Manuela Goucha Soares*

Falar de cancro é lembrar a Carmo

No último aniversário da Carmo dei-lhe os parabéns com uns dias de atraso, dizendo-lhe ‘para o ano redimo-me e telefono-te no dia’. O ‘para o ano’ chegou e eu não telefono porque a Carmo já cá não está. O cancro é uma espécie de terrorista suicida. Anda anos no nosso corpo. Um dia encontra uma brecha e explode. Há quem o subestime. Quem se iluda e o veja como uma doença comum.

Não é uma doença comum. É a doença responsável por mais mortes antes dos 70 anos no nosso país, e a que mais tem crescido desde a década de 60 do século passado (confira dados PorData).

Não é uma doença comum porque, muitas vezes, só dá sintomas quando é tarde demais. Os rastreios regulares e atempados são o único seguro de vida contra o cancro. E a sorte também. A sorte do tumor não ser de progressão rápida, a sorte do tumor não ser resistente à quimioterapia, a sorte de não apanhar nenhuma infeção hospitalar.

O cancro não se combate evitando pronunciar ou escrever a palavra cancro. O cancro não é A doença prolongada porque há muitas doenças de duração longa. O cancro não é A doença má porque há muitas doenças más. O cancro não é O bicho porque em 2020, ano em que a Carmo morreu, o bicho passou a ser sinónimo de coronavírus.

A Carmo era uma parente que encontrei por acaso nas redes sociais. Em 2014 ou 2015, li um comentário escrito pela Maria do Carmo Bica no mural de um antigo colega de liceu. Já tinha ouvido a minha tia falar na Carmo Bica e sabia que o António Bica era primo afastado da minha mãe. Pedi ao meu ex-colega de liceu para perguntar à amiga se ela seria filha ou sobrinha do António Bica e, caso a resposta fosse afirmativa, para lhe dizer que tínhamos uns trisavós em comum, e para lhe dar o meu número de telefone. Ela ligou-me meia hora depois.

Falámos várias vezes ao longo dos anos e falámos muitas vezes a partir do momento em que ela teve os primeiros sintomas de cancro, em pleno confinamento pandémico. Lembro-me do dia (no início de junho) em que ela me contou o que a médica lhe tinha comunicado na consulta da véspera e mencionou o ar aflito da internista estagiária que (também) assistiu a essa consulta.

O cancro é uma doença escorregadia. Falar dele e da importância dos rastreios no jornal que a Carmo dirigiu (e que é uma rede social local) também é uma forma de a recordar e de tentar travar o crescimento do cancro.

*jornalista do Expresso

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