uma ameaça constante à onipotência. Excluindo-os, não há necessidade de defrontar-se com a realidade. É difícil para a humanidade assumir a sua própria fragilidade a efemeridade.

O que está por detrás deste medo?

Que imagem temos da velhice?

Desde pequenos, através da família, da escola, do meio social, incorporamos a velhice, o velho, como algo desagradável. Aprendemos e “apreendemos” associar o velho (pessoa) com a morte. Em geral, acompanhamos a morte dos nossos avós…Bisavô e Bisavó, muitas vezes nem conhecemos. Fica interiorizado que: avô(ó), bisavô(ó), é o fim; neto(a), bisneto(a) é o começo, a continuidade, a expressão maior das raízes de uma família.

Eis aí o ponto cego:

“A visão do morto rompe com a negação mais importante e universal: a finitude do homem”. ( Abuchaim, 1991)

Esta negação universal é descrita por Beauvoir, ao aludir o fato de que na América a palavra Morto foi excluída do vocabulário. Segundo ela, fala-se em caro ausente, assim como evita-se falar em idade avançada, em qualquer circunstância.

A negação à velhice está movida em grande parte, ao que ela representa, que é o oposto da “cultura ilusória” da juventude eterna.

“É curioso como, com o avançar dos anos e o aproximar da morte, vão os homens fechando portas atrás de si, numa espécie de pudor de que o vejam enfrentar a velhice que se aproxima”.

De que pudor o poeta Vinicius de Morais nos fala?

Talvez fale do pudor e da coragem de ser velho e desfrutar deste período com a dignidade que lhe é peculiar?

Os povos do Oriente não lutam contra a morte. A negação não faz parte de sua cultura. O velho é respeitado. Costumam sorver deles a sabedoria, com o objectivo de aprimorar as gerações futuras. Não costumam chorar e nem lamentar a morte. Ajudam seus velhos no momento final, ficando próximos e escutando.

Lembrança puxa lembrança e seria preciso um escutador infinito.

Nem tão infinito, pois aquele que escuta é finito e é mortal. Apenas, aquele que “escuta” como no Oriente, é capaz de absorver do velho o que ele tem de melhor:  a experiência vital.

O infinito, talvez seja, a possibilidade de aproveitamento da experiência individual daquele que se vai, em prol daquele que vem.

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